Queria pedir desculpas pra quem já acompanha isso aqui há mais tempo (mal aí Chico Barney, mal aí Coiote), porque é a terceira vez que reaproveito essa bagaça. Isso é o que sobrou de uma peça de teatro que escrevi (o nome era "um a zero") quando reduzi a bicha a uma cena para um concurso de esquetes aí.
Lembrei dela porque o Rabu me botou uma pilha para inscrever alguma coisa em outra competição - e me dei conta que era o mesmo concurso (que me deixou traumatizado, a vencedora daquela edição tinha dezoito anos e ia gastar parte substancial do prêmio em dinheiro em um livro do TUNGA, Cristo). Então, como os arquivos de 2005 para trás não estão mais no ar, taí de novo.
Eu falei que estou sem material...
Vaidade Autoral
Arnaldo Allemand Branco
(Um cara - um dramaturgo, 30 e poucos anos - em uma mesa de bar, bebendo e fumando. Do outro lado do palco entra seu amigo - mesma faixa de idade, de ressaca)
Cara 1 - Que porra de cara é essa?
Cara 2 - (Com a mão no rosto, tapando a vista) Ooooh. Oooh. Toda minha vida está passando diante dos meus olhos. Oh não, lá vem a parte do colégio interno.
Cara 1 - O que foi, o médico te desenganou? Se for doença degenerativa do cérebro você me deve 20 pratas.
Cara 2 - Nah, é ressaca. Fui numa rave ontem. Ou foi anteontem? Ontem eu acho que foi quando eu dormi.
Cara 1 - Ah é? Mas tu é gregário barbaridade, hein? Tem rave da terceira idade agora, é?
Cara 2 - Ô Patrulha, desliga a sirene. Fui lá mas levei meu senso crítico, OK? Aliás, falando em patrulha, sou eu ou você está usando roupa de fazer ginástica? O que isso quer dizer?
Cara 1 - Meu uniforme nazista está lavando. O que que você acha? Vou começar a fazer ginástica. Correr na praia.
Cara 2 - "Intelectual não vai a praia, intelectual bebe". Paulo Francis. Falando nisso (apontando pro copo do outro), beber não atrapalha a aerofagia?
Cara 1 - Decidi só começar segunda-feira. Intelectual é a mãe.
Cara 2 - Não a minha. A minha precisa de um dicionário pra ler o Tio Patinhas. Ooou minha cabeça.
Cara 1 - Você devia experimentar fazer ginástica também, isso que tu tem deve ser o ar que você respira com dificuldade pra encontrar o teu cérebro.
Cara 2 - "Prefiro atrofiar". Woody Allen. Minha cabeça, como dói. Será que é muito tarde pra ligar pro Dr. Marcelo?
Cara 1 - Não acredito que você vai perturbar o cara de novo só por causa de uma ressaca.
Cara 2 - Como assim de novo? Até parece que eu sou agulhado assim com esses lances de saúde.
Cara 1 - Não? Quando o cara disse que você ainda tinha as amígdalas a tua pergunta foi: "mas é benigno?".
Cara 2 - Ah, não fode. (Pausa) Vem cá, como foi lá na reunião? O cara leu a tua peça?
Cara 1 - Claro que não. Se ele tivesse lido, não me dava patrocínio nem se estivesse precisando lavar dinheiro.
Cara 2 - Afinal, sobre o que é a peça? Por que é que ninguém se interessa em bancar?
Cara 1 - Ahn, bem. É assim: tem esse cara com dupla personalidade. Uma é boazinha, quando ela assume o cara fica super-legal, entende a namorada, ouve John Coltrane e tal. A outra personalidade é má, aí o cara mata por prazer, vota no PFL, não recicla o lixo e por aí vai. Aí o cara morre.
Cara 2 - Como o cara morre?
Cara 1 - A personalidade boa dele volta bem no meio da chacina do Carandiru. Aí o cara morre, mas como ele foi bom e mau ao mesmo tempo, surge a questão: pra onde a alma do cara vai? Aí começa a maior batalha judicial entre o Céu e o Inferno, com Tribunal, Júri, a porra toda. Eu tava pensando em botar como advogado do diabo alguém assim, quer dizer, eu pensei em Hitler, mas sei lá, muito clichê. Então eu botei a Norma Bengell.
Cara 2 - A Norma Bengell ainda não morreu.
Cara 1 - Ainda nem começaram os ensaios, quem sabe até lá. E na defesa do Céu eu botei o Rui Barbosa. Já pensou, Norma Bengell X Rui Barbosa? Numa batalha judicial de vida ou morte? Dá o maior caldo.
Cara 2 - (Olha para o amigo um tempo, entendendo o que há de errado com a peça) Mas teve a reunião? Como foi?
Cara 1 - Cara... foi o mesmo que vender curso de leitura dinâmica pra analfabeto.
Cara 2 - Sim, o cara não entendeu sua proposta, é um capitalista insensível, bla, bla, bla. Mas e aí? E a grana?
Cara 1 - (Sem muita empolgação) Ah, consegui. O cara fechou comigo, vai bancar tudo. Mas com uma condição, vou ter que dar um papel pra uma atriz aí.
Cara 2 - Uma atriz aí? Quem?
Cara 1 - Sei lá, o cara também não sabe o nome. Ele disse que ela é a "Selminha" de "A força do amor". "A força do amor" é uma novela aí.
Cara 2 - Eu sei, conheço essa tal, puta, a mulher é péssima! Você topou?
Cara 1 - Por que não? Tanto faz pra mim. O que é uma atriz? É alguém que a gente acha o máximo porque consegue decorar uma porrada de frases de outros autores.
Cara 2 - Não sei não. Quando ela fez "Hamlet" a Bárbara Heliodora escreveu que achava estranho que ela no papel de Ofélia cometesse e não induzisse suicídio. Vai por mim, essa mulher é a maior canastra. Mas afinal, porque o cara faz tanta questão da sujeita na peça?
Cara 1 - Bem, ele me pediu pra apurar se ela era casada, lésbica ou se tinha alguma doença.
Cara 2 - Ah, saquei. Hum, uma doença ela tem. Mas o cara pode ficar tranquilo. Ninfomania tem cura. (Ele faz o gesto com as mãos espalmadas e afastadas que quer dizer "pau grande").
Cara 1 - Então beleza. Descobre o nome dela pra mim e eu ligo pra fazer o convite.
Cara 2 - Olha lá, cara. O cérebro dessa mulher parece que só tem um hemisfério. Outro dia ela perguntou numa entrevista se com o Método Stanislavsky ela teria que cortar alimentos ricos em proteína.
Cara 1 - É ela ou vou ter que montar essa parada em porta de fábrica.
Cara 2 - O povo não deve saber como se fazem as leis, as salsichas e a captação de recursos.
Cara 1 - Vem cá, e a tua peça?
Cara 2 - Qual peça?
Cara 1 - Aquela que tem um nome engraçado.
Cara 2 - "Édipo Gay"?
Cara 1 - Não... aquela, "Seis personagens a procura do autor pra dar porrada"?
Cara 2 - Ah, essa. Foi pra gaveta. O pessoal do grupo resolveu montar a peça do... (baixa o tom de voz e faz o gesto com a cabeça, como se apontasse alguém no bar, olhando na direção da platéia)...a peça dele.
Cara 1 - (Apontando na direção) Do... dele? Cara, nem sabia que esse bar era tão mal freqüentado. Puta, esse mané é o pior. O teatro do cara é auto-indulgente, é sentimentalóide, pretensioso, superficial. Foi ele que me inspirou o professor bêbado e impotente de “Biblioteconomia é destino”. Puta, se existisse um Inferno pra autor teatral, e fosse que nem o Dante descreveu, com aqueles Círculos todos e tal, iam ter que esquartejar o filho da puta.
Cara 2 - É, é foda.Se o governo permitisse a eutanásia em casos de morte cerebral, esse cara finalmente ia poder descansar em paz. Enfim, foda-se. Hoje vamos ficar muito bêbados.
Cara 1 - (Levando a mão ao peito e fazendo uma careta) Cara, acho que já estou muito bêbado.
Cara 2 - (Erguendo o copo e declamando a letra do samba) "Bendito seja / bendito seja / o alemão que inventou a cerveja".
Cara 1 - Quem inventou a cerveja foram os fenícios.
Cara 2 - Não fode, dá uma licença poética aí pro Martinho da Vila...
(Trevas)
FIM