Sabado e domingo foram os dias da decisao. O clima de Copa imperava no ar, mesmo com o fim da festa se aproximando. Em Berlin, a Alemanha se vestiu de vermelho, branco e amarelo para acompanhar a ultima partida de sua selecao. O clima era de euforia absoluta, como se o Mannschaft estivesse na final, pronto para levantar a taca pela quarta vez.
Nao estava. Era apenas a disputa do terceiro lugar contra Portugal. Mas voce acha que algum alemao estava preocupado com isso? Nao fazia diferenca alguma. Importante era comemorar.
Festejar era preciso. Cantar tambem. O alemao eh bom de rima e cantoria, mas pessimo em criatividade.
Aus geht’s Deutschland schiss ein Tor, schiss ein Tor, schiss ein To o or! (vai la Alemanha, marque um gol, marque um gol, marque um go o ol!)
...werden wir Weltmeister sein! (nos vamos ser campeoes do mundo!)
E por ai vai. Musicalidade a parte, eh impossivel nao se contaminar e cantar junto. Uma hora antes do jogo, a Fan Meile, espaco localizado entre o Brandenburg Tor e a Siegsäule e local favorito dos boleiros berlinenses e dos turistas loucos por bola, estava praticamente tomada. Era a Torre de Babel futebolistica.
Focos de multidoes acumulavam-se frente aos diversos teloes, portando bandeiras, faixas e copos de cerveja quente. Camisetas de todos as selecoes podiam ser vistas, com enfase para os tricos locais.
Brasileiros nao eram poucos, mas, espalhados em pequenos grupos, nao faziam muita diferenca em meio aa massa. Perdemos, fomos embora.
As bandeiras tricolores eram agitadas a todo tempo, mesmo sob chuvisco, mesmo sob o tedio do primeiro tempo da partida, na qual nada aconteceu. E nao adiantou o Felipao chiar. Estava na cara que os gols sairiam no segundo tempo. Mas a torcida nao xinga o Klinsmann, o Khan, a mae do juiz, o Deco ou o Pauleta. O palavrao mais cabeludo que ouvi aqui foi algo que pode ser traduzido como "os seus pais sao irmaos!"
Antes da partida, apostei com o Guima que o grande nome da partida seria Bastian Schweinsteiger, camisa 7 da selecao tedesca. Por um simples motivo: ele eh o jogador com o nome mais divertido e interessante de toda copa. Numa traducao literal, seu nome significa algo como "montador de porcos“, ou algo que o valha. A torcida o chama de Schweine, ou "porquinho“. Tem como nao gostar de um cara desses?
Coincidencia ou destino, Schweinsteiger arrasou. Marcou dois gols e foi o responsavel pelo outro (seu chute resvalou na perna de Petit). Seu nome foi gritado pelos torcedores apaixonados, mas fomos nos que comemoramos, internamente, o sucesso de nossa previsao. 3 zu 1 seria meu chute em algum bolao. Estava na cara que os alemaes nao perderiam a ultima partida em frente ao seu pais. A vitoria era obvia e obrigatoria. Os alemaes nao desapontaram.
Mal o jogo acabou, a histeria emocionada se espalhou por toda extensao da Straße des 17. Juni. Nos teloes, a frase Danke Deutschland! Weltmeister der Herzen (obrigado, Alemanha. Campea dos nossos coracoes) estampava o sentimento de cada nativo ali presente: sim, perdemos a Copa, mas ganhamos em orgulho.
Nao foram poucos os jornais e revistas que elegeram o time alemao como o "campeao da pequena Copa“, sentimento que se contaminou pela populacao. Ou seja, mesmo nao ganhando, o time alemao superou todas as expectativas de seu povo. Foi uma festa digna de titulo mundial. O bronze tem gosto de ouro.
Gritos, urros, cantorias, buzinaco, bebedeira noite adentro. A populacao tomou as ruas de Berlin tal qual em uma revolucao. Ate a festa eh bem organizada. Os Polizei acompanham de longe, sem esbocar reacao em seus uniformes verdes. Garrafas sao quebradas, mas os garis em fila nao deixam os cacos machucarem ninguem. Ate torcedores portugueses participam pacificamente. A urbe toma o meio das ruas, os metros e os bares. Os batuques sincopados e descoordenados dos tambores revelavam: alemaes sao ruins de samba, mas sao excelentes em comemoracoes.