Coward new world
Texto que escrevi para o broda Ronaldo Evangelista - imagino que possa publicar aqui, é da época em que o Dunga escalava o Afonso - éramos menos infelizes e não sabíamos.
Jovem Guarda
"Don't clap too loudly. This is a very old world" - Tom Stoppard
Há uma diferença entre a importância da renovação e a necessidade de inventar. Quem acompanhou o aproveitamento do Afonso na seleção do Dunga está seguindo meu raciocínio.
Digo isso porque vivemos hoje um frenesi da novidade. Imagino que nem o executivo de gravadora que recusou os Beatles deve ter experimentado o grau de nóia que nossos cool hunters amadores enfrentam toda vez que sai uma lista da NME. É a síndrome de Herodes, o medo de deixar passar batido algum novo messias...
A necessidade de se prestar atenção no novo é um pouco como o voto obrigatório, que tem uma lógica difusa e você não entende a implicação moral. Toda vez ouço alguém defendendo, em geral em causa própria, a premência de se dar espaço para o novo, lembro de todas os consertos adiados na minha casa. Ajuda na perpectiva e a estabelecer prioridades.
Sendo um torcedor do Flamengo criado na Era Zico, tive bastante tempo para desenvolver minha capacidade de relativização e aprender sobre os ciclos da natureza - se todo time vive uma má fase, por que não a humanidade? Dizem que talento pula uma geração, e está aí toda a nova MPB pra provar - quem sabe não vivemos um fenômeno mundial e simultâneo?
Como quase ninguém tem tempo para absorver todas as novidades, boa parte do interesse em acompanhar os últimos lançamentos tem a ver com ostentação intelectual. Muito da graça está em ser visto sendo antenado, mesmo que daqui a um mês o hype tenha se esvaziado e ter caído nele seja motivo de vergonha alheia - mas quem se lembra de um mês atrás? Qualquer coisa você pode dizer que era consumo irônico.
Tem também o fator idade. É perdoável num adolescente a dificuldade em distinguir onde está o ouro em toda aquela produção cultural que ele perdeu enquanto não existia, ainda mais com tantos hormônios atrapalhando. Mas fica feio em gente mais velha e com visão mais ampla, e em alguns casos cansada, do panorama. Tiozão up to date, mal do pós-pós-modernismo.



Comments
poisé, o talento do nosso futebol pulou uma geração
Posted by: gabriel | junho 17, 2008 4:17 AM
É, meu caro. Me lembro de uma amiga que era amiga de algum integrante dos Hermanos, e ela um dia quis me apresentar e eu me neguei, já que em algum momento ele iria falar de música e eu iria ter que falar que a músia dele era uma merda.
Posted by: Pecin | junho 17, 2008 10:14 AM
Arnaldo,
há tempos escrevi no meu blog algo sobre o mesmo assunto. Dá um confere lá em http://comoeueratrouxaaos18anos.wordpress.com/2007/12/03/nao-tenho-mais-paciencia
Posted by: Mauricio O. Dias | junho 17, 2008 2:09 PM
A culpa é das artes plástica, as usual. A crítica execrou fortemente o impressionismo, e 30 anos depois, os críticos foram os execrados. Assim ocorreu com os outros ismos até comecinho do séc. XX. Depois disto, a crítica perdeu a coragem de recusar as coisas em primeira mão.
Posted by: Pierre | junho 18, 2008 3:31 PM
Lindo blog, delícia de ver e de sentir.
Parabéns! o resto é fácil. Abraço.
Posted by: naturline | junho 19, 2008 5:59 AM
Contra-revolução. Esse é o termo.
Posted by: Queijo | junho 20, 2008 11:02 PM