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Sangue mau

F.



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Gun for hire

Esse é o briefing do editor:

Histórias (inventadas) da televisão - é a última página da revista, pra terminar de um jeito engraçado e despretensioso. a idéia é pegar um fato histórico da tv e contar uma história paralela a ele totalmente inventada. Dá pra ser maldoso, mas sendo vinculada à corrente do humor engraçado já está bom. 3 mil toques.

Essa é a primeira coluna que escrevi para a MONET:

Histórias (inventadas) da televisão

Festival Internacional da Canção, Rede Globo, 1968. Todos sabem a história do discurso de Caetano Veloso em resposta às vaias para "É proibido proibir" na eliminatória paulista, da preferência do público por "Para não dizer que não falei de flores", da vitória contestada pela platéia de "Sabiá" (Tom Jobim e Chico Buarque). Mas não sabem da história de uma música perdida que o júri resolver eliminar para evitar problemas.

Theofilo Moura Durão era cabo do Exército, lotado no 26º Batalhão de Infantaria Pára-quedista. Era um sujeito revoltado com o que ele chamava de "polarização à esquerda da juventude brasileira", especialmente de Sandra, ex-namorada que agora o chamava de gorila, logo ela que era a sua pituquinha. Sabendo do teor político radical dos Festivais da Canção, e arranhando um cavaquinho razoável, sentou-se um dia para escrever uma música que expusesse tudo o que pensava.

Em dois minutos e meio, exatamente o tempo do intervalo do programa que assistia, Teatrinho Troll, compôs o sambinha "Corte esse cabelo ridículo", que na gravação ficou em 8min:27seg - era realmente um desabafo. Tinha versos como "gente de bem tem que ter um sustento / no próximo dia quinze compareça à junta de alistamento" e a citação a "Blowin' in the wind", de Bob Dylan: "A resposta, meu amigo / você vai me dar no interrogatório".

Theofilo juntou alguns parceiros de dormitório e formou o conjunto "Reaça Negra", embora todos fossem brancos: o violonista Ademilson "Torniquete" Louzada, Jão "Recruta Zero" das Dores no surdo, Marcelo Pezão no tamborim. Gravaram em um estúdio improvisado na garçoniére de Torniquete e mandaram a fita para a consideração do Júri do III FIC.

A comissão julgadora não sabia o que fazer com a música. A harmonia, melodia e letra pareciam horríveis, mas era 1968, a imaginação estava no poder e sabe lá se aquilo era alguma coisa hippie genial que os membros da banca não estavam preparados para entender. Já tinham desclassificado Hermeto Paschoal em uma edição anterior achando que o multiinstrumentista estava de sacanagem com a cara deles por fazer um arranjo para flauta e cadáver de cachorro, e dessa vez não queriam cometer outra gafe.

Apelaram para uma solução política e passaram a questão para os superiores de Theofilo no Batalhão. Por sorte o comando interino estava na mão do Coronel Edmundo Cerqueira, homem austero porém de hábitos finos, que achava samba "coisa de pobre, comunista e de cantoras de hábitos sáficos". Cerqueira proibiu a participação do Reaça Negra no Festival e ainda mandou os músicos para uma temporada na cadeia, "excelente lugar para se tomar gosto pela leitura".

Theofilo nunca mais compôs, embora ainda guarde o cavaquinho e os restos de acetato da fita, que deteriorou com o tempo e não pôde ser digitalizada. É casado com Sandra, que reencontrou nos porões do Cenimar, em 1972.

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Comments

"Só" genial. Vou espalhar.

Ficou demais cara! Realmente inspirado! hahahah

Excelente. Mas, a sério, parece que teve o lance do Millôr inscrever umas canções, que não foram classificadas e ele se emputeceu, não? Você sabe sobre isso?

Wanna be Agamennon?

Tô brincando, tá legal. A versão de Blowing in the Wind é inspirada.
Talvez inspirada no Alexandre Machado dos tempos da Revenge of the Bastard. Mas podia ser pior: ao invés de se orientar pelo texto do cara vc podia se orientar pelo gosto dele pra mulher, e isso seria imperdoável.

Renata e seus palpites furados. Nota 2.

Podem me prender, podem me bater /que eu não mudo de opinião;/também, só de birra.

Do briefing do editor:
"vinculada à corrente do humor engraçado"...
Só rezando, meus irmãos, só rezando.

Cara, quando eu li esse texto na monet eu mostrei pra minha mulher e disse: "Quando eu crescer quero ser Arnaldo Branco". Do cacete. O da novela que ninguém viu também é ótimo.

Muito bom!

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