
Isenção alcóolica - Matias e Arnaldo entrevistam Rogerman (foto de Gilvan Barreto)
Essa é a extended version da matéria da Bizz sobre o Abril Pro Rock, sem aquela separação em episódios como saiu, e sem o erro de trocar o Santa Cruz pelo Náutico (mal aí, Lucio). Como deu pau nos comentários por esses dias, alguns tinham ficado por aprovar. Aqui, o direito de resposta da artista plástica citada na matéria (dê um scroll na página), que basicamente diz que nos vingamos nela porque não comemos ninguém. Também queria dizer para a Natália, que me chamou de mané porque não sabia do fim da Soparia do Rogê: infelizmente esse tipo de coisa não dá manchete no resto do país.
Eu, que vivo em uma cidade recordista em mistificação em outros estados, não consigo entender como alguém pode se sentir pessoalmente ofendido quando você não diz que o lugar onde ela mora é o paraíso na terra - que é mais ou menos como vejo Recife, e imaginava ter deixado claro na matéria.
Do diário de viagem: "Estávamos em algum lugar perto de Olinda, na fronteira do Recife Velho, quando a moqueca começou a fazer efeito..."
Vamos rebobinar a fita, ou voltar ao menu de cenas selecionadas no DVD. Arnaldo Branco, repórter da Bizz e desenhista de quadrinhos - criador do personagem Capitão Presença, o herói dos malacos que fazem uso daquele cigarro que passarinho não fuma - e Matias Maxx, repórter e fotógrafo da Bizz, inspirador do Capitão, estão chegando a Recife para cobrir o Abril Pro Rock 2007. A terra prometida dos maconheiros e seu lendário festival, que ajudou a projetar bandas como Los Hermanos e Cachorro Grande, parecem ser garantia de diversão para dois penetras bons de bico.
Mas a festa não é mais a mesma. A missão da dupla, além de dar um conferes na programação do festival (a propósito, bandas emo em excesso) para justificar o credenciamento, é se jogar em Recife atrás do que sobrou do Mangue Bit, das baladas pós-shows e dos frutos do mar para contar a quantas anda, ou se arrasta, a cena local - por uma ótica carioca-maloqueira-entorpecida. Com uma mala carregada de livros e camisetas do Capitão Presença, além de quilos da Tarja Preta, revista editada por Matias onde saem as tiras do super-anti-herói, tudo isso para garantir a grana dos aditivos, Arnaldo e Matias empreenderam uma viagem ao coração do sonho pernambucano.
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Com uma pauta dessas, levantar para uma entrevista coletiva em plena sexta-feira de sol, às dez da manhã, há de se convir. Mas como disse Matias, bêbado, no trecho da fita em que deveriam estar gravadas as impressões de Arnaldo sobre o show de Lee "Scratch" Perry (a grande atração do último dia de festival): "Zornalismo! Temos um compromizo com a realidade, com a verdade, com... whatever!"
Na coletiva, quase empate por WO: não aparecem os Mutantes e parte substancial da imprensa. Lúcio Maia e Jorge Du Peixe, que acordaram cedo apesar do atraso no vôo que os devolveu a Recife alta madrugada, reclamaram da falta de perguntas: "ah, não, agora vocês vão nos entrevistar, isso aqui tá parecendo a vez que a gente foi no Serginho Groissman junto com o Babado Novo, ninguém da platéia sabia o que perguntar pra gente...". Fala, garoto! Alguém quer saber se eles já têm casa própria. "Não, a gente não é um fenômeno de vendas". Outro insinua que eles têm bastante espaço na mídia. "Se aparecer na TV fosse garantia de sucesso, o Max de Castro...", deixa no ar. Outro mártir do compromisso foi Marky Ramone, que bateu ponto para dizer que, comparado a "shitty bands" de glamour metal como Mötley Crüe, o emo parece até heterossexual.
A dupla de reportagem volta para o hotel, que tem serviço britânico, da parte da Escócia - graças a um numeroso grupo de adolescentes disputando uma olimpíada de matemática que faz lembrar o esquete "Todo espermatozóide é sagrado" do Monty Phyton. Não é a toa que o controle da natalidade ganha cada vez mais entusiastas. A demora na recepção para conseguir pegar a chave do quarto dava ganas de incorporar Borat, forçar um sotaque e perguntar em voz alta pelas mundialmente famosas prostitutas de 14 anos. Mas foi bom ter segurado a grosseria, breve estariam nos braços da hospitalidade pernambucana - para cariocas por natureza desconfiados, é difícil crer que este povo não receba algum incentivo monetário pra ser tão gente boa.
O almoço à base de peixe (a reportagem de Bizz adotou a dieta dos golfinhos durante a estadia) e cerveja serve para traçar o esquema de cobertura do Festival: vender quadrinhos e camisetas do Capitão Presença para garantir uma reportagem com um mínimo de isenção alcóolica. Dali direto para o Centro de Convenções infelizmente a tempo de pegar Os Canivetes (PE), a primeira de uma série de bandas de sarau que foram a tônica do palco 3, um puxadinho do Abril Pro Rock consagrado ao amadorismo.
Tudo pela arte, e alguma coisa pelo mico jornalístico. No primeiro rolé pelos bastidores, Arnaldo é atacado por uma artista plástica que o mete em um saco idem. Helio Oiticia faz escola, e seus alunos, pastiche. O festival segue com: O Quarto das Cinzas (performance teatral, herança maldita do rock progressivo, com vocalista gata, tendência de mercado), Bonnies, de Natal (volte até o trecho sobre os Canivetes), Moptop (RJ, boquete firme nos Strokes, os carinhas na platéia com o mesmo corte de cabelo gostaram), Ronei Jorge (BA, sugestão: dosar o experimentalismo). Agora, a diversão!
O mítico Capitão Presença e seu biógrafo são admitidos no camarim da Nação Zumbi, onde por razões óbvias o herói é bem-vindo - mas, em nome de sua lenda é triste dizer, absolutamente desnecessário. Deve ter um concorrente à altura em Recife... o tempo muda de velocidade até a hora do show dos caras. A Nação é o time da casa em excelente fase e jogando um amistoso - não conta ponto mas a torcida não quer nem saber, incentiva do mesmo jeito, com senso de humor inclusive: muitos cantam a versão pornô de "Meu maracatu pesa uma tonelada": ("Pra comer seu - deduzam - falta uma polegada..."). E olha que tentaram desagradar: não tocaram nenhuma da fase Chico e mandaram (Lúcio) o hino do Santa Cruz, time em baixa e com torcida em inferioridade numérica.
Depois, Os Mutantes. A impressão é que Zélia Duncan aproveita a comoção das pessoas assistindo o esforço do Arnaldo Baptista para sair impune, mas funciona. Ficou ruim pra carreira solo da Rita Lee, que está fazendo hora extra desde mais ou menos 1979. O som é excelente e o repertório tipo Eurocopa, só clássico: "Top top", "Ando meio desligado", "Batmacumba"; passa a faixa amarela em torno da cena do crime, não há mais nada para se ver aqui. Fim do show, direto para o hotel curar o jet lag e poder aproveitar o sol no dia seguinte.
Dezessete cervejas antes do almoço é muito bom - pra quê não se sabe. A dupla de reportagem exagera à beira da piscina, enquanto troca impressões sobre edições passadas do festival, ênfase nas festas. Um das evidências da queda de importância do evento é a falta de uma programação pós-show. Ninguém sabe dizer qual é a boa depois das apresentações - nem o experimentado jornalista da concorrência que divide o almoço (caldeirada) com o bonde da Bizz. É hora de estudar o adversário, que afirma estar ali para uma cobertura tipo standard do Festival, a confirmar na próxima edição, pode ser blefe.
Perdida a conta das cervejas consumidas, Matias e Arnaldo chegam daquele jeito, e quatro shows atrasados, para o dia dos camisas pretas - nenhuma comemoração nostálgica da milícia fascista, só o balaio de gatos de hardcore, emo e metal da segunda noite do Abril Pro Rock. O tempo das tretas é passado remoto, estabelecidos novos recordes de convivência pacífica. Do palco 1, João Gordo fala mal "dessas bandinhas que neguinho fica chorando, tá ligado?". Do outro lado do Centro de Convenções, sentados de costas para o Palco 2, carinhas de rímel e franjinha acham graça.
Depois do show, tentando uma entrevista, Matias é confundido com um traficante por João Gordo; o que não é de se estranhar - seu cavanhaque ralo e as camisas havaianas traem uma vocação inexplorada. Apesar disso, ou talvez por isso, ele consegue entrar com o gravador no camarim do Ratos, transcrição desse trecho da fita: " 'E aí, Gordo, falou mal das bandas emo no palco...' 'É, acho uma merda... ó a artista plástica aí, meu' (a mina do parangolé conceitual fazia vítimas indoors). 'Você foi ensacado também?' - 'É, fui'. 'O que você acha de neguinho que baixa música na internet?' - 'Não' (?). Clique, voz do Matias: 'O Gordo não está cooperando'".
Arnaldo assume o gravador para registrar o inacreditável vocalista do Udora: "Essa música é sobre o suicídio do meu paaaaaiiii!!!!", antes de sair pulando (!) pelo palco, expondo toda sua angústia em inglês. Terapia de grupo já teve sua voga, agora é a terapia de banda. Chega, geração emo, não nos conte os seus problemas. Vamos logo às atrações principais.
Na coletiva, Marky Ramone respondeu a provocação de um jornalista dizendo que continuava a tocar Ramones porque "as músicas valem a pena". Podia passar um abaixo-assinado no Abril Pro Rock, pogaram emos, punks e metaleiros em seu show com o genérico Tequila Baby. Depois disso, o Sepultura, também bastante desfalcado, cumpriu tabela - mas a essa altura a equipe de reportagem já está mais interessada em uma dica quente sobre a balada depois do encerramento do show.
Nosso heróis se metem depois no bar Garagem, que, como muitos avisaram bastante excitados, é uma oficina mecânica de meio período em um estabelecimento caindo aos pedaços. Na verdade é muito parecido com uma escola pública carioca média, mas a dupla finge um diplomático espanto. Lá dançava a atriz-sensação Hermila Guedes, que Matias ignorava até ouvir o relato das cenas em que a mina interpreta uma profissional da cama, à caráter, em "O Céu de Suely". Quem diria que essa viagem fosse despertar no cara o interesse pelo cinema nacional, foi na hora trocar uma idéia. Em tempo, troca justa: Hermila ganhou uma Tarja Preta, Matias não conseguiu o telefone.
No dia seguinte somos levados pelo fotógrafo Gilvan para o que batizamos Turnê Cadê Rogê: uma volta pela cidade atrás dos pontos turísticos da história do Mangue Bit. A primeira parada é ao lado do hotel, a Soparia que foi marco zero e quartel general do Estado Maior manguetrônico; agora é uma oficina de motos. No soup for you! Seguimos para Olinda, para almoçar (adivinhem o que) e conversar com uma das eminências pardas do movimento, Rogério, ex-Edie e hoje no excelente Bonsucesso Samba Clube. Ele acha que o mangue cumpriu sua função em abrir os ouvidos do Brasil para o som vindo de outras praças, embora nunca tenha emplacado como campeão de vendas. E melhor, mesmo que tenha gerado várias bandas que tentaram entrar na onda contratando um sujeito para tocar alfaia (na viagem sentimos um certo enfado dos pernambucanos com os diluidores do legado de Chico Science), a valorização dos ritmos regionais expulsou definitivamente a axé music do carnaval de Olinda.
No dia mais eclético (mais na moda dizer flex) do festival, compasso de espera para o show do Lee Perry. Teve hip hop (Êxito D'Rua), rock´n´roll básico (Monomotores), forró (Mestres do Forró), banda-ruim-de-nome-grande-com-vocalista-Avril-Lavigne-wannabe (Canto dos Malditos da Terra do Nunca), banda-ruim-de-nome-pequeno-com-vocalista-Brian-Molko-wannabe (Valentina). Ainda rolaram as atrações - nome inadequado, os quiosques de cerveja atrairam mais gente - internacionais: o Moptop francês The Film e o argentino Los Alamos, que tocaram um blues - do delta do Prata? - que parecia perfeito para um bar temático e não para um show situado nos anos 2000. Ah, se toda banda de country raiz tivesse antes que estagiar em um campo de algodão, menos e melhores blues.
The Playboys ofereceram alívio cômico em um festival de tantas bandas angustiadas. Piada interna recifense, fizeram campanha durante anos para tocar no Abril Pro Rock, além de uma música dedicada ao organizador do festival, "Paulo André não me ouve". Tocam com instrumentos de brinquedo rock básico (punk, 50´s, surf music) e deram uma sensacional sacaneada nas bandas que misturam eletrônico e maracatu com a paródica "Monólogo aos ouvidos dos imitadores", imitando a misancene de Chico Science. Ah, ainda rolou Rebeca da Matta - Pior cover de Vapor Barato, e olha que a concorrência não é fraca não. Ou o correto é dizer o contrário?
Arnaldo Branco: sou obrigado agora a narrar em primeira pessoa. O Matias bebeu ou fez alguma outra coisa em excesso - não devemos desprezar as reações metabólicas causadas pelo camarão - e ficou impraticável. A partir desse ponto a cobertura do show do Lee Perry é prejudicada pela minha saga para mantê-lo vivo diante da ação hostil de seguranças e de meninas pouco compreensivas. O inevitável acontece: tenta invadir o palco dançando e é expulso pela equipe de apoio. Agora calculem: se um cara naquele estado sente vontade de dançar, imagine o público que pagou e esperou pra isso - apresentação memorável. Uma carona salvadora nos deixa a salvo no hotel para a volta no dia seguinte.
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"Arnaldo Branco e Matias Maximiliano! Arnaldo Branco e Matias Maximiliano! ÚLTIMA CHAMADA!".
A voz da mina do sistema de som do aeroporto dá a entender que a última chamada foi precedida de várias outras. Lúcio Maia, recostado no balcão do bar em frente ao portão de embarque ri apontando para a dupla retardatária correndo com as bagagens de mão.
Adeus, Recife, e obrigado pelos peixes!