Devotional - Depeche Mode (DVD)
À
moda antiga
DVD duplo do Depeche Mode
lembra um tempo em que a eletrônica tinha algo a dizer



Uma
coisa que não dá pra negar em relação à
música da década de 80 (seja qual for seu ponto de vista
quanto a ela) é que ela foi pródiga em refrãos.
Bons e ruins. Tanto é que, na falta de talento de muita gente
do mainstream atual, qualquer musiquinha chinfrim é regravada
com ares de clássico (como o No Doubt fez com "It's My Life",
do Talk Talk, ou como qualquer mané faz no Brasil, quando não
traduz pro português). Não que os anos 80 tenham sido geniais
ou coisa que o valha, porque isso não foi mesmo, mas é
que quase tudo naquele tempo convergia para o lado pop. Disco do Dire
Straits, calça US Top, a aeróbica da Jane Fonda, as Olimpíadas
de Los Angeles. Tudo podia virar capa de caderno. Assim, se estabeleceu
o "pop" sem muita interferência de experimentos alheios
- psicodelia, progressivo, punk. Perto do nu-metal, que já foi
tarde, Iron Maiden era pop ("Wasted Years" não é
a cara do Top Gun?). E esse DVD do Depeche Mode o que tem a
ver com a história?
Registrado numa época pouco amistosa
pra banda (1993, quando neguinho pegava sol com camisa comprida de flanela)
e lançado no Brasil justo agora, quando eles são uma lembrança
esparsa da "década do pop", Devotional suscita
reflexões quanto à música eletrônica atual.
Diferente do que se fazia a partir de New Order e Afrika Bambaataa e
do que veio a seguir (big beat, drum'n'bass, o pancadão do Prodigy),
hoje a eletrônica de vanguarda é jogada a ouvidos leigos
no mesmo balaio de fuleiragens e picaretagens quaisquer, vendidas sob
o rótulo generalizante de "techno". A estrutura pop
comum ao DM, o New Order, o Pet Shop Boys e afins se perdeu no meio
da festa.
Pois,
desde 1245 (ou algo próximo disso) nada é menos pop do
que o ano que finda daqui a algumas semanas. Temos lixo popular a dar
com pau, mas ao contrário de antes, nada mais converge em torno
do pop. Virou palavrão há muito tempo. O quente nas rodinhas
bacanas é ouvir trance, hip-hop, technêra e afins. Não
se vai a uma rave pra dançar refrãos, mas sim pra comungar
com a natureza (ou comer alguém, ou tomar ecstasy – ou
água, que não engorda) ao som de loops intermináveis.
É cedo para dizer, mas não se ignora a possibilidade de
que esta banalização dos DJ's e da "cultura rave"
seja resultado de alguma praga lançada pelo Erasure pra que o
pessoal de hoje perceba que veio muita coisa pior depois deles.
Noves fora, Devotional não
é coisa pra nova geração da eletrônica.
Pelo menos não pro pessoal que não vai atrás da
referência. O DVD
duplo é um artigo saudosista por excelência, apesar da
mão de Anton Corbjin (como sempre) não deixar o visual
da banda assim tão datado. Neste vídeo em especial, quem
se esmera pra provar que está em 93 é o vocalista Dave
Gahan (cabelo compridão e cavanhaque de metaleiro, mais parece
o "irmão mais velho do Creed"). Não é
tão completo (nem tão caro) quanto o duplo anterior lançado
no Brasil ano passado, tirada de uma apresentação de 1998,
mas cumpre bem a função de meio-termo. Melhor vê-lo
com um DVD simples com extras o suficiente para valer mais um disquinho
(conte aí documentários, videoclipes e faixas extras,
o que não é pouca coisa). Por conter basicamente material
da fase 87-93, Devotional não vai tão fundo no
passado quanto o ao vivo 101, nem dedica muito espaço às
canções meia-boca de discos como Ultra.
E se formos pensar em refrãos,
temos alguns dos bons aqui. Não só
refrãos, mas as estranhas melodias de Martin L. Gore que, ao
mesmo que soam meio tétricas para as pistas, não comprometem
o saculejo das moçoilas. Quer melodia mais tristonha do que "Everything
Counts"? Mesmo assim, a turba se esbaldeia com a última
canção do show, que tem como extras alguns hits do disco
Violator, como "Policy Of Truth" e "Halo".
O show em si não tem nada de muito extraordinário, mas
pega pela voz ainda em forma de Dave Gahan, pelo cenário estiloso
e pelo set-list bem equilibrado, do qual se destaca a primorosa "Behind
The Wheel" que, fosse feita nos anos 90 por alguns novatos, seria
alçada a condições que nem o Depeche Mode desfruta
hoje.
Como extras, vários clipes do álbum
Songs Of Faith And Devotion, um documentário com o quarteto
e um "monólogo" com o diretor Anton Corbjin. Não
estamos nos anos 80, tampouco o Depeche Mode caiu no revivalismo comum
a seus contemporâneos. Assim dá até pra pagar de
sabido com menininhas technêras dizendo que "tem uma banda
dasantigas, o Depeche Mode, bla bla bla...". Isso, claro, se o
volume do som deixar que você fale alguma coisa.
Fabrício
Rodrigues
Cotação:




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