Off the record
Mais uma impopular tira do Mundinho Animal no G1.
E uma curiosidade: matéria sobre Búzios para uma revista de turismo que foi para o lixo porque o "enfoque" mudou. Guardem os pêsames, coleto por essa e pela outra que tive que mandar no lugar...




Comments
E DEUS CRIOU BÚZIOS
Piratas, Mick Jagger, barões da indústria arrependidos e querendo mudar de vida. Há 43 anos, quando foi descoberta para turistas de várias nacionalidades por uma atriz francesa, Búzios atrai com sua famosa beleza e acolhe com tradicional hospitalidade hedonistas de todos os tipos.
O lugar é uma das filiais terrenas do Paraíso mais resistentes à ação do tempo. Tem um charme que repele os efeitos nocivos do progresso, que já vitimaram alguns recantos turísticos do Brasil antes badalados e agora no ostracismo. Para ajudar a entender o mistério de sua eterna juventude, uma descrição pálida - vai sempre perder em comparação com a visão real de praias, ilhas e enseadas - dos seus recantos, e um relato breve da sua história.
Bronze eterno
O Pedro Álvares Cabral de Búzios não encontrou o lugar para evitar calmaria, como reza um dos mitos associados ao descobrimento do Brasil, mas para encontrá-la. Brigitte Bardot, sex symbol e pioneira da defesa dos animais, do topless e da síndrome do pânico chegou ao então semi-deserto balneário para fugir do assédio da imprensa durante uma temporada brasileira, em 1964. Era um monumento de carne (mamária, na maior parte) e osso. Hoje Brigitte resiste bela em bronze, suas feições eternizadas na estátua que (sentada em uma mala feita do mesmo material) observa o horizonte da praia de Armação, espécie de franquia de Saint Tropez, até que a ferrugem as separe.
Quando BB chegou à aldeia de Armação de Búzios, um distrito (só emancipado em 1995) de Cabo Frio a 4 horas de viagem do Rio (não existia a ponte Rio-Niterói, era preciso fazer um contorno por Magé), encontrou um lugar habitado por 300 pessoas e sem luz, telefone e água encanada. Instalada em um sítio alugado com o namorado brasileiro (de adoção, era marroquino) Bob Zagury e amigos, tocava violão, jogava cartas e nadava sem a parte de cima do biquíni - para deleite exclusivo dos peixes, as praias eram desertas ou semi. Ficou de janeiro a abril, com idas regulares ao Rio de Janeiro para reabastecer a dispensa e a tempo de pegar o golpe militar sobre o qual fez um comentário famoso: "C' est adorable". Não podia imaginar as consequêcias da "revolução" e nem da sua estadia em Búzios. Quando voltou no mesmo ano, já era "o refúgio de Bardot" e não teve a mesma privacidade.
Brigitte curtiu as férias lá; outro personagem histórico conhecido pelas iniciais, férias forçadas. 1964 ficou na memória de Juscelino Kubitschek (também homenageado em bronze na mesma praia da Armação) por outros motivos: o ano em que teve seus direitos políticos cassados. Foi o ostracismo mais aprazível que se tem notícia: JK passava os dias admirando a paisagem e lendo - provavelmente antigos discursos de posse e as últimas novidades em atos institucionais.
Bem, se formos relacionar todos os visitantes ilustres (só mais um: Mick Jagger, 1976) essa matéria ficaria melhor em uma revista de celebridades. Para saber o que fascina tanta gente acostumada a paraísos (fiscais que sejam), é necessário explorar sua geografia.
Desconstruindo Búzios
Para esquadrinhar Búzios com as esclarecedoras legendas de um guia turístico, você pode escolher um passeio de jardineira (trolley) ou de barco. O roteiro desses passeios não alcança algumas praias do sudoeste, como a querida dos surfistas Geribá (pelas ondas e pela estrura, tem fácil acesso por terra - e escolinha de surf para os infantes radicais) ou Manguinhos. A alternativa é ir de carro (para quem achou melhor deixar o seu em casa antes que o volante desenvolvesse terminações nervosas, a boa é alugar um buggie) ou pegar uma van e caminhar até as praias. A areia em Geribá faz aquele ruído característico das praias menos exploradas e que pode dar uma certa sensação de quadro negro riscado à faca em pessoas com dentes mais sensíveis.
Descobrimos através do guia trilíngue que o método usado em Búzios para batizar os pontos turísticos é o de associação de idéias: a Pedra da Tartaruga tem forma de uma tartaruga, a Praia Brava é brava (pelo menos em sua banda esquerda, por estar em mar aberto), a Praia da Ferradura parece uma ferradura e a de Ferradurinha, uma ferradura pequena. Só uma atração foge à regra: a Ilha Feia, denominação excessivamente crítica para uma das atrações mais bonitas de Búzios. A explicação: foi varrida em um incêndio causado por um raio, mas isso foi há tanto tempo que a vegetação voltou com mais viço.
Começando pela Armação, que é uma praia disputada mais por barcos do que por banhistas e onde ficam as estátuas - além de JK e BB, a dos Três Pescadores, homenagem genérica à atividade primária que garantiu a subsistência dos tupinambás e depois sustentou a economia da região.
Economia movida a Baleia
A chegada à Praia dos Ossos - e sua praça homônima - nos faz imaginar alguma lenda de pirataria, mas foi assim chamada por ser o destino final das ossadas das baleias pescadas na região - elas também forneciam o óleo usado nas lamparinas e na tinta invariavelmente azul das janelas (em casas brancas de cal, para caracterizar as cores do Rei). Mas os piratas não pouparam Búzios de seu pioneiro turismo predatório: roubavam Pau-Brasil, embora perdessem quase todo o carregamento nas pedras afiadas do seu atracadouro - a Ponta do Criminoso, que ganhou esse nome por ser o "ladrão que rouba ladrão" dos bucaneiros. De qualquer forma, os cem anos de perdão a que teria direito prescreveram, as pilhagens cessaram no século XVII.
Os cetáceos abatidos aos cardumes no período A.B. (antes de Bardot) batizavam a cidade, em sua pré-história conhecida como Armação (por ser o lugar onde aparelhavam os barcos pesqueiros) das Baleias. A lenda (?) contada pelos guias (verdadeiros herdeiros modernos da tradição oral) diz que a mudança para Armação dos Búzios se deu porque conchas eram usadas como moeda corrente - apesar dos livros de História não registrarem e da tese não resistir a perguntas simples como sobre o que era usado como troco.
Depois das belas praias Azeda e Azedinha, áreas de proteção ambiental - o guia e os sites sobre Búzios ficaram devendo explicação para o batismo das duas - a praia de João Fernandes é uma reserva natural de corais e é ideal para prática de mergulho em apnéia. Ela tem uma espécie de puxadinho (chamado - adivinhem - Praia de João Fernandinho) a que se tem acesso pelas pedras que dividem as duas faixas de areia, ou por uma íngreme escada de pedras. No pontal onde se estendem fica o mirante de João Fernandes, que dá ao turista uma bela visão das ilhas à sua direita (Âncora, Gravatá, Filhote) e esquerda (Feia, Rasa e Branca - existem duas explicações, nenhuma de aparente rigor científico, para sua coloração: plantas em decomposição ou dejetos de aves).
O topless precursor (se não contarmos as índias tapuias e goitacases) de Bardot seria considerado um retrocesso em Olho de Boi, desafio para a legislação família das praias de nudismo por sua pequena faixa de areia que na alta temporada (naturalmente os dias mais quentes são os preferidos dos naturistas) pode forçar os frequentadores a roçar algo mais que os cotovelos.
A praia do Forno tem areia avermelhada, rica em zircão e monazita, que acumula calor e justifica o nome. Em sua enseada se destaca o outro mirante de Búzios e de lá o visitante pode conferir se a semelhança da pedra da Tartaruga com o bicho procede (mais ou menos) e se enxerga a Praia da Foca, espécie de conexão Brasil-Patagônia que despeja focas em nosso litoral atrás dos peixes que ficam por ali se empanturrando de plânctons - isso na teoria, muitos nunca viram nenhuma.
Do alto dessas pedras, 500 mihões de anos vos contemplam
Uma teoria defende que da Ponta da Lagoinha se descolou a banda sul da África no grande deslocamento de placas tectônicas que teria dado origem aos continentes. Em 1992 Caetano Veloso fez um show no lugar que afirma ter sido o melhor de sua carreira - embora tenha a tendência a dizer coisa parecida sobre outras apresentações, por volubilidade ou senso de marketing, o visitante tende a concordar com o cantor que aquela formação rochosa é um "ponto energético". Não pode ser aproveitada o ano inteiro, quando venta - aliás, toda Búzios é conhecida pelos fortes ventos - fica inexplorável. Adiante ficam duas jóias da coroa: Ferradura e Ferradurinha.
Por último, a Praia das Virgens, escala certa no roteiro das trilhas - até porque inalcançável por outra via - é a menor de Búzios, e consta que todos os guias turísticos fazem a piada "é compreensível".
Nem só de praia vive o homem
Mas nem tudo é paisagem. Búzios também é autosuficiente em vida noturna e em opções de consumo. O centro nervoso da cidade é a Rua das Pedras, projetada pelo arquiteto César Thedim (também engenheiro e empresário, um mítico bon vivant - ex de Leila Diniz e Tonia Carrero - e mecenas dos amigos artistas) como forma de evitar a ação deletéria do progresso, representada, no seu entender, pela circulação de carros - conceito que "esqueceu" de explicar ao prefeito, que só se deu conta da opção preferencial pelos pedestres quando a fita inaugural estava prestes a ser cortada. Hoje a rua é testemunha da ação de outra força do progresso, o comércio - é um punhado de pedras cercada de grifes por todos os lados.
Os habitués não são dourados apenas pelo sol, ficou a fama de colônia de férias de bem-nascidos - ou de emergentes. Mas o charme de Búzios está em sua democracia, onde muitos privilegiados se dão ao raro luxo de não ostentar. É verdade que ainda circulam as - já famosas em anedota - Patricinhas que andam de salto agulha pela Rua das Pedras, mas em geral se preserva o espírito de descontração. Donos de mansões avaliadas em milhões de dólares se misturam com os mochileiros e pequenos comerciantes locais no doce exercício de flanar pela cidade. Tanto que há opções de hospedagem e restaurantes para vários orçamentos.
O número de pousadas com boa infraestrutura cresceu bastante nos últimos anos - sinal do prestígio de Búzios no mapa do turismo "in". Também, pudera: é também a capital do turismo em família do litoral fluminense. É impressionante o número de crianças brincando na rua - e de pais aproveitando a inédita sensação de poder perdê-las de vista sem preocupação. Outra característica local é a importância que se dá à recreação consciente, não vai ser por falta de latas de lixo seletivo nem cartazes de campanhas ecológicas que o visitante vai se descuidar da preservação do ambiente.
O número de opções de restaurantes também chama atenção, especialmente se lembrarmos que em 1964 o único estabelecimento comercial da região era uma peixaria - quem quisesse se aventurar por Búzios tinha que levar fogareiro e comida em conserva. Também foi-se o tempo em que o prato do dia eram variações sobre o tema "peixe" - hoje há restaurantes de comida árabe, italiana, francesa... alguns deles, a exemplo das lojas de roupas, de marca: franquias como a do Mac Donald´s enchem de gente com saudade de uma comidinha urbana.
Búzios também ficou famosa como uma rota de fuga da vida corporativa, paradeiro de homens de negócio que largaram tudo por uma rotina mais despreocupada e simples, geralmente a bordo de iates de 120 pés ou em casas de cinema na Praia da Ferradura. Alguns abrem pousadas, a exemplo dos muitos donos de estabelecimentos estrangeiros: viajantes que se apaixonaram pelo lugar e resolveram ficar, recusando-se a só poder admirar a beleza local através de fotos. Com certeza convenceriam Brigitte a voltar uma terceira vez.
Posted by: Arnaldo | outubro 9, 2007 12:08 PM
Pô, muito bom, mas é uma pena que o público do G1 é burro bagaray e não entende pn das suas tirinhas.
Eu tenho uma pequena crítica ao seu trabalho (sorry, não fique chateado! lá vai: às vezes, você parece tentar evitar policiamento ideológico com uma postura "cult" de menosprezar a "classe média branca") mas mesmo assim você é o melhor cartunista da atualidade. Sem sacanagem nenhuma!
Por favor, continue fazendo Mundinho Animal e não ligue para os burros do G1.
Posted by: Capitão Ausência Confirmada | outubro 9, 2007 1:53 PM
hahaha, impopular mesmo! o pessoal de lá é muito burro, vc precisa fazer um negócio mais Zorra Total pra emplacar!
Posted by: Carol | outubro 9, 2007 5:43 PM
fala rapaz, queria falar com vc, me manda um email, me acrescenta no msn (alexandrecruzalmeida@hotmail.com), manda um sinal de fumaça, essas coisas... :)
Posted by: alex castro | outubro 10, 2007 4:14 PM
Rapaz, adoro seu trabalho, mas não é meio maçante todas as tiras do mundinho animal serem a repetição da mesma piada? Ok, ja entendemos, o governo dá dinheiro para artistas que as vezes fazem merda. Beleza. (Apesar de eu não conseguir ver outra solução pra fazer arte no Brasil, já que arte aqui não da lucro nem quando enche cinema, mas enfim). MOVE ON, rapaz! Parte pra outra.
Posted by: Rafael Silva | outubro 10, 2007 5:05 PM
Rafael: não acho maçante, porque tipo assim, não são.
Vou facilitar seu trabalho, tiras em que falo sobre captação de recursos. São quatro em 60:
http://www.tonto.com.br/tiras/arnaldo023.htm
http://www.gardenal.org/mauhumor/mundo045.gif
e as duas que saíram no G1.
Sobre o que vc disse, é o contrário: dá lucro até quando não enche cinema. Pergunta pra equipe dos filmes beneficiados pela lei Rouanet se alguém aceitou trabalhar abaixo da tabela.
Mas: nem acho errado que se beneficiem dela. Justa ou não, é lei.
Posted by: Arnaldo | outubro 10, 2007 5:33 PM
Oi Arnaldo,
Eu não quis dizer que não dá lucro para os envolvidos no filme (se bem que o que dá lucro mesmo é publicidade). Não dá dinheiro é o suficiente para mantermos por aqui filmes feitos sem nenhuma verba estatal. Só quem apóia qualquer projeto de cinema é quem ganha o incentivo de descontar do imposto de renda. E isso só acontece com projeto bonitinhos e cheirosos com os quais os amigos empresários vão querer ter sua marca associada. Eu não consigo pensar em nenhuma maneira de mudar esse esquema deprimente que dure menos de, sei lá, 30 anos. A tristeza é essa aí: no dia em que a Lei Rouanet e a Petrobras acabarem acaba o cinema no Brasil.
Abraço
Posted by: Rafael Silva | outubro 10, 2007 10:56 PM
Papinho de comentarista de blog é um saco.
Posted by: Ed. | outubro 11, 2007 4:33 AM
Bem, aí é uma questão de mentalidade empresarial, etc. Historicamente nossos investidores apostam em lucro imediato e não querem nem ouvir falar em perdas eventuais.
Mas o que eu quero é que vc admita que Mundinho Animal não é só sobre lei Rouanet ;D
Posted by: Arnaldo | outubro 11, 2007 8:17 AM
ótima tira.
Posted by: Anonymous | outubro 15, 2007 2:49 PM