Resolvi colar aqui a cobertura do Festival do Rio de 2007 que fiz pela revista Zé Pereira - que continua na internet na forma de um dos blogs mais legais por aí. Só porque esses textos (resenhas de filmes e notas sobre o Festival) estavam em um site a parte e queria guardar tudo em um lugar só. Na ordem cronológica, começando pela minha apresentação:
Arnaldo Branco: Jean Luc Reichenbach de Von Sternberg Arnaldo Branco-Bresson teve que adotar como nome artístico simplesmente Arnaldo Branco por questões de humildade e também processuais. Cartunista de formação, se sente desobrigado a repetir os cacoetes da crítica viciada, como escrever “derivativo” ou ter que efetivamente assistir aos filmes. Mediante pagamento, fará uma cobertura isenta do Festival, pelo menos das festas.
Flamengo até morrer de cirrose
O Engenho de Zé Lins (Dir: Vladimir Carvalho, Brasil, 2007)
Queria ter visto ontem "Irina Palm", o filme sobre uma velhinha (Cristo, a Marianne Faithfull) que masturba homens e mulheres por dinheiro, só porque já tinha um título pronto para a crítica: "Tocante" - mas o editor Zé José me convenceu a ver "O Engenho de Zé Lins" com um argumento definitivo: "toca o Hino do Flamengo três vezes". Mesmo sabendo que corria o risco de arrumar briga por me sentir tentado a levantar na poltrona com a mão espalmada no peito durante as execuções, fui assistir.
Apesar da enviada especial da Globo ao tapete vermelho do Festival afirmar categoricamente que documentário não é cinema (o que me fez pensar: pornô sem história é realmente pornô?), abri os trabalhos com essa sensacional produção de Vladimir Carvalho sobre José Lins do Rego, escritor associado aos canaviais, ao Flamengo e a questões de vestibular - maneira que nossos pedagogos inventaram para matar qualquer curiosidade dos jovens a respeito de autores de interesse.
Vladimir vai ao Engenho de Itapuá mostrar que o cenário fundamental do corpo da obra do escritor - que descrevia um mundo em decadência - já está em estágio de fossilização. Seu encontro com o ator Sávio Rolim, que fez o papel título em "Menino de engenho" de Walter Lima Jr. e agora em estado de demência, ajuda a sublinhar a idéia. O depoimento de Ariano Suassuna (que tem um momento de digressão genial sobre um cachorro que invadiu o palco de uma encenação de "Antígona") faz um paralelo entre o esquecimento do Engenho e a subvalorização da obra de Zé Lins pela crítica.
Os depoimentos, aliás, dão grande força ao documentário - além de Suassuna, familiares, Carlos Heitor Cony, Rachel de Queiróz - o poeta Thiago de Melo dá um testemunho extenso e detalhado sobre a agonia dos últimos dias de seu amigo; mas o que poderia ser um relato digno de uma tia velha em uma festa familiar entediante é temperado com espisódios de pura graça, como o do trote que o escritor o obrigou a passar em uma senhora.
Aliás, o tom do filme reflete o que dizem os entrevistados sobre a personalidade de José Lins do Rego - ora melancólico, ora esfuziante, como a parte sobre o fanatismo pelo Flamengo com cenas de arquivo do time em ação embaladas pelo Hino Sagrado. Resisti a levantar, mas cantei junto.
A sessão seguinte no Odeon seria a do filme "Nome próprio", baseado em livro de Clarah Averbuck, menina de nenhum engenho. Me fale sobre um mundo em decadência...
Cinefilia é crime, denuncie
Por Arnaldo Branco
Esta tarde, enquanto tentava me concentrar no meu roteiro de filmes (já garanti 8 ingressos, muitos deles por critério de eliminação, como o de hoje, "Entrevista" do Steve Buscemi, não faço idéia do que se trata) era constantemente atrapalhado no Espaço Botafogo pelas conversas paralelas dessa raça do meu particular desagrado, o cinéfilo.
Acho que o cinema, embora seja minha arte predileta (com o pompoarismo em segundo), atrai o tipo de imbecil que acredita em alguma espécie de osmose cognitiva, onde o acúmulo de filmes assistidos valeriam pontos em um sistema de milhagem de QI. Às vezes serve como um atestado de inteligência para pessoas não muito familiarizadas com o esforço intelectual (e com o físico tambem, o cinema poupa até o trabalho de virar a página). Não é a toa que o proverbial comentário atribuído a pessoas superficiais é "não li o livro, mas vi o filme".
Daí o monte de merda que você é obrigado a ouvir enquanto escolhe o que assistir - da boca de alguém com uma pose de autoridade mais marrenta que a do Capitão Nascimento em Tropa de Elite. Sei que tem um círculo no Inferno só pra esses caras, e se o Diabo é justo, um abaixo de outro círculo em obras.
Shut the fuck up Donny
Entrevista (Dir: Steve Buscemi, Eua, Holanda, 2007)
Essa é a frase que Steve Buscemi (na pele de Dony, óbvio) ouve em intervalos de 5 minutos em O Grande Lebowski (irmãos Coen) - e que me ocorreu durante toda a projeção desse Entrevista, remake de um filme holandês dirigido por Steve. Um grande problema, já que só tem dois personagens que falam o tempo todo.
A história: o jornalista de política Pierre Peter (Buscemi) é obrigado a entrevistar Katya (Siena Miller), uma atriz de novelas e filmes B, e eles se dão mal de cara. Mas o destino, ou o Grande Deus Roteiro, resolve dar uma forcinha e uma segunda chance para os dois e junta o casal no loft de Katya para continuar a entrevista - na real uma sessão de teatro filmado de baixo orçamento.
O principal problema está nos personagens - Steve Buscemi pode fazer o público eventualmente acreditar no mau-caratismo ou nas boas intenções de seu Pierre, mas o sujeito é invariavelmente mala. A Katya de Siena Miller também, mas ela é a dona do apartamento e não se entende porque aceita a presença de um sujeito que manda tantas invertidas grosseiras mesmo quando parece que os dois vão chegar a um acordo.
Fica um jogo de gata e fuinha que já foi melhor filmado, e com reviravoltas de enredo mais críveis, em Oleanna (de David Mamet, William Macy como o feioso da vez). Rola até um beijo, embora qualquer celebridade com o condicionamento físico de Siena provavelmente chamasse a polícia diante da visão da arcada dentária de Buscemi.
Entrevista abusa do recurso da reversão de expectativa (às vezes ela parece má, ele bom, depois inverte, aí parece que ela vai sair por cima, depois ele etc). Comigo aconteceu algo parecido: escolhi o filme por eliminação e não tinha a menor idéia da sinopse, comecei gostando e depois me aborrecendo. Como um Robinho, Buscemi tentou uma firula a mais e acabou desarmado.
A Classe Média vai ao Orgasmo
Por Arnaldo Branco
Na época do referendo do desarmamento, quando alguém defendia o direito do Cidadão De Bem (entidade em que - no meu sincretismo religioso - até acredito mas nunca vi) portar armas, lembrava daquela cena de Love and Death com o Woody Allen tentando levantar uma pistola com o dobro de seu tamanho.
Voltei a pensar na Classe Média nessa representação fracote e desajeitada depois de ler que ao fim da sessão especial de Tropa de Elite muitos gritaram em apoio ao Bope ("Caveira!") e outro dia toda a praia aplaudiu o cooper de uma unidade do batalhão. Fica meio explicíto o subtexto homossexual da admiração do Cidadadão De Bem pelo trabalho da polícia, desde que feito bem longe da Zona Sul. É uma admiração de donzela em perigo, de irmão mais novo que apanhou na escola e conta com o apoio do mais velho para a vingança.
Tenho a nítida impressão que se o Bope baixar as calças, a Classe Média chupa.
Top 5 Filmes com nomes típicos de Festival
Por Arnaldo Branco
- Papel não embrulha brasas - "Le papier ne peut pas envelopper la braise", de Rithy Panh (França 2006)
Esses franceses são imbatíveis. Papel não embrulha brasas, tesoura corta papel, papel embrulha pedra etc
- Debaixo do gelo a água é quente - "Jin tian de yu ze me yang?", de Fuo Xiaolu (China / Reino Unido 2006)
Notem que o tradutor eliminou a pergunta
- Oxalá Cresçam Pitangas - idem, de KiOndjaki Kiluanje Liberdade (Angola/Portugal 2006)
Aqui o tradutor não pode levar a culpa
- Se o vento levanta a areia - "Si le vent soulève les sables", de Marion Hänsel (Bélgica/França 2006)
Esse "Se" Italocalvinista entrega o jogo. Deve ser uma produção co-irmã (uma bilogia?) de "Papel não embrulha brasas"
- 5 Frações de uma quase história - idem, de vários (Brasil, 2007)
Título fracionário para uma possível crítica: "1/2 boca"
Tocante
Irina Palm (Dir: Sam Garbarski; Bélgica/Alemanha/Luxemburgo/Reino Unido/França 2007)
A prostituição pode ser a mais antiga profissão do mundo, mas a atividade não-remunerada é a punheta. Nesse "Irina Palm" (produção germofrancobelgoluxobretã) o sexo solitário transformado em negócio é válvula de escape da solidão real de uma viúva (Marianne Faithfull, 61, fazendo uma "mulher de meia-idade" - baixaram o gabarito?).
Marianne (deixando crescer uma terceira papada) é cantora e atriz e foi famosa namorada de vários Rolling Stones (comentário dela: "eles detonaram a minha vagina"). Aparece nesse interessante filminho com o excesso de bagagem de todos seus bem-vividos anos. "What a drag is getting old", cantaria Mick Jagger.
A trama: a pobre e desinteressante inglesa Maggie tem um neto sofrendo de doença rara. Existe tratamento, e gratuito, mas é na cara e distante Austrália. O filme não explica como o sistema de saúde de um país pode beneficiar um paciente de outro, talvez por algum sistema de convênio maluco com a ex-colônia que me escapa o conhecimento.
De qualquer forma, ingênua que só, procura emprego de atendente em uma boate suspeita e ouve, no sotaque do leste europeu do proprietário Miki (Miki Manojlovic): "atendente é um eufemismo. Sabe o que é eufemismo? Eu também não sabia, mas meu advogado me explicou..."
As atendentes masturbam clientes através do buraco de uma cabine por até 800 libras por semana (indies brasileiros fascinados pelo Reino Unido, taí a dica), mesmo sob o risco de desenvolver dores por esforço de repetição. Com o pseudônimo de Irina (Miki:"é o nome de muitas mulheres bonitas de onde venho") Palm ("palma"), Maggie vira uma lenda no meio, atraindo grande clientela a fim de se esvaziar.
A idéia do filme é divertir pelo inusitado, e consegue, mas perde por precisar do auxílio dramático do piegas (a doença do neto, o medo de ser flagrada pelo filho, as cenas que servem para reforçar a idéia de sua inadimplência). A Inglaterra já nos deu um filme simpático como esse sem o mesmo apelo ao dramalhão,"Ou tudo ou nada" (The full monty, 1997), também sobre gente flácida e barriguda obrigada pelas circunstâncias a se virar na indústria do entretenimento adulto.
A força está na relação afetivo-comercial de Miki e Maggie, grande desempenho dos atores, e nas passagens engraçadinhas. Como na masturbação, vale pelo alívio, nesse caso cômico.
Sicko
Por Arnaldo Branco
Quando escreveu sobre "Cidade de Deus" na época do lançamento, o Arnaldo Jabor afirmou que aquele filme tinha tornado impossível a pizza depois do cineminha. É caso de perguntar aos donos de restaurante, mas me pareceu exagerado. Agora leio que o Arnaldo Bloch teve vontade de vomitar o pastel de cordeiro depois de assistir "Tropa de elite" e meu camarada JP Cuenca, dificuldade em digerir um de carne moída depois da mesma sessão. Ou a inspeção sanitária precisa dar uma batida na cozinha do Odeon ou está provado que o cinema-denúncia tem efeito deletério sobre a atividade estomacal.
O medo do crítico diante do filme
Medo da Verdade (Dir: Ben Affleck, Estados Unidos, 2007)
Uma vez perguntaram para o Chris Rock sobre a responsabilidade de apresentar a cerimônia de entrega do Oscar. Ele: "grande coisa o Oscar - o Kevin Costner tem dois!".
Ben Affleck tem um (roteiro orginal, "Gênio Indomável") e seu índice de rejeição com a crítica só não chega ao nível de Costner em função do menor tempo de desserviços prestados, no caso, como ator. "Medo da verdade" ("Gone, baby, gone") é sua estréia na direção e o fato de ter escalado para o papel principal seu irmão Casey não foi de muita ajuda para aumentar minhas expectativas. Já assisti três filmes em que fez papéis de destaque, mas só descobri isso puxando sua ficha no imdb - acredite se quiser, o Affleck melhorzinho é o Ben. Confesso que fui mais pela curiosidade mórbida.
O roteiro (de Ben Affleck e Aaron Stockard) é uma adaptação de Dennis Lehane, autor também do livro que Clint Eastwood filmou em "Sobre Meninos e Lobos" - e como aquele é a história do rapto de criança com consequências dolorosas para os personagens. O cenário é uma Boston favelizada.
Patrick Kenzie (Casey) e sua companheira Angela Gennaro (Michelle Monaghan) - personagens recorrentes de Lehane - são os detetives contratados por um casal que teve a sobrinha raptada para fazer uma investigação complementar ao trabalho do oficial Doyle (Morgan Freeman) e do detetive da polícia Broussard (Ed Harris). A mãe é um caso perdido de auto-medicação radical e suas ligações levam a crer que a menina foi levada como nota fiscal de uma dívida com um traficante.
Noir em que o protagonista ao invés do sobretudo usa um moletom com jeito de peça de pijama, o filme ameaça na primeira cena ser permeado por uma narração em off cheia de filosofia barata (graças a Deus só temos dois trechos sozinhos com os pensamentos de Patrick/Affleck, que ainda por cima tem voz de golfinho). Mas depois do susto, surpresa, o filme é bom.
Acompanhamos com interesse o périplo do franguinho Patrick e da namoradinha Angie peitando suspeitos e testemunhas, na maior parte brucutus tatuados que com toda razão não dão nada pelo almofadinha. As reviravoltas na trama telegrafam o passe mas a idéia parece ser mesmo entregar a trama para o público algumas cenas antes do que para os detetives. Tem duas seqüências de respiração suspensa antes de troca de tiros (as duas no escuro) que nos fazem pensar se não seria a hora do Affleck mais velho tirar definitivamente seu queixão de frente das câmeras para - quem sabe - descobrir sua verdadeira vocação atrás delas.
Só uma nota destoante, a Angie de Monaghan é um belo objeto de cena mas parece estar ali só para ser usada como contraponto a uma pouco plausível crise moral de Patrick no clímax. No mais, entra muda e sai (mais do que entra) calada.
Cineasta-bomba
O Preço da Coragem (Dir: Michael Winterbottom, Estados Unidos, 2007)
Michael Winterbottom é um franco-atirador míope com uma grande lista de vítimas inocentes. Seus projetos não tem nenhuma conexão aparente além da autoria do atentado. Aqui ele filma o drama real de Daniel Pearl (Dan Futterman, 10 minutos no máximo de tela), jornalista americano enviado ao Paquistão seqüestrado e mantido refém por um grupo terrorista até a sua decapitação.
Lá pelo final do filme Angelina Jolie, na pele da viúva grávida de Pearl, diz para um repórter que quer saber se ela viu o vídeo que os sequestradores fizeram da degola de seu marido: "você não tem nenhuma decência?". Talvez fosse o caso de Mariane Pearl repetir a pergunta para o espelho, já que escreveu o livro de nome infeliz "Um Coração Poderoso" que fornece o álibi dessa produção aqui.
"O Preço da Coragem" é quase todo filmado como um documentário, com cortes bruscos e ritmo acelerado (lembrando o estilo de Paul Greengrass em "Domingo Sangrento" e "United 93"), o que empresta cadência ao que toma a maior parte da trama, a busca das autoridades paquistanesas pelo cativeiro. Infelizmente não há cortes bruscos e nem ritmo acelerado nos flashbacks românticos (desnecessários, um beijo na barriga da esposa gestante nos primeiros minutos já tinha estabelecido a idéia de casamento feliz) e na cena de Angelina urrando "noooo", nooooo" quando sabe da morte de Daniel.
Saí da sala de exibição e encontrei na fila da sessão seguinte um amigo que quis saber o que achei. Instintivamente fiz o gesto de passar o dedo indicador numa linha horizontal na altura do pescoço.
A Grande Ilusão
Por Arnaldo Branco
Vou pouco ao cinema, e só a filmes que me parecem promissores. A média é 3 por ano, e nem todos correspondem à expectativa - meu barato é filme antigo e de diretores que admiro; na locadora devem me achar sovina porque são bem mais baratos. Portanto me causa espanto essa gincana de Festival com neguinho correndo atrás de vários (o Globo fez uma lista de 40) filmes "imperdíveis". Como dizem por aí, brasileiro não sabe perder.
É o que meu camarada João Mors chama de nevrose de novidade. Estamos em uma fase em que o segundo filme de algum Jean Luc Ninguém é chamado de "um Jean Luc Ninguém menor". Outro que estreou anteontem já é considerado um cineasta de carreira. Isso é o que em futebol é chamado de "queimar juvenil" - aí o fã de primeira hora é obrigado a ver os filmes ruins de uma eterna promessa frustrada como o Hal Hartley para toda a eternidade.
E tem essa enxurrada de diretores asiáticos. Pelo menos aí rola uma vantagem, todos têm nomes complicados e difíceis de virar adjetivo. Acho que não corremos o risco de ler algum crítico escrever sobre o "Universo WongKarWainiano".
Visão de jogo
Por Arnaldo Branco
Enrolado com matérias para várias revistas e pornografia online, não vi nenhum filme este fim de semana. Mas bati ponto no Maracanã para Flamengo x Atlético, onde a torcida, enfrentando mais uma vez a fraca concorrência do time, roubou o espetáculo.
O Flamengo é muito parecido com o cinema nacional: tem grande público consumidor potencial, mas é deficitário. Um dos motivos é o material humano disponível e a falta de peças de reposição - sai Cacá Diegues e entra Moacyr Góes? Jeez. E outra: por que filmamos pouco o futebol? O Canal 100 deve ter deixado mais fotogramas na memória do público do que qualquer filme da retomada com a possível exceção de Olga, difícil de esquecer como qualquer experiência traumática.
Nelson dizia que nossos escritores não sabiam bater um escanteio, mas aliviou para os cineastas. É impressionante que o número de filmes de ficção sobre o assunto seja residual e inacreditável que alguns tenham sido estrelados por pernas de pau do naipe de Edson Celulari e André Gonçalves. O futebol é o óbvio ululante.
I'm not there - Tô nem aí
I'm not there (Dir: Todd Haynes, EUA, 2007)
Dias D da música popular como o do encontro de Lennon e McCartney em uma quermesse, o do concerto desastroso dos Stones em Altamont ou o da entrevista dos Sex Pistols no programa de Bill Grundy são marcos na Linha do Tempo particular do fã de rock, episódios que têm mais importância que o Concílio de Trento ou a Tomada da Bastilha para o nerd heavy user de cultura pop. Se eles podem render bem cinematograficamente é Outra História.
Esse "I'm not there" reproduz a vida de Bob Dylan em mitos (sempre confundiu a imprensa com suas mentiras) e acontecimentos (imagens captadas em vídeo reencenadas trejeito a trejeito, embora algumas com a ambientação trocada). Para isso usa vários atores (e uma atriz, Cate Blanchett) representando Dylans de várias fases de sua carreira (o iniciante de música folk, o anfetaminado convertido ao rock, o trintão fazendo discos sobre divórcio), todos com heteronômio para deixar mais clara a distinção.
Os eventos marcantes de sua trajetória são filmados com solenidade, e mesmo sofismas e platitudes de um artista eternamente sem saco para entrevistas, discussões sobre sua "mensagem" e fãs seriais são tratados com reverência que só fazem sentido para iniciados em Rockologia com a disposição de um cultuador de Star Trek. Não ajuda muito que a narração não seja linear e o todo tenha uma cara de colagem experimental, embora com a fotografia lavada de uma grande produção. Cada fotograma parece ser a pose para uma capa de disco e uma brincadeira de "onde está wally" referencial.
O diretor Todd Haynes evidentemente acredita na mitologia do rock e acha que a tour por esse armazém de memorabília tem interesse para mais alguém que não Dylanmaníacos - ou, pelo contrário, conta só com eles para fechar o borderô. Haynes também terá que responder diante dos Portões Perolados por "Velvet Goldmine", outra cinebio rock'n'roll de mentirinha sobre o período glam (início da década de 70), em que advoga a tese de que a música da época era tão poderosa que as letras com insinuações andróginas podiam levar você efetivamente a dar a bunda.
Perdeu, Haynes: esse clip recente com o remix de Mark Ronson para "Most likely you will go your way (and I´ll go mine)" parte da mesma premissa e chega mais longe - com uma economia de 130 minutos. Não perca a oportunidade.
It was you, Chávez
J.C. Chávez (Dir: Diego Luna, México, 2007)
Charlie: Look, kid, I - how much you weigh, son? When you weighed one hundred and sixty-eight pounds you were beautiful. You coulda been another Billy Conn, and that skunk we got you for a manager, he brought you along too fast.
Terry: It wasn't him, Charley, it was you. Remember that night in the Garden you came down to my dressing room and you said, "Kid, this ain't your night. We're going for the price on Wilson." You remember that? "This ain't your night"! My night! I coulda taken Wilson apart! So what happens? He gets the title shot outdoors on the ballpark and what do I get? A one-way ticket to Palookaville! You was my brother, Charley, you shoulda looked out for me a little bit. You shoulda taken care of me just a little bit so I wouldn't have to take them dives for the short-end money.
Charlie: Oh I had some bets down for you. You saw some money.
Terry: You don't understand. I coulda had class. I coulda been a contender. I coulda been somebody, instead of a bum, which is what I am, let's face it. It was you, Charley.
Essa cena clássica, um show de Marlon Brando em "Sindicato de Ladrões", homenageado por Scorsese e De Niro em "Touro Indomável" é a favorita de 10 em 10 sujeitos - não só boxeadores - que acreditam que sua vida não deu certo por influência alheia, alguma força exterior.
Lembrei dela assistindo JC Chávez, documentário correto porém superado pela magnitude do homem em estudo. Julio César Chávez é o boxeador mexicano, dono do recorde de defesas de título (dos superpenas, 37 vezes) e de um cartel impressionante: 107 lutas, 1 empate e 6 derrotas - a última delas encerra o filme.
Quando perdi de vista um dos meus ídolos do esporte, em meados dos anos 90, ele estava atingindo resultados inéditos na carreira: estava perdendo. Mas antes sua invencibilidade tinha durado quase 100 lutas, e devido a sua popularidade e pelo número de vezes que pôs o cinturão em jogo em combates milionários, tinha certeza que hoje Chávez estaria curtindo uma aposentadoria de sonho.
Não: segue, aos quarenta anos, fazendo lutas de "despedida" por ter perdido fortunas com divórcios, se defendendo em tribunais de ligações com o narcotráfico e confiando em Don King, mafioso com status de promoter.
Diego Luna, o ator-garotão de "E tu mama también", consegue várias cenas pungentes, menos por seu mérito de diretor e mais porque o velho boxeador se expõe mais do que seria aconselhável para preservar sua dignidade.
"Palooka" é o termo usado para boxeador fracassado e bastante usado pela equipe de Chávez para se referir a seus adversários, e é triste ver um desses perdedores escolhidos a dedo ganhar facilmente do ex-melhor do mundo. No fim de uma carreira perfeita, Chávez ganhou um bilhete só de ida para Palookaville.
Gugu dadá maravilha
Por Arnaldo Branco
Instado a escrever mais pelo editor interino Estevão (o Zé José, qual um Jacques Custeau, saiu em missão exploradora para descobrir em que rincões ermos, quiçá abissais do Brasil também existe festival de cinema), mando um texto sobre um assunto batido e apenas vagamente relacionado ao Festival do Rio porque envolve produção cinematógrafica e comentários idiotas do José Wilker: a escolha de "O ano em que meus pais saíram de férias" para representar o Brasil no Oscar.
Não sei quanto às chances de "O ano...", embora Emir Kusturica tenha perdido em 1985 com um filme com o mesmo tema (a ditadura era a iugoslava) e de nome parecido "Quando papai saiu em viagem de negócios", mas posso afirmar que ajudou a reforçar a minha fé no método de escolha Deixe Seus Preconceitos Correrem Livremente que manda desconfiar de filmes 1) brasileiros 2) com criança 3) e velhinho 4) e o governo Médici por pano de fundo. Como esse é o primeiro de que tomo conhecimento, prontamente deixei de assistir, mas devido a situação de insegurança no país, fui atingido em pleno lar, via DVD.
Essa mistura de Menino Maluquinho com Pra Frente Brasil pode enganar esses críticos que acham que a supressão de diálogos inteligentes faz bem à naturalidade das atuações, mas não a mim. No filme, todo mundo fala que nem criança, até os adultos, e mesmo que estejam discutindo futebol em um boteco - ninguém fala um "caralho!" e olha que o técnico era o Zagalo. Aposto que se o delegado Fleury fizesse uma aparição ia dizer que a subversão é uma coisa muito feia e botar o Caio Blat de castigo.
Mas enfim, é aquela corrente pra frente, no Oscar meu palpite é Brasil e Índia na final.
O empate é um bom resultado
O Acompanhante (Dir: Paul Schrader, Reino Unido/EUA, 2007)
Me identifico com o Lula. Ele é um presidente diletante, sou um crítico de cinema idem. Além do mais fazemos nosso trabalho ao mesmo tempo em que mandamos metáforas futebolísticas ridículas.
Em quase todas as - cof - resenhas que postei aqui usei alguma comparação com o esporte ou alguma expressão associada a ele para comentar os filmes. Esta não é uma exceção.
Sendo Paul Schrader um dos meus heróis, passei o tempo todo de projeção torcendo para que seu filme fosse bom, e terminei a sessão espiritualmente rouco de tanto emanar incentivos. Porque é um jogador consistente, não fez feio mas também não brilhou.
"O Acompanhante" do título é Woody Harrelson, um prognata natural que nesse filme parace ter feito como o Brando de "O Poderoso Chefão" e enchido de papel higiênico o maxilar inferior para realçar. Ele é o fofoqueiro oficial de um grupo de senhoras (entre elas Lauren Bacall, obrigada a ouvir em uma cena que testemunhou o crack da Bolsa de 29) casadas com o Poder na forma de vários tipos de maridos ausentes.
Um deles, um político liberal (Willem Dafoe, uma ceninha e meia de participação) é chifrado pela mulher (Kristin Scott Thomas) com um lobista que aparece morto. Woody, fiel camareiro, tenta protegê-la de uma investigação de fachada sem outro objetivo que não cobrir de lama o personagem de Dafoe. Para isso conta com a ajuda do namorado papparazzi - e só com ele, porque cai em desgraça com a roda de bridge de coroas que o ajudam a sustentar a fachada de sua eminência parda.
A despeito da inverossimilhança (o casal gay sozinho no mundo põe de joelhos caras superpoderosos que lidam com petrodólares), é sempre bom ouvir o diálogo inteligente de Schrader e sua direção do tipo "cut the crap". A câmera pode até passear, mas as coisas continuam acontecendo nem que seja em off, alívio nesses dias em que a síndrome de déficit de atenção de certos diretores ganha status de arte.
Não compromete.
Top 5 por dinheiro
Por Arnaldo Branco
Assisti a poucos filmes, e os que mais gostei (Death Proof, Tarantino, e Before the Devil knows you're dead, Sidney Lumet) na verdade não vi. Então vou fazer uma lista de 5 melhores coisas relativas ou vagamente relacionadas ao Festival. Taí:
1 - Melhor comentário babaca: "Quem assistiu Tropa de Elite pirata é um canalha", José Wilker - Palmatória do Mundo de Ouro para o cara. Xingou todos os brasileiros, incluindo o Ministro da Cultura e o Governador do Estado do Rio, que costumam dar emprego pra ele, muito corajoso o Wilker.
2 - Melhor maquiagem: Deus, pela transformação da Marianne Faithfull ("Irina Palm") em uma bruaca horrosa , tarefa que parecia impossível. God Did it again.
3 - Melhor sessão vazia: JC Chávez, com cinco espectadores - sendo um deles uma senhora que parecia perdida e minutos antes do filme começar perguntou "esse não é sobre o Hugo Chávez?"
4 - Melhor trilha sonora: "I'm not there", pena que os atores mal-educados do filme falavam alto durante a execução dos clássicos do Dylan.
5 - Melhor cinéfilo: é o cinéfilo morto.