Rumo a Tóquio
Amostras de coisas que gastei minhas férias fazendo: roteiros de quadrinhos, cinema, colunas, etc. Só uma delas remunerada, o resto investimento de risco para o futuro - tudo encaminhado, toda a parte burocrática OK (registro na Biblioteca Nacional e o caralho). Para bom entendedor, meio contexto basta.
Sequência de alucinações de Manolo. Paulo César Peréio aparece para ele vestido como Laurence Olivier em alguma adaptação cinematográfica de Shakespeare.
Manolo tenso com a aparição, gagueja - ...Senhor Peréio?
Peréio - Por favor, nada de "Senhor Peréio". Meus amigos me chamam apenas de Senhor.
Manolo - Senhor...
Peréio - Você não é meu amigo. Só vim na missão de nomeá-lo meu sucessor. Vejo que você não parece grandes coisas no quesito masculinidade, mas fazer o quê. O Cary Grant era boneca, mas que ator. Realmente um cara engraçado. Mas enfim, umas dicas: nunca faça essas porras de laboratório, não estude nenhuma porra de método e nunca trabalhe com o cuzão do Hector Babenco. E gostosa a sua mina, mas me parece um pouco bipolar. Vai por mim, tenho experiência nessas coisas (some).
XXX
Do lado de fora vemos a ação da turba que apedreja o prédio onde fica a redação da Última Hora. É manhã de primeiro de abril, o golpe militar está em curso e o jornal, defensor do governo deposto de João Goulart, é um alvo natural. Alguns manifestantes invadem o prédio e outros, já ocupando os andares superiores, atiram na rua máquinas de escrever, arquivos. A polícia trabalha para conter os ânimos e para evitar que o quebra-quebra evolua para uma tragédia. Um carro passa devagar pelo local. No banco de trás um homem de óculos observa a cena, as chamas nos andares superiores do prédio refletindo no vidro do carro. É Carlos Lacerda, governador da Guanabara. Ao seu lado, a silhueta de um homem com farda e quepe de militar.
XXX
Primeiro quadro: São Judas Tadeu está falando por aqueles telefones separados por um vidro da cadeia com Hitler.
SJT: Tenho um boa e má notícia.
Hitler: Diga primeirra a má.
Segundo quadro: idem
SJT: O juiz é judeu.
Hitler: E a boa?
Terceiro quadro: idem
SJT: Tem um jurado revisionista histórico
XXX
QUADRO 7
[Hórus didático, teatral]
Hórus - Camões escreveu esses versos para uma mulher que o zombou por ser caolho. Se chama mesmo "A uma dama que lhe chamou Cara sem Olhos". Espero que a poesia tenha ajudado a enxergar a beleza que seus olhos não captaram no poeta...
QUADRO 8
Hórus - A visão, amigos, é o sentido supremo. Mas eu pergunto: você está preparado para sentir o que os olhos não vêem?
QUADRO 9
[A cena abre, e aqui há uma surpresa. Hórus é apresentador de um programa de auditório de TV, o letreiro "O que os olhos não vêem..." é na verdade o letreiro no fundo do cenário do seu programa (abaixo do letreiro, a assinatura "com Hórus, o Magnífico). Uma câmera de TV aponta para uma mulher bem simples sentada em uma cadeira com os pés em uma espécie de caixa com os olhos vendados. Uma ajudante de palco (a mulher de Hórus, a sra. Fortuna) de maiô está ao lado dela]
Hórus - Você está, Lucicreide?
Lucicreide - Estou sim, Seu Hórus.
XXX
Ernesto Fidel Bastos - Desculpe o atraso, Maria Eduarda. O tráfico estava lento.
Maria Eduarda - O tráfego, Ernesto.
Ernesto Fidel Bastos - Tráfego é como chama aqui na Zona Sul, lá na minha área chama tráfico mesmo.
Maria Eduarda - Ah, Ernesto, você é autêntico.
Ernesto Fidel Bastos - Acho que não, tomei vacina quando era criança.
Maria Eduarda - Criança...
[Maria Eduarda acaba de recordar seu trauma de infância. Cena de flashback tosca, em que lembra quando foi no primeiro dia de aula na Escola Americana com meias brancas, quando a norma é o uso de meias azuis. O episódio banal toma proporções fantasmagóricas na mente da garota. Pátio de colégio, chove.]
Crianças em torno de Maria Eduarda - Meia branca, meia branca!
Maria Eduarda em posição fetal - Nãooooo!!!!
[Volta do flashback, Maria Eduarda em posição fetal na canga]
Ernesto Fidel Bastos - Tudo bem, a gente não precisa ir na água.
XXX
Em dois minutos e meio, exatamente o tempo do intervalo do programa que assistia, Teatrinho Troll, compôs o sambinha "Corte esse cabelo ridículo", que na gravação ficou em 8min:27seg - era realmente um desabafo. Tinha versos como "gente de bem tem que ter um sustento / no próximo dia quinze compareça à junta de alistamento" e a citação a "Blowin' in the wind", de Bob Dylan: "A resposta, meu amigo / você vai me dar no interrogatório".



Comments
Foda!
Principalmente o trecho do roteiro sobre a richa do Wainer e o Lacerda.
Espero que nenhum diretor jeca faça merda com seu roteiro.
Abraço
Posted by: Bruno José | março 6, 2008 2:22 PM
Vcs têm uma certa fixação pelo Peréio, né? Já não cansou não?
Posted by: Antonio | março 6, 2008 6:00 PM
"Principalmente o trecho do roteiro sobre a richa do Wainer e o Lacerda". ^_^
E aí, já arrumou o que fazer com a enormidade de tempo que tem te sobrado findos todos os projetos? :P
Posted by: Liv | março 6, 2008 6:56 PM
Quero muito assistir isso. Finalmente vc terminou alguma coisa concreta!
Posted by: Simone | março 6, 2008 11:56 PM
Bruno, calma, esse aí está só no argumento - o roteiro só concluo na remota hipótese de aprovação do projeto.
Antonio, estou mais cansado de comentaristas de blogs com vocação para o anonimato, na real.
Liv, bebi quase todos os dias depois da sexta-feira negra. Tá bom, não? Sugira programas que eu vou contigo ;)
Simone, não é? Mas concreto pra mim só quando estiver na tela/pape/palco whatever...
Posted by: Arnaldo | março 7, 2008 8:08 AM
O Quadro 9 é fantástico! Do tipo de alucinações que, vira e mexe, me acometem!
Como trabalho numa plataforma de petróleo e depois do acidente que rolou no dia 26/02, num sonho, visualizei as pessoas flutuando no mar, gritando por socorro e uma galera da plataforma atirando bóias a eles.
Num outro quadro um dos náufragos comenta com o outro "Estamos salvos! Esses petroleiros são verdadeiros heróis!".
No quadro subseqüente aparece a cena a bordo da plataforma, uma barraquinha daquelas de quermesse com uma faixa "Atire a bóia e ganhe um ursinho!" (numa alusão ao jogo "Atire a argola" em que jogamos argolas nos pregos), uma outra faixa com o preço (R$ 5,00), uma fila enorme e várias pessoas debruçadas sobre os guarda-corpos, participando da "brincadeira".
Se fosse feito numa charge, poderia ter alguns diálogos do tipo: "Droga! Acertei outro na cabeça!"; Um petroleiro meio aviadado dizendo "Como assim não tem ursinho rosa?"; e em primeiro plano, de costas, o chefe da plataforma suando-frio.
Humor-negro como alcatrão não refinado!
Posted by: Garotinho Fome-zero | março 7, 2008 8:32 AM
Mau pelo português errado, Liv.
Erros acontecem...
Posted by: Bruno José | março 7, 2008 9:25 AM
"Corte esse cabelo ridículo" tá prometendo ser um clássico.
Posted by: Robert Snows | março 7, 2008 9:48 AM
Não, Bruno, a Liv destacou a sua frase pq ela me ajudou a revisar o texto do Lacerda X Wainer, evitando uma catástrofe gramatical inclusive...
Posted by: Arnaldo | março 7, 2008 10:53 AM
No problemo!
:)
Posted by: Bruno José | março 7, 2008 11:24 AM
Velho, fui ver o El Passado com cinco pedras na mão, porque também pego mal com o Babenco, e nesse caso o filme ainda tinha captado recursos no Brasil. Mas o filme é bom pra caralho e, convenhamos, quem vê seu dinheiro indo pra Xuxa pro Didi tem mais é que ficar feliz em ver cinema de verdade.
Abraço
Posted by: Miguel | março 10, 2008 11:17 AM
Não tenho nada contra o Babenco, o cara fez Pixote, Ironweed. OK, tb fez Carandiru, mas vamos fingir que a gente não viu.
Só que o carinha é desafeto do Peréio, e a figura pública dele é meio escrota, convenhamos. Além de ser argentino...
Posted by: Arnaldo | março 10, 2008 1:02 PM
Sim, por isso as pedras, tem também aquela entrevista que ele deu lá na Argentina falando mal do Brasil... Arrisco a dizer que é o melhor filme dele.
Posted by: Miguel | março 10, 2008 6:15 PM