Medo do rapa
Sou a favor das cotas para negros em universidades. Todo mundo que conheço é contra, por motivos louváveis, mas juro que tenho argumentos excelentes, que podem fazer eco até na cabeça de um sujeito que só consegue repetir "racista!" enquanto eu tento falar. Tenho mesmo. Mas resolvi nunca mais tocar no assunto depois de uma discussão - total na buena - com um grande amigo que atacava as vagas reservadas.
Virei para ele (na real já estava virado na direção dele, nunca entendi essa expressão, quem é que se volta subitamente para alguém a quem dava as costas para dizer alguma coisa? - talvez alguém em intercurso carnal passivo, não era o caso, veja bem) e disse: "cara, quanto tempo a gente levou para se formar?" "6 anos e meio, de 4 anos do curso de jornalismo" "é isso aí - e por quê?" "porque a gente matou aula para beber em todos os semestres - em algum deles perdemos tipo seis matérias de sete em curso".
Claro que o diálogo não foi assim, só as pessoas nas novelas do Manoel Carlos falam desse jeito. Mas o importante foi a conclusão que tirei dele: se levei com esse nível de seriedade minha educação formal, por que é que ficaria perdendo tempo discutindo a dos outros? Azar se o critério de seleção for cotas, vestibular ou guerra de comida; já me formei, sem mérito algum e com um CR tipo de 4 pontos, tenta a sorte aí calourada.
Acho engraçado que esse assunto incendeie tantos barracos por aí, enquanto outra lei injusta, a que dá direito (ou dava, parece que caiu outro dia, not sure) a cela especial para pessoas com terceiro grau completo, nunca tenha despertado nenhum debate nacional. O tal "homem branco pobre" prejudicado pelas cotas e que foi invocado em vários bate-bocas teria ficado agradecido. Deve ser porque a classe média se irmana com os miseráveis apenas nesse sentimento profundo e universal: o medo do rapa.



Comments
Aí, concordo com as cotas também. Não fico falando isso por aí, nem dentro de casa, mas acho uma idéia boa. E parece que resolveram agora passar o critério da raça para a condição econômico-social. Mais justo e à prova de gritos de "racista".
Posted by: daniel | agosto 18, 2006 4:18 PM
Eu prefiro Ricota.
Posted by: Barbz | agosto 18, 2006 4:23 PM
Eu prefiro cocota.
penso q podia ter cota pra estudantes de escola pública só, já tava bom.
Posted by: filipe altino | agosto 18, 2006 4:47 PM
eu acho que a maioria das pessoas é contra o sistema de cotas com critério racial.
fazer cotas por critério sócio-econômico ou para estudantes de escolas públicas é mais justo e atinge quem realmente precisa.
Posted by: marcelo | agosto 18, 2006 6:07 PM
nossa, tbm ja briguei mega feio por essa porra dessa question, bizarro, as pessoas de bom senso tem uns argumentos que parecem que sairam das aulas do cursinho pre-vestibular - mesmo que essas aulas tenham sido ha seculos.
Posted by: adriana | agosto 18, 2006 8:05 PM
Eu acho que o sistema de cotas para minorias já existe há muito tempo, desde a criação do vocábulo "vestibular". Porque todas as vagas, por exemplo, de medicina, são destinados a uma minoria estatística: a de quem tem grana. (particularmente, eu já vi mais micos-leões do que milionários)
Posted by: Waine | agosto 19, 2006 1:31 AM
quem tem raça é cachorro gente.
e quem passa pra federal é a galera que tem grana pra pagar o sala 2.
isso é fato.
Posted by: Anna | agosto 19, 2006 2:53 AM
a discussão é um pouco mais complicada. meio assim, depois q gilberto freyre explicou q o senhor comeu a negra e por isso não existe racismo no brasil, ficou a idéia q é cor ligada a pobreza. mas pensem assim: quantos pobres vc vê por dia? na rua, no trabalho... e quantos negros? ou será q não existem negros no brasil?
Posted by: uait stupid mem | agosto 19, 2006 3:05 AM
acho que esse problema é pontual no jornalismo mesmo. estudo jornalismo na usp, cinquenta por vaga e aquela babaquice toda, e nem quero ser jornalista mesmo!
pq diabos eu iria numa aula???
Posted by: Piero Boeira Locatelli | agosto 19, 2006 12:58 PM
Ei, Anna, umas vírgulas ajudariam, estava pensando que tipo de ser é um "cachorro gente".
Eu sei que a cota para pobres em geral seria mais justo, mas a idéia é fazer injustiça mesmo. Já que a injustiça social é inevitável no Brasil mesmo, queria fazer um sistema de rodízio que a fizesse funcionar a favor de algum grupo que o governo, como nas palavras de Tim Roth em Cães de Aluguel, "fucks in the ass on a regular basis". Achei que preto era um bom começo.
Mas não vou me estender, estou desenvolvendo um método chamado "Ganhe uma discussão desistindo dela"...
Posted by: Arnaldo | agosto 19, 2006 2:56 PM
É verdade, mal aê..
Posted by: Anna | agosto 19, 2006 8:19 PM
eu concordo por um motivo bem real:
tenho somente 1 amigo negro cujo pai é bem sucedido e formado aqui no sul, lugar de barrios blancos onde a pintura é totalmente black/white e os governantes e prefeitos simplesmente varrem pros arredores a cor marrom, é na realidade, algo bem triste e realista....só quem cresceu aqui sabe que estou certa!
Posted by: carne | agosto 20, 2006 2:54 AM
A cota social, no lugar da absurda cota racial, é menos pior. O Brasil é o país mais miscigenado do mundo. Por isso que aqui há tantas e tantas gostosas pra todos os gostos...
Posted by: Anonymous | agosto 20, 2006 3:20 AM
só faltou dar crédito ao nelson rodrigues. "medo do rapa" é dele num é?
Posted by: Rafael | agosto 20, 2006 10:45 AM
sábias palavras, arnaldo. mesmo entre os pobres, nas escolas publicas mais chulé, os brancos e 'pardos claros' estao em posiçao privilegiada, principalmente pq discriminaçao racial atrapalha SIM o desenvolvimento acadêmico dos alunos. e quem se fode nessa sao os negros. por mais q fale e espereneiem, eu NUNCA vi discriminaçao racial contra brancos aqui no brasil. ate gostaria de ver, sinceramente. quem tiver o canal, me avise.
p.s.: quem disser 'no disco dos racionais' só vai conseguir me deprimir.
Posted by: munha | agosto 20, 2006 11:57 AM
Vc fazia faculdade de jornalismo? Vamos e venhamos, é lugar de vagabundo. Mas quero ver daqui a quinze anos, teu filho precisando de uma cirurgia difícil e entrando um Seu Jorge pra operar ele. Vc vai pensar: e se esse cara entrou por cota?
Posted by: Renata Paraguaçu | agosto 20, 2006 2:05 PM
a classe média vira uma fera quando cutucam a sua fatia do bolo.
Posted by: Paula Janay | agosto 20, 2006 9:27 PM
Renata, o que o Seu Jorge faria operando o filho do Arnaldo?
Meu deus. Se fizerem cotas para imbecis, vc já tá dentro!
Posted by: Barbz | agosto 21, 2006 11:24 AM
E vagabundo sou, say it out loud, i´m a tramp and i´m proud.
Renata, quase morri porque o médico da minha família, clínico de renome e cursos a rodo, me deu um diagnóstico de rubéola para uma reação alérgica a dipirona - e continuou receitando dipirona para baixar minha febre. Uma semana e meia de internação e pelo menos 6 meses de angústia sem saber se ia ficar cego ou não.
Acho engraçado esse tipo de argumento que, para vencer a discussão, toma de refém um filho que nem sei se vou ter.
Ah, as probabilidades dessa vida... tive uma discussão com outro amigo que acredita na eficácia pena de morte e que tem medo de sair de casa, e a certa altura mandou algo do tipo "e se acontecesse contigo, com a sua família?".
Respondi que podia acontecer com ele também, porque tomar precauções não te livra da possibilidade de assim mesmo levar um tiro - mas pelo menos eu teria vivido com menos medo e não me privado de coisas legais.
Posted by: Arnaldo | agosto 21, 2006 11:28 AM
Ei, saca só o slogan do Jabber:
http://www.jabber.com/index.cgi?CONTENT_ID=1
Posted by: Fernando Vasquez | agosto 21, 2006 12:45 PM
olha, nao sei se o desempenho da pessoa no vestibular faz tanta diferença assim no decorrer do curso. eu mesmo, passei nas primeiras colocaçoes da UnB e fui um pessimo aluno sempre q pude. vi gente q passou 'de segunda chamada' se formar com louvor...
pelo visto essa renata aí nunca pisou em uma universidade. ou em uma sala de cursinho. ou em um pátio de colegio. ou fora de casa.
Posted by: munha | agosto 21, 2006 12:58 PM
Acho q o fato de vc achar bonitinho tirar onda de largadão, que foi pra facu e tomou todas não serve de critério para pessoas "normais". O problema das cotas é mais profundo do que colocar negros como cotistas na universidade. Além de criar uma "segunda classe" de estudantes, vai criar diretamente uma segunda classe de profissionais. Onde num futuro próximo, todo negro profissional vc deduzirá como de certa forma incompetente, pois entrou "de graça" na universidade. Médico negro vc só verá em hospital público, onde eles provavelmente entrarão por cotas tambem, já que ninguem mais dará emprego pro negro formado. Serão uma segunda classe pra sempre. Muito mais inteligente, e justo, é que, além das cotas sociais (pq tem branco pobre tambem, apesar de minoria) essas cotas fossem na verdade cursos preparatórios pré vestibular de alta qualidade e gratuitos, dando condiçoes de entrar em igualdade na universidade com os brancos e todas as outras pessoas, como temos (parecido) no caso de quem faz concurso pra carreira diplomatica (Rio Branco)
Posted by: zero | agosto 21, 2006 3:02 PM
Você está deduzindo demais, cara.
Posted by: Arnaldo | agosto 21, 2006 3:15 PM
E quem é "negro"? Até pelo grau de miscigenação da população fica difícil distingüir "negro" de "pardo" de "moreno" e assim por diante. Para responder a esta questão no sistema de cotas raciais, seria necessário fazer como na Alemanha nazista, onde se separava "judeu" e "não-judeu" através de moldes com medidas padrão de arcada dentária, ossos, nariz, orelhas, etc. Não me parece um conceito muito justo... Se as cotas levarem em conta a condição socio-econômica dos estudantes o resultado na final será praticamente o mesmo (as estatísticas dizem que a maioria das famílias catalogadas como "negras" possui baixa renda) e não teremos esta segregação racial dos futuros profissionais no mercado de trabalho.
Posted by: Vigilante | agosto 21, 2006 7:00 PM
PA PA PA PA PÁRA PÁRA PÁRAAAAA!
seu jorge operando o imaginário filho do arnaldo daqui há imaginários 15 anos foi too much, rapeize.
e deduzir q uma pessoa é incompetente porque pode ter entrado na universidade pelas cotas é coisa de paranóico! fácil fácil vc tem o exemplo de um monte de gente que entrou em trampos por causa do misterioso sistema brasileiro de cotas destinadas a "filhos de", mas ngm parece se preocupar mto com a questão da competência nesse caso.
Posted by: adriana | agosto 21, 2006 10:15 PM
O tal Barbz, além de ser burro - se não entendeu o que eu quis dizer com UM Seu Jorge, não sou eu que vou explicar - , desenha mal paca, bota letras pequenas nas merdas das tiras da merda do seu site e ainda acha que ofendendo está livre de ter que fornecer algum argumento. Vai fazer um curso de desenho no SENAC, eles tem cotas pra babacas.
Posted by: Renata Paraguaçu | agosto 22, 2006 2:46 AM
nenhum condenado à morte volta a cometer crimes depois da execução...A economia com feita com menos presidiários é substancial.Mil execuções por ano: cada preso custa pelo menos 15 reais por dia com sua alimentação. 15 x 365 x 1000 executados dá uma economia mínima de 5,4 milhões por ano, todo ano.
Sobre sair mais de casa, etc, tô meio cansado disso, além do problema da segurança.
Da próxima vez, me arrume uma carapuça mais larga, esta me serviu bem justa.
Posted by: metaleiro | agosto 22, 2006 1:53 PM
Só que não falava de você, metaleiro... o que vc tem é desajuste social mess, não é medo de violência.
E é mais caro ainda resolver os problemas que fazem surgir essa porrada de marginais, não é?
Pena de morte não resolve o problema da relação candidato-vaga do crime (mata um, entram dois) e nem serve para inibir os criminosos - que se tivessem medo de morrer iam lavar carros.
Mais barato por mais barato, matar todos os caras que não possam comprovar uma renda maior que mil reais por mês. Kill kill kill the poor!
Posted by: Arnaldo | agosto 22, 2006 2:29 PM
Então vamos continuar alimentando e protegendo Suzane e seus Cravinhos, Pimenta Neves,Elias Maluco, Marcola, Beira-Mar, "motoboy maníaco do parque" (Francisco de Assis Pereira), Champinha (coitado, é dimenor), faz uma pesquisa de arquivo de jornal todos os dias nos últimos 30 anos e conte.Todos estes são réus confessos de assassinatos e alguns combinam o homicídio com formação de quadrilha, sequestro, tráfico, roubo, estupro, etc.
Temos problemas a resolver (alta natalidade nas camadas pobres, educação sucateada, dificuldades para abertura de empresas e geração de emprego,corrupção drenando recursos, e muitos outros).Mas é aquele negócio; há que se exterminar ratos e baratas, enquanto se faz a limpeza e organização da casa.
Posted by: metaleiro | agosto 22, 2006 3:40 PM
Desisto, metaleiro, é muita vontade de ganhar a discussão. Agora virei defensor do Champinha, putaqueopariu.
Posted by: Arnaldo | agosto 22, 2006 4:16 PM
dia morno no trabalho dá nisso heheehe.Vc não defende o Champinha, só não quer a pena de morte, oras.
Abs
Posted by: metaleiro | agosto 22, 2006 4:24 PM
Nem sou hidrofobicamente contra, só acho ineficiente como forma de combater o crime. Se for só para cortar despesas, põe os putos pra trabalhar...
Posted by: Arnaldo | agosto 22, 2006 6:04 PM
Você podia colocar no seu currículo: Sou preto - alivio a consciência culpada de branco rico safado. Esse é o verdadeiro espírito das cotas: legitimar a universidade "pública" brasileira, privilégio dos muito ricos.
Posted by: Samuel | dezembro 20, 2006 5:03 AM