Working class anti-hero
Sei que isso aqui está devagar, e definitivamente estão faltando cartuns e quadrinhos, mas é que alguns frilas estão meio que absorvendo a força de trabalho. Esse texto abaixo, por exemplo, é de uma peça - de um famoso ator paulista, outro dia conto quem é - que ajudei a reescrever. É a história de um casal divorciado (ele sociólogo, ela rica) que sofre um assalto, o original tinha (ainda tem, mantive o tom) um teor de chanchada.
A cena é toda minha (as pessoas vão reconhecer piadas que já meti em cartuns e roteiros, só tive dois dias para entregar o texto, sorry), mas deve mudar bastante porque vai ser mesclada com o texto de outro cara - um comediante carioca, depois conto quem é - que trabalhou comigo nessa.
Ah, falando em trabalho absorvente. Chego amanhã 23 hs em Recife - com o Matias Maxx, que perigo o cara na capital latina da maconha... - para cobrir o Abril pro Rock, fico até segunda. Dicas do que fazer e convites para cervas na caixa de comentários, OK?
Ah, e outra coisa, também aproveitando a caixa de comentários. Estou adaptando (em mais uma corrida contra o relógio - em que o relógio sempre ganha, ainda que ao contrário de mim trabalhe de graça) "O Beijo no Asfalto" do Nelson Rodrigues. Queria dicas de filmes, livros, etc. sobre linchamentos (morais que sejam); sobre pessoas que são punidas pelas suas virtudes (exemplos: "Fúria", do Fritz Lang, "Antígona", "O Homem Errado" do Hitchcock, "Um Inimigo do Povo" do Ibsen...). Desde já, obrigado, folks.
(Trevas. Luzes na sala, com Rafy e Flora amarrados. Rafy está virado para a TV, que está ligada em filme falado em inglês. Barulho de tiros no filme, seguido de uma fala: "OK guys! Let´s take the money and escape to Brazil!")
Rafy - Engraçado... esses ladrões de filme que fogem para o Brasil não tem medo de assalto?
Flora - Eles botaram essa TV alta para parecer que está tudo normal na casa mas esse filme tem tanto tiro que parece que estamos sendo assaltados...
(Surge Nélio com a empregada, uma toalha nas mãos em forma de trouxa com a prataria)
Nélio - Que porra de tiros são esses?! Ah... (vai até a TV e muda de canal)
Rafy - Ah, não na aberta é horário político!
(Deputado na TV: "Vote em mim, Nicolau Simplício, número 6868! Fui deputado cassado, exilado e ex-guerrilheiro! Fui barbaramente torturado na ditadura, mas não entreguei meus companheiros. Nicolau Simplício, o herói da resistência!")
Rafy - Mas como falam que foram torturados esses caras que foram torturados e não falaram!
Nélio - Eu votei no Clodovil, o resto é tudo ladrão (desligando a TV). E cala a boca! Vamos brincar de Rio de Janeiro: vocês me levam pros pontos turísticos do mocó aqui e eu vou catando a grana e as jóias!
Empregada - Moço, eu precisava ir ao banheiro...
Nélio - Caralho... porra, te levo, mas se tentar alguma coisa, vai abrir uma vaga aqui na mansão. (Dá um tapa na nuca de Rafy, sai com a empregada)
Rafy - Mansão, pff... é engraçado, você é quem é rica de berço e quem ouve "burguês" o tempo todo sou eu. É mesmo uma sociedade machista, todo mundo pressupõe que o homem é o provedor...
Flora - Não é você quem defende esses tipos?
Rafy - Eu? Defendo que tipos?
Flora - Você! Sociólogo... blá blá blá melhoria no sistema carcerário...
Rafy - Qual o problema em melhorar o sistema carcerário? Sempre ouvi dizer que é um excelente lugar para tomar gosto pela leitura.
Flora - E blá blá blá tortura nas delegacias... e a gente? E a classe média que sofre com a violência?
Rafy - A gente também tem culpa! Qual é a diferença entre um Secretário de Segurança que vai para a TV dizer pela milésima vez que "Todas as previdências estão sendo tomadas" e a gente, que manda carta pela milésima vez para a Veja para dizer que "estamos todos indignados"? Ninguém toma nenhuma atitude nunca, a não ser as erradas!
Flora - Está querendo me culpar agora?
Rafy - Estou culpando também! Lembra quando você demitiu a Márcia?
Flora - Ela chegou três vezes atrasada na mesma semana!
Rafy - Foram três chacinas na área dela na mesma semana! Só a gente que "sofre com a violência"? (fazendo um aparte, bem calmo, dando um intervalo no discurso virulento) Queria estar com as mãos desamarradas para fazer o gesto de aspas nesse "sofre com a violência". (Volta ao discurso inflamado) A gente quer que os pobres morem bem longe da gente, em um conjunto habitacional lá na putaqueopariu, mas que estejam as oito na nossa porta pra receber salário mínimo!
Flora - Mas o que tem a Márcia com esses marginais? Você acha que é só pobreza que justifica esses bandidos agirem assim? Se fosse isso, estávamos lascados, os serviçais iam cortar nosso pescoço quando a gente fosse dormir!
Rafy - (parecendo cansado, respirando pesado) É, acho que você também tem razão... Cristo, preciso da minha homeopatia.
Flora (ainda continuando o discurso, mas diminuindo de velocidade quando percebe que Rafy deu razão a ela, uma experiência inédita no casamento) - O problema é que vocês de esquerda compram o pacote todo, por que é que você foi assinar aquele manifesto que chamava o José Dirceu de injustiçado...? Você está se sentindo mal, Rafy?
Rafy - É, aquilo foi uma vergonha mesmo ...um pouco, obrigado por se preocupar... é melhor mudar de assunto, não estou podendo me exaltar.
Flora - Rafy, eu... droga, Rafy. O que você veio fazer aqui hoje?
Rafy - Quer saber? Nem sei... sabia que não ia conseguir argumentar com você. Sabia que você tinha me superado. E acho até que esse dr. Reinaldo tem mais a ver contigo, um profissional liberal sessentão, o cara tem 'status' escrito na testa, a sua família deve estar em festa, nada mais de discussões políticas constrangedoras no almoço de domingo...
Flora - Doutor? Como você sabe que ele é médico?
Rafy - Er... ah, azar. Eu mandei investigar.
Flora - Rafy!
Rafy - Mas isso não importa agora. Essa situação me mostrou que prefiro te ver bem, viva, com outro cara, do que em perigo. Fiz um estudo de campo para o meu próprio trabalho, que ridículo...
Flora (relutante) - Eu também.
Rafy - Também o que?
Flora - Percebi a mesma coisa. Morri de medo que algo acontecesse contigo.
Rafy (durante toda a discussão está um tanto arquejante, cansado) - Isso é muito bom... muito bom mesmo. Muito bacana da sua parte dizer isso.
Flora (bem relutante) - E queria dizer que "ter superado você" é uma expressão muito forte.
Rafy - Hummm... Flora, sabe o que reparei? Essa foi a nossa primeira discussão de relação que não se deu durante alguma transmissão de jogo de futebol. Ou de fórmula 1.
Flora (achando graça) - Ah, você mesmo me confessou que só assiste futebol para ver porrada e fórmula 1 para ver acidente...
(entram Nélio e a empregada)
Nélio - Porra, tu demorou pra caralho!
Empregada (falando errado) - É que eu tenho xistite!



Comments
engraçado...sempre tive preguiça de conhecer seu trabalho
comecei bem,esse texto é hilário!
e o lance de linchamento...
tem uma hq que saiu na cripta do terror #6 da editora record chamada "um tipo de justiça" ou coisa que o valha...
espero que tenha ajudado
Posted by: casagrande | abril 11, 2007 8:56 PM
Conto "A terra dos cegos" H G Wells... Só tem em ingles se pah...é bem parecido com o mito da caverna...
Abrass
Posted by: Müller | abril 11, 2007 11:11 PM
Dicas de filmes: "Word of Honour", um telefilme com Karl Malden; "O Carrasco de Roma", com Mastroiani e Richard Burton; "El Arreglo", um filme argentino que tem passado insistentemente no canal Futura e que é absolutamente perfeito para o seu propósito; "O Homem que não Vendeu sua Alma", do Fred Zinnemann; "A Conspiração", com Jeff Bridges e Joan Allen.
Posted by: Léo Bueno | abril 12, 2007 2:22 AM
Tem um monte.
"A Alma boa de Setsuan", do Brecht. http://en.wikipedia.org/wiki/The_Good_Person_of_Sezuan
"Peer Gynt", de Ibsen (com trilha de Grieg, uma semi-ópera). Leia o plot bizarro e dê risadas: http://en.wikipedia.org/wiki/Peer_Gynt#Plot
"Dogville", o filme do Lasse Halstrom (escandinavos têm algum problema).
Tem um livro infanto-juvenil com uma cena de linchamento engraçadíssima: o capitulo 18 de "Berenice contra o Maníaco Janeloso", de João Carlos Marinho. Vale a pena abrir e ler o capítulo na livraria, é curtinho.
"A letra escarlate", romance do Nathaniel Hawthorne.
"As bruxas de Salem", do Arthur Miller.
Aliás, eu vi um linchamento outro dia. Trabalho na Cinelândia...
Chega, tá bom.
Posted by: Simone | abril 12, 2007 3:02 AM
No finalzinho: "Flora (achando graça) - Ah, você mesmo me confessou que só assiste futebol para ver porrada e futebol para ver acidente..."
Não seria "Fórmula 1 para ver acidente"?
Posted by: Vlad | abril 12, 2007 10:00 AM
Valeu Vlad, consertei. O Leo tinha me dado esse toque, mas se vc não lembrasse ia ficar aí.
Valeu pelas dicas sensacionais, pessoal. Simone, "Bruxas de Salem", claro, o que me lembrou dos vários filmes sobre o Marcathismo, a inspiração do Miller. Chato é que alguns, como "Testa de ferro por acaso" e "Boa noite e boa sorte" carecem de heróis trágicos...
Léo, esses filmes são fáceis de achar em DVD? "O homem que não vendeu sua alma" sei que é fácil - mas um telefilme com o Karl Maden?
Ah, e espero que não tenha passado despercebido na peça que me rendi à figura da empregada pobre que fala errado, um dos pilares do humor nacional.
Posted by: Arnaldo | abril 12, 2007 11:34 AM
"Justine ou os Infortúnios da Virtude", do Sade. O livro é ótimo, mas tenho medo de assistir às adaptações.
Posted by: Bruno | abril 12, 2007 12:54 PM
a capital latina da brenfa não seria Pedro Juan Cabajero?
a boa em Recife é ir pra Olina. :)
Posted by: duda | abril 12, 2007 1:22 PM
Well, you know, nada que a Internet, com seus torrents, não resolva. Mas enfim, tem outras dicas melhores.
Posted by: Léo Bueno | abril 13, 2007 1:02 AM
Vai passar o aniversário em Hellcife? Que sonho =~~
Depois conta como foi...
Posted by: Kamille | abril 15, 2007 6:50 PM
"Meet John Doe", do Capra. Tem um linchamento muito bom, com direito à tomate na cara e tudo.
Posted by: LP | abril 15, 2007 8:01 PM