Zona de rebaixamento
Entrevista - vai virar uma matéria para O Popular, de Goiânia (como neguinho se liga em quadrinho lá, cara, bacana). Sim, estou sem material para vocês e a idéia aqui é encher lingüiça - não é crime ainda, não?
1. HQs são chamadas por muitos como a 9ª Arte. Você concorda? Você acha que esse trabalho goza desse status hoje em dia?
Nona arte... costumo dizer que estamos na zona de rebaixamento - e fico especulando qual seria a oitava arte, pintura em porcelana? Mas é uma discussão deveras subjetiva.
John Steinbeck dizia que Al Capp, com seu "Ferdinando", merecia o Nobel de Literatura. O Millôr Fernandes acha o cartunista e artista gráfico Saul Steinberg maior do que Picasso (sem intenção de trocadilho), porque este trabalhava dentro do conceito abstrato de arte e aquele com idéias - a que Millôr atribui maior valor ("uma imagem vale mais que mil palavras, tente dizer isso sem palavras").
O reconhecimento disso é complicado, porque a formação do cânon não depende de gente sensata como Millôr ou Steinbeck - enquanto aquelas paródias meia-boca de quadrinhos do Roy Lichtenstein correm o mundo em exposições, um gênio evidente como George Herriman ("Krazy Kat") é uma nota de pé de página, uma curiosidade no livro da História da Arte.
2. Como foi que começou sua carreira? Quando você se descobriu desenhista, cartunista?
Começou tarde, mas eu sabia desde cedo que poderia ser uma opção, depois de rockstar. Sempre desenhava nos meus cadernos (Graúnas, personagens do Angeli, etc). Só fui voltar a desenhar aos 26, 27 anos para um jornal da comunidade de Vigário Geral (uma tira chamada "Blackmen in Black - Os Pretos de Preto").
3. Até que ponto a tecnologia influencia nesse trabalho? Ela chega a ter um papel preponderante?
Pra mim a ferramenta baldinho de tinta do Photoshop é a maior invenção da humanidade. Antes usava métodos para colorir as tiras que prefiro não comentar, por vergonha. Mandar os trabalhos por e-mail - e publicá-los em sites e blogs - também me parece mais eficiente do que esperar a) um office boy vir buscar e b) o trabalho das rotativas.
4. Ainda há algum tipo de preconceito em relação a esse trabalho?
Claro. Muitos jornalistas ainda abrem suas matérias sobre quadrinhos explicando que existe um segmento de quadrinhos para adultos, como se a notoriedade de artistas como Angeli e Laerte não dispensasse o articulista deste tipo de introdução. Isso quando sai alguma coisa a respeito, perdemos em espaço nos periódicos até para, meu Deus, artistas performáticos...
O preconceito também se manifesta na hora de combinar salários com os orgãos de imprensa - algumas das ofertas te dão nostalgia dos tempos anteriores à Revolução Industrial...
5. Em qual tipo de trabalho é possível soltar mais a criatividade? Em gibis, tiras, em quê?
Se você tem talento, em todos os meios. O que você pode fazer a mais em uma revista ou fanzine próprio é ser mais contudente - o que não quer dizer, necessariamente, mais criativo.
6. O cinema também influencia, de alguma maneira, o trabalho que você desenvolve, já que as HQs não param de ganhar adaptações para a tela grande?
No meu caso, completamente. Mesmo que meu trabalho seja mais de tiras, de piadas de três quadrinhos (nas palavras do Laerte "um competidor de tiro curto"), gosto de pensar no desenvolvimento e conclusão da piada como um diálogo de cinema. Acho que roteiristas como Billy Wilder, Ernest Lehman, David Mamet e Woody Allen me influenciaram mais que muitos quadrin(h?)istas.
Agora, sobre essas adaptações de quadrinhos para cinema, tenho um tanto de pé atrás. Um bom personagem de quadrinho se basta nesse meio, e a sanha de Hollywood em ir atrás das HQs me parece mais fruto de um esgotamento criativo - e da monocultura sazonal de gêneros (filmes-catástrofe, terror asiático, comédias colegiais) - do que de um interesse genuíno pelo "valor artístico" da tal nona arte.
7. E o que você vislumbra para o futuro nessa área? Quais as inovações que você prevê para a arte em quadrinhos?
Vejo um pouco como o destino da humanidade em "O Exterminador do Futuro" - o mundo dominado por máquinas e os desenhistas de quadrinhos vivendo debaixo da terra, tocando uma arte morta por força do hábito... brincadeira, nada tão sombrio. Pelo contrário, acho que o interesse por quadrinhos vai crescer - como cresceu com o advento da internet, que ajudou muita gente a descobrir novos - e velhos - autores. O número de artistas atrás de um lugar ao sol também deve aumentar - mas também como em "O Exterminador do Futuro", os fortes devem sobreviver.



Comments
Pois então - venha lançar o livro cá também, hômi.
Posted by: Nelson Moraes | julho 11, 2006 6:16 PM
Bem que eu gostaria, Nelson - até para aproveitar e esganar a mina que trabalha no financeiro do Diário da Manhã... abração!
Posted by: Arnaldo | julho 11, 2006 6:22 PM
Opa, outra entrevista - para um zine chamado lado r, é isso mesmo? Where´s my mind?
Vou botar aqui nos comments, seria exagerar no RECURSO, como diria o CARDOSO. Enjoy. Ou não:
Não sou fanzineiro das antigas não, comecei tarde mesmo. Quer dizer, tinha um jornal nos tempos de faculdade, mas era só pra zoar os outros alunos - uma tendência na minha vida, zoar meus próprios pares ao invés dos poderosos, no caso os professores. É sempre legal sacanear as autoridades constituídas, mas todo mundo já está fazendo isso... mas enfim, comecei já burro velho fazendo a tira "Os Pretos de Preto - Blackmen in Black" - para o jornal do grupo Afroreggae, de Vigário Geral, isso em 98.
Revista em quadrinho, qdo era criança deve ter sido Mônica, mas tinha tanto quadrinho pra criança... Lembro do Brasinha, que era um diabo sacana, Dênis o Pimentinha, todas aquelas séries de jornal - os quadrinhos ocupavam a pg inteira, tinha Brucutu, Woody Allen (uma série excelente, eu lia sem entender as piadas mas adorava) Modesty Blaise, lia a porra toda. Li um pouco a MAD mas me reconheci mesmo com a Chiclete com Banana, Angeli pra mim é Deus. Ele é como os Mutantes, mostrou que um brasileiro podia fazer em português uma coisa de linguagem essencialmente gringa (como o rock) que é o quadrinho adulto naipe Crumb - coisas que fui descobrindo junto, principalmente em edições piratas, tinha muito pouco quadrinho gringo mais hardcore publicado no Brasil. Depois comecei a ler a Animal, e posso dizer q foi essa a minha formação.
O Capitão Presença saiu de uma troca de e-mails com o Allan sobre um amigo nosso, o Matias Maxx, editor da Tarja Preta. Ele tem todos os poderes do Presença, exceto voar. Ou seja...
Assusta um pouco a receptividade, porque foi total sem querer. Quando você bola um personagem você quer que ele faça sucesso, claro, mas o Presença eu realmente só fiz pra zoar o Matias. De repente todo mundo começou a desenhar o Preza e me mandar - caras que eu admirava o trabalho fazia tempo, como o Schiavon...
A Conrad me procurou depois d´eu dar uma entrevista para a Folha de São Paulo falando sobre o projeto do Creative Commons, de ter aberto os direitos do Presença e tal. Disse na entrevista que estava fazendo um álbum e iria oferecer a alguma editora - no dia seguinte me ligam de lá interessados. Só que eu menti, ainda não estava fazendo o álbum, estava pensando em fazer um. Daí tive de correr. Não me surpreendi, eles seriam mesmo os primeiros que iria procurar.
O Creative Commons torna de direito certas coisas que já são de fato - é impossível você ter controle total sobre a sua criação, especialmente se ela cai no gosto popular. Então ao invés de dar uma de Lars Ulrich e tentar processar seus próprios fãs, é melhor apoiá-los no que, afinal, estão fazendo de graça pra vc: divulgando o seu trabalho.
Tenho mais alguns personagens, como o Joe Pimp, um cafetão ultramachista, os Remédios do Mal (faço exclusivamente para a Tarja Preta), que são caixas rémedios com modus operandi de traficantes, o Futebol-Força Futebol Clube, um time violento, Mundinho Animal, uma tira com bichinhos fazendo as vezes de personagens da nossa patética classe artística... vários que não estou lembrando agora.
A F. é tipo os Beatles, a gente assina junto mas cada um cuida do seu material. Não, a gente não se odeia, é que todo mundo é meio ocupado demais e só se reúne em cima da pinta pra juntar nossos bagulhos, cobrar dos colaboradores... a gente marca umas reuniões, mas geralmente a gente só fala da F. nos primeiros dez minutos e depois bebe até cair. Agora contratamos uma produtora, a Marsílea, que vai nos disciplinar.
Sou webmaster. Suspiro.
Que horas livres? Bem, nas horas livres eu sou um vagabundo imprestável, mas não somos todos?
Eu não sou esse maconheiro profissa que as tiras do Preza me fazem parecer não. Na real essa pergunta era mais pro Matias, pra saber se ele tem conseguido corresponder à lenda, sem deixar nenhum amigo na mão...
Ah, sempre quis dizer isso: comprem o livro, ouçam o disco (o Coletivo Instituto, de SP, está fazendo um CD com um pessoal maneiro - BNegão, Sebozos Postizos, etc. - com músicas sobre o Presença e sua turma), vejam o filme (quem sabe um dia... podia ser o Pedro Cardoso como o Preza...).
Posted by: Arnaldo | julho 11, 2006 6:37 PM
muito legais ambas as entrevistas, mas eu preferi a segunda, ficou muito boa!finalmente li algo sobre vc q ainda não soubesse ;-)
"nas horas vagas sou um vagabundo imprestável" é genial!!! hahahahah
Posted by: renata | julho 11, 2006 11:49 PM
poutz, oitava arte é cinema né não?
Posted by: cabrón | julho 11, 2006 11:59 PM
Olha só, a conservadora e reacionária mídia goianiense descobrindo os quadrinhos nacionais... Agora, arrumar espaço pra autores novos na seção de tirinhas deles, nem pensar.
Mas eles ao menos eu sei que pagam...
Posted by: Lupe | julho 12, 2006 12:46 AM
Muito boas as duas entrevistas, Arnaldo. Assino embaixo do que você escreveu sobre o Lichtenstein e o Herriman, sobretudo o "gênio evidente" ("Krazy Kat" é fodaço, sem contestação).
Vale o mesmo pro Ernest Lehman (e pros outros roteiristas, claro, mas o Lehman merecia ser mais conhecido). Qualquer curso de roteiro devia ter o script de "Sweet Smell of Success" como leitura obrigatória.
Abraços!
Posted by: Ruy | julho 12, 2006 3:56 AM
De quem são as aspas aí de baixo:"I never saw a dame yet..." ?
Posted by: Loser | julho 12, 2006 8:47 AM
rarararararararararara. exterminador do futuro... rararararararara, ai que jóia, juro
Posted by: Leonardo | julho 12, 2006 11:12 AM
É que uma era mais séria e a outra mais freestyle, Renatinha! E você sabe tudo a meu respeito, oras, portanto precisa ser eliminada!
Tão perto e tão longe, Lupe, um dia eles vão te descobrir, que nem os editores da Cruzeiro descobriram o Millôr aos 15 anos - ele encheu a mesa de um dos caras de desenhos...uma dica.
Ruy, I´m a sucker for dialogue. O cara ainda escreveu o roteiro de Intriga Internacional, em que o Cary Grant diz pra Eva Marie Saint que ela já é uma garota grande - nos lugares certos...
Loser, é de "Play it Again, Sam" (Sonhos de um sedutor), filme do Herbert Ross estrelado pelo Woody Allen. Quem diz isso é um sósia do Bogart que é uma espécie de guia espiritual do personagem do W.A., um cara sem jeito com as mulheres. Hilário, vai atrás.
Posted by: Arnaldo | julho 12, 2006 12:44 PM
Também gostei mais da segunda...tuas tiras deveriam virar grafitti...Joe Pimp..os remédios...ia ser foda!!
Posted by: DaniSchmitz | julho 12, 2006 2:14 PM
Excelente entrevista Arnaldo. Foi difícil fugir do "Qual é a sua cor preferida"? Estou imaginando o repórter com uma lista de perguntas prontas, pronto pra tudo, menos pra dialogar... foi isso? Pensei em Noises Off, na cena final em que todo mundo começa a improvisar por força maior, menos a atriz loira, que teimava em ficar no texto...
Posted by: patético | julho 12, 2006 5:35 PM
o bom de entrevistar jornalista é que eles sabem dos perrengues e geralmente colaboram. COMO VOCÊ RENDE, arnaldo, cê faz a festa dos coleguinhas!
Posted by: Liv | julho 12, 2006 5:43 PM
A real é que gosto de dar entrevista. Não sei se é alguma necessidade premente de me explicar ou se sou muito novo nisso e ainda não enchi o saco.
E prefiro ser entrevistado por e-mail, também: gaguejo menos...
Posted by: Arnaldo | julho 12, 2006 6:42 PM
bem vindo ao clube. prefiro entrevistar e ser entrevistada (nas raras vezes em que fui) por email. maldito cérebro que demora a articular respostas inteligentes.... e olha que eu nem fumo maconha.
Posted by: Liv | julho 12, 2006 10:47 PM
Matou a pau nas entrevistas, Arnaldo.
Principalmente por mostrar que artista de humor sabe mais do que demonstra.
Agora, sobre Krazy Kat, tava relendo Wallaye, do Jano (achei num sebo por R$1,00!) e vi como ele foi influenciado pelo Herriman, e Barks, também.
Bala!
Posted by: Wagner Cordeiro | julho 14, 2006 2:16 PM
Porra, meu Wallaye sumiu, aquilo era genial mesmo. Pior que é, só lembrando das paisagens desenhadas pelo Jano dá pra ver a ligação...
Posted by: Arnaldo | julho 14, 2006 3:19 PM
Arnaldo,
Você sabe se a matéria já saiu no Popular. Se não, sabe dizer qual será o dia???
Posted by: Marcelo Melgaço | julho 17, 2006 12:25 PM
Tava pensando agora, quem será que era a figura da Abril que decidia publicar álbuns como Wallaye e os do Eisner?
Porque depois de um certo tempo, só o que se viu foi HQ de super.
Posted by: Wagner Cordeiro | julho 20, 2006 1:28 PM
Wallaye saiu pela Abril? Nem lembrava, achava que tinha saído pela editora da Animal...
Posted by: Arnaldo | julho 20, 2006 1:42 PM
Conversação lerda, né?
Anyway, saiu pelo selo "Graphic Novel", da Abril.
Lembra, era aquele "formatão", maior do que o americano.
Mudando de assunto, tu chegou a ler a "Banda Grossa" (www.bandagrossa.com)?
Tem coisa boa lá, tipo o Jesus Cristo sem braços.
Comprei a minha do Renner, mas ele não tem nada a ver com a coisa.
Posted by: Wagner Cordeiro | julho 26, 2006 1:45 PM
Jesus sem braços, very good indeed. A Banda Grossa é bacana, Luimar rocks.
Posted by: Arnaldo | julho 26, 2006 2:36 PM