Cinzas
O mundo todo viajou, mas muita gente ficou. Gente suficiente para lotar os cinemas, o museu, os estacionamentos, restaurantes, o shopping. Não peguei congestionamento às 5 e meia na Rebouças, mas demorei 45 minutos para conseguir largar o carro num parquinho ao lado de casa (o tal do Ibirapuera, conhece?).
Lembro de uma história sensacional do insuperável Spacca, publicada na finada revista Níquel Náusea, há uns 15 anos. Em um feriado prolongado, São Paulo inteira viaja para o litoral. A meia dúzia restante fecha as fronteiras e impede que as pessoas voltem, para manter o eterno clima de feriado na cidade. Estragando a surpresa, no final, a polícia prende alguns dos revoltosos, que sofrem lavagens cerebrais e acabam tornando-se hippies vendedores de artesanato na Praça da República.
(Contando assim não parece ter graça, mas é um dos melhores enredos de quadrinhos de todos os tempos, nesta humilde opinião).
Hoje, a arte não imita mais a vida. Mesmo que todo mundo que conheço tenha pego estrada, milhões continuarão a curtir seus feriados nos mesmos lugares em que eu escolher. E já que deu preguiça de juntar o pessoal para colocar barricadas nas fronteiras, ficou por isso mesmo. O feriado acabou, o aniversário também. Hora de levar coisas a sério.
***
Eu explico.
Fases como essa agora são assim, ó. O humor se altera em sincronia com as mudanças de canal.
Clique. Animado, satisfeito, surpreso, valorizado, sortudo, feliz. Clique.
Em seguida, de repente, sem avisar, clique.
Esquecido, desmerecido, inadequado, desvalorizado, azarado, miserável.
Clique. E volta tudo para o início.
É um carnaval de emoções no seu Carnaval.