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É, Natal

Então é Natal.

É televisão coletiva, normalmente em volume muito alto. É comer de empanturrar (no meu caso, família japonesa, é dia de sekihan). É comer mais do que se deve. É abraçar a tia. E o tio. É jogar papo furado com os primos. É prometer aos primos e tios que logo "vamos combinar alguma coisa" (que acaba nunca acontecendo). É querer abraçar todo mundo de uma vez só. É receber ligações estranhas, e achar ótimo. É receber mensagens queridas no celular. É enviar mensagens queridas, e não receber respostas. É ver fogos, e tentar imaginar de onde eles estão saindo. É estourar champagne (espumante ou algo que alguém tenha trazido) tomando cuidado para a rolha não acertar o lustre (ou voar na cabeça da irmã). Ou não derramar tudo na toalha de mesa. É se oferecer para lavar a louça. E quebrar um copo daqueles bem caros. É assistir à missa do galo e falar mal do papa. É assistir aos filmes religiosos mais chatos do mundo. É reclamar que a TV nunca passa A Última Tentação de Cristo num dia como esse. É beber cerveja direto na lata, mesmo quente. É não comprar presente pra ninguém, nem para sua tia mais querida que até hoje lhe trata como se você tivesse 8 anos. É não ganhar presente de ninguém e nem se importar muito. É perceber, horas depois, que ninguém mencionou o Papai Noel, e perceber que você é, provavelmente, a pessoa mais nova da casa no momento. É querer chorar por algum motivo, provavelmente por lembrar de alguém que morreu. É dar feliz natal coletivo quando alguém telefona para dar "feliz natal" para todo mundo. É falar frases desconexas de júbilo e exaltação na hora de brindar com as pessoas à meia-noite. É ficar feliz de estar ali, mesmo que você não saiba o motivo. É querer ir embora logo, mesmo que seja para ir direto para casa. É comer ameixa, daquelas que espirra na camiseta e na toalha de mesa. É comer uva passa com comida salgada e achar fino. É misturar o rachi com garfo e faca. É falar "comi demais", e abrir o botão da calça. É se despedir dos primos e tios com promessas e bons votos. É pensar que no almoço do dia seguinte, você verá quase as mesmas pessoas, para limpar o soborô de ontem. É lembrar dos brinquedos que ganhou em 1985 e achar a vida atual muito sem graça. É querer se dar um presente, mas ter a maior preguiça de gastar o dinheiro. É lembrar do Natal do ano passado e se confundir com o do ano anterior. É lembrar do ano passado e ficar melancólico, porque a vida era diferente. É começar a contar os dias para o reveillon. É se dar conta de que não sabe para onde vai no dia 31. É encontrar um presente em cima da cama. É jogar fora papel de embrulho (ou as embalagens de papelão do Submarino). É se prometer dormir até tarde, mesmo sabendo que precisa viajar logo cedo.

É isso. Isso porque nem acredito tanto assim em Natal.

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Comments (2)

Renato Kreisig:

Espetacular, Pablo! Feliz Natal!

Chega a ser meio assustador notar que quase todo indivíduo japonês segue uma receita para esses feriados com festa...

Se é que no meu caso o pessoal por aqui não liga muito para o natal, mas parece que toda a força(e comida) vai para o ano novo... e o ソボロ vem em doses bem maiores... Então se quiser um resto de leitão, é só mandar um mail :P

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