Discos que tacaram o horror
FREE YOUR MIND... AND YOUR ASS WILL FOLLOW
A pá
de cal nos anos 60 e o olá lisérgico aos 70
Segundo disco do Funkadelic
mostra como seria uma transição ideal entre as duas décadas





Um
dos primeiros coveiros da década de 60 foi, sem dúvida,
John Lennon. Ainda vivendo nos sixties, ele tentava mostrar
que nem tudo era festa e ácido. Começou pelos escapismos
anti-hippies do Álbum Branco, passou pelo expurgo da
heroína em “Cold Turkey” e chutou o balde exorcizando
geral em seu disco solo Plastic Ono Band, o primeiro pós-besouros.
Lennon tentava fugir da sombra, da zeitgeist da década
que lhe deu fama, mas as coisas iam acontecendo lentamente - dos Hell
Angel’s no show de Altamond às mortes de Brian Jones/Hendrix/Morrison/Janis
Joplin e o próprio fim dos Beatles – e os sessenta morreriam
naturalmente com o fim de alguns de seus ícones e o surgimento
de “novas idéias”.
Ouvido hoje, quase 35 anos após
seu lançamento, Free Your Mind... And Your Ass Will Follow,
segundo disco do Funkadelic, é uma viagem de transição
por tudo que estava pegando por aquela época. Pra começar,
o ano: 1970, um “divisor de águas”, segundo a folhinha.
Depois, a idéia geral, lançada já no título:
“abra sua mente...”, típico recado sessentista, “...que
seu traseiro vai junto”. Opa, sem viadagem!! Mestre George Clinton
insinuava o sacolejo, a ginga, chamava pro suíngue. Motown com
LSD, Isaac Hayes com Jimi Hendrix, o passado lisérgico com o
futuro que seria da disco. A transição ideal
antes da luxúria, a breguice e o excesso de pó tomarem
conta do mundo.
O
fim da década de 70 estava tão longe de seu início
quanto estava a seleção brasileira de Cláudio Coutinho
da de Zagallo no México. Quando não se tinha Gloria Gaynor
para balançar, o Funkadelic evocava Jimi Hendrix em Woodstock
reinterpretando o hino norte-americano ao som de bombas para nos levar
ao universo de Free Your Mind... And Your Ass Will Follow.
Uma banda alucinada, regida por Clinton e com o fabuloso guitarrista
Eddie Hazel como ponta-de-lança, nos dá a faixa-titulo,
dez minutos de instrumentos no talo, teclados estouradaços e
versos quase bíblicos: “O reino dos céus está
entre nós – está satisfeito? / Estou tão
confuso com essa coisa toda / eu não entendo”. Com um sem
número de finais falsos, as diversas camadas de voz sobrepostas
e a mixagem cavalar, “Free Your Mind...” é um psicotrópico
e tanto (além do que o botão de repeat resolve o problema
de efeito curto). Lembrem-se de Fun
House, dos Stooges, parido no mesmo ano e num nível
ainda maior de psicopatia.
A partir da faixa-título, as coisas
não seguem caminhos tão tortuosos, mas basta aparecer
a tecladeira de “Friday Night August 14th” para que toda
a banda vá se soltando, um pouco mais focada e muito, muito pesada
para manter o baque até o final do disco – que soma curtos
32 minutos. Hazel, que dois anos depois daria sua contribuição
ao mundo com um “novo testamento” da guitarra (o disco e
a canção Maggot Brain) e que sairia da banda
em 1974 (morreu em 1992), volta à carga com “Funky Dollar
Bill”, num riff bluesento e primoroso que permeia todo o vocal
de Clinton.
Seguem apenas mais três canções,
cada uma arredia à seu jeito: “I wanna know if it’s
good to you”, esparsa e pesada, coloca boa parte dos instrumentos
num mesmo plano e salve-se quem puder. Pelo menos até a segunda
metade, instrumental, quando cada um se sobrepõe em momentos
distintos – um pequeno deleite num prato repleto de surpresas.
Como o blues fantasmagórico “Some More” e na transgressão
final, “Eulogy and Light”, um curto delírio vocal
evoca o salmo 23, fosse ele rezado por um padre em regime de ácido.
Bem, era a década de 60, e depois de “Revolution #9”,
nada seria mais tão estranho assim. Com Free Your Mind...
o Funkadelic vislumbrou um caminho digno para uma transição
para os anos 70 e até seguiu firme nessa paçoca ao longo
da década. Prova de que o problema mesmo foi que os sucessores
não usaram as drogas certas.
Fabrício
Rodrigues
Cotação:




Pernalonga



Mescalina


Éter

Álcool Tatá
Cola