Lente da verdade
Entrevista para o Pedro de Luna, do Bigorna.
1) Vivemos numa sociedade onde muito se fala em liberdade de expressão. Mas sabemos que a repressão ainda existe. Você nunca se preocupou ou nunca aconteceu algum tipo de censura, ameaça ou coisa do tipo com vc e o Capitão Presença? Por exemplo, todo mundo da sua família, do prédio, etc agora sabe que voce gosta muito da planta...
Liberdade de expressão... cara, um país em que existe o ditado: "quem fala o que quer acaba ouvindo o que não quer" só pode ser um país de censores enrustidos. Sempre achei que falar o que se quer e ser obrigado a ouvir o que não se deseja (ou concorda) fosse a base da democracia. Temos alma de síndico de prédio, estamos sempre reprimindo, dando palpite sobre o que fulano ou sicrano devia fazer ou dizer. Então já estou acostumado, o Presença é o de menos.
Bem, há o risco de ser enquadrado por apologia, mas essa lei é tão cheia de buracos e aberta a tantas alternativas de interpretação que acredito que um advogado do naipe do que cuidou do caso das vítimas do Palace II me livre dessa, se rolar acusação. Aliás, quer ver apologia de verdade? Pergunta sobre a erva para um paciente de glaucoma com permissão médica para se tratar com canabis...
Tem outra coisa nesse país: somos recordistas em analfabetismo funcional, não conseguimos entender claramente o que lemos e ouvimos - confundimos o personagem com o ator, achamos que um roteiro é improvisado na hora por quem declama as falas... então eu poderia (atenção para o futuro do pretérito) ser abstêmio para criar o Presença; meu super-poder é o da observação. Mas como disse, estou acostumado (aposto que você também) a ser mal-interpretado, então não me importo...
2) Vc prefere desenhar sóbrio ou chapado?
Sóbrio, sou profissional em relação a meus vícios, não deixo que nenhum hobby idiota como desenhar quadrinhos atrapalhe nenhum deles.
3) a coletanea que forma o livro foi toda tirada de material ja publicado na F e na net ou tem uma parte inedita?
A maior parte das minhas coisas (cento e blau páginas) é inédita, quando a Conrad encomendou o álbum eu só tinha tipo umas trinta tiras e duas histórias de duas páginas prontas. Tive que correr, porque me deram seis meses de prazo - com um trabalho de 9 às 6, mais tiras diárias e cartuns para a Bizz e para a Sexy para fazer, te asseguro que não foi fácil... mas me esmerei, meu objetivo era deixar a parada engraçada a ponto de fazer o delegado responsável pela minha prisão rir - e consequentemente, pegar mais leve comigo.
4) O Sieber que é teu parceiro não pensou em fazer o desenho animado ou o curta do Capitao Presença?
O Sieber vive atolado nos projetos dele, nem teria cara de botar o Preza na fila da Toscographics. Na real dá pra fazer com outros caras, eu é que sou preguiçoso demais.
5) qual o melhor fumo que ja te apresentaram? Foi o Matias quem botou?
Não lembro, na real - e não sei distinguir essas coisas muito bem, bebo muito no processo, saca? Sou bagaceiro de berço, pra mim chocolate suíço e Prestígio tinham o mesmo gosto.
6) dá pra ver que vc não se preocupa muito com técnica. O traço é simples, beirando o tosco, e vc só pinta no micro o necessário. A idéia é essa mesmo ou na verdade vc é mais um roteirista que um desenhista?
Odeio desenhar e odeio aprender. Quer dizer, odeio aprender da forma clássica. Por exemplo, no caso do texto: leio muito e vejo muitos filmes por prazer, e claro que isso vai fazendo a diferença na hora de bolar minhas coisas - costumo dizer que o segredo da originalidade é não lembrar direito onde foi que você já leu aquilo. Mas a técnica de desenho se aprende ou frequentando um curso ou desenhando bastante, e não gosto das duas coisas. Mas claro que gostaria de desenhar bem como o Crumb, o Angeli, o Sieber, o Leonardo, o Zimbres, o Jaca. Se pudesse fazer um download de traço, como em 'Matrix'...
7) e por fim, gostaria de saber por que vc acha que a lei dos quadrinhos (ainda em votação lá em Brasilia) não é uma luta sua. O que pensa a respeito? És um anarquista? hehehe
A única política que apóio para a Cultura é a Condescendência Zero, em todos os setores. Talvez nem tivesse pudor em botar a mão em qualquer subsídio, trabalho com carteira assinada há dez anos e tenho toneladas de contracheques com o registro das mordidas mensais em casa - ia me sentir mais ressarcido do que culpado. Mas acho que ninguém pode se fiar nisso pra construir uma carreira artística - pra esses sugiro o funcionalismo público, forchrissakes.
E sobre as cotas para quadrin(h?)istas nacionais em publicações impressas, fala sério: um quadrinho que realmente cative o público, ou tenha qualidades evidentes, acaba chegando a um veículo ou outro através do boca-a-boca. A internet está aí, foi o caso dos Malvados, por exemplo. O critério tem que ser qualidade sempre (ou interesse do público - se uma tira de valor contestável atrai leitores, bem, há que se suportar essas franquias do Ziraldo e do Miguel Paiva). Preferia ver mais gente como Peter Bagge, Johnny Ryan e Kaz nos jornais brasileiros, por exemplo, do que um cartunista sem muito engenho - mas, vejam só, nascido em Quiprocó da Serrinha, brasileiro da gema...



Comments
Arnaldo, acho que ninguém (principalmente o Ministério Público) vai te processar por apologia. Acabaria sendo uma forma excepcional de marketing pro Preza e todos iriam entender porque "The Pres is cool"...
Posted by: Anonymous | julho 25, 2006 3:12 PM
Tô sabendo, tinha consultado um advogado antes - o cara disse que mesmo se rolasse algum problema, Apologia dá pra se livrar com cesta básica...
Posted by: Arnaldo | julho 25, 2006 3:23 PM
É impressionante como vc se sai bem quando algum jornalista tenta te por na parede! Ah detalhe...sempre com ótimo humor!
Parabéns guri tu vai longe!
Posted by: Dani Schmitz | julho 25, 2006 4:00 PM
Os explanadores, que vc sacaneia esplendidamente, têm que se preocupar constantemente, tanto quanto o Mané Bandeira...Mas espero que vc continue "impune" e inspiradíssimo...
Posted by: Anonymous | julho 25, 2006 5:07 PM
Depois me lembra de eu te contar de quando estava comendo uma pizza com o Detonautas em Florianópolis.
Posted by: Pat* | julho 26, 2006 12:31 AM
Sei lá... sou muito mais o teu traço do que o Sieber...
Posted by: CCRider | julho 26, 2006 12:09 PM
Nem todo funcionário público é encostado e seria menos ainda se houvessem menos cargos de confiança e concursos fraudados e mais cobrança por produtividade.
Usar o funcionário público como sinônimo de inútil é tratar o assunto levianamente e assim incentivar que seu contra cheque tenha mordidas cada vez maiores.
Posted by: Funcionário público | julho 26, 2006 10:08 PM