Promessas, promessas
Semana passada saiu naquele suplemento para adolescentes do Globo, Megazine, uma matéria sobre as promessas pra 2006 - imagino que esses cadernos adolescentes só precisem de três editorias: a do Vestibular, a da Primeira Transa e das Eternas Promessas Jovens.
O que me deixou estarrecido (palavra que me lembra, não sei por quais meandros tortuosos da mente, ovo frito), mas não surpreso, foram as indicações de novas caras do cinema. Todos - eu disse TODOS - os escolhidos são filhos/parentes de alguém da área.
Já falei algumas vezes: não tenho muitos problemas com nepotismo na classe política, mas na área de cultura, mil reservas. Afinal, é mais fácil surgirem dois bons subsecretários em uma família do que dois bons atores shakesperianos. E alguns artistas com a prole toda empregada em algum filme desses que custam, sei lá, 3 milhões e têm 30 mil espectadores, ainda vão para a televisão cobrar vergonha na cara dos políticos que contratam chegados.
(Por favor, nada de "há exceções". Sempre há; acredito que uma primeira-dama do teatro possa gerar uma excelente primeira-nora do teatro, mas... e aqui você vai perdoar a minha preguiça de argumentar).
Alguns defendem a consangüinidade artística com a tradição do circo, do vaudeville, da arte passada de geração em geração. Well, ali era mesmo a prova dos nove: se você não tivesse algum talento, poderia acabar caindo de um lugar meio alto. Imagine o filho de um atirador de facas famoso dizendo: "é difícil trabalhar sob a sombra do meu pai"... eu é que não seria assistente de palco desse aí.
Ah, a matéria também mostrava as novas promessas da literatura ("novas" literalmente, uma média de - ahn, por alto... 25 anos? Ah, memória, sic transit gloria - rimou). Ali acho que prevaleceu mesmo o talento, gosto muito (muito mesmo) do trabalho da Simone Campos, por exemplo. Curioso é que na semana anterior a capa do Segundo Caderno era dedicada aos escritores que se destacaram em 2005. A média de idade era bem mais alta e, se não me engano, nenhum constava na lista de promessas para aquele ano.
Acho engraçado um jornal que sabota seus próprios exercícios de futurologia.



Comments
Ae Arnaldo, já podemos chamar a Bruna Surfistinha de uma promessa da literatura brasileira???
Posted by: Zar0lh0 | janeiro 13, 2006 11:12 PM
Muito honrada. Soube da volta do mau-humor pelo blog dos Malvados; continue com isso que eu continuo freqüentando.
Posted by: Simone | janeiro 15, 2006 5:07 AM
Bah, mas a honra é minha, publique seu livro e estarei na fila.
Posted by: Arnaldo | janeiro 15, 2006 10:29 AM
bom, ter 25 anos não quer dizer que a pessoa seja uma 'velha' promessa. acho que o lance é encarar o 'novo' como quem nunca publicou, não é? ou viajei?
Posted by: eira | janeiro 16, 2006 4:52 PM
Diretor ruim mata menos do que secretario de saude, ou de obras retardado, ainda assim entendo o pq de sua bronca. O importante é pegar no pé dos caras...
Posted by: mauricio | janeiro 17, 2006 6:58 PM
estarrecido - esturricado - ovo frito.
Posted by: explicador | julho 11, 2006 5:20 AM