Má Educação

Ambíguo é o seu passado
(La Mala Educación). Espanha, 2004. Direção de Pedro Almodóvar. Gael García Bernal, Fele Martínez, Daniel Gimenéz Cacho, Lluís Homar, Javer Camara. 105 min.


Da chamada “fase adulta” de Almodóvar, Má Educação marca por ser o mais ambíguo de todos. Não se equipara aos dois últimos (Tudo Sobre Minha Mãe e Fale Com Ela), enquanto retoma um pouco do clima de thriller policial de Carne Trêmula e encerra a seqüência de filmes centrados em personagens femininas. Aí entra a ambigüidade em questão. São pelo menos cinco personagens-chave que compõem a trama de Má Educação – todos gays, ou com um pezinho lá. E a partir das relações “delicadas” (ui!) que se constroem entre estes personagens que Almodóvar vai entrelaçando um de seus roteiros mais interessantes. Ele vai tramando uma história sob diferentes pontos de vista e de forma não linear, mas o que era intrigante (e ao mesmo tempo escabroso) se perde ao cair numa armadilha comum em filmes de investigação, quando tudo se explica.

Num de seus primeiros longas, Maus Hábitos (83), Almodóvar escancarava com a rotina de freiras sacrílegas e viciadas em heroína com nítida preocupação em chutar a canela da espanholada católica. Em Má Educação, ele foge do que seria mais óbvio e auto-referente e não perde muito tempo mostrando o relacionamento de Ignácio (Gael Garcia Bernal) e Enrique (Fele Martinez) quando eram crianças num colégio interno católico. O filme começa com os dois adultos, na Madrid de 1980, após vinte anos sem se ver. Enrique é um diretor de cinema que recorta notícias bizarras dos jornais como forma de tentar quebrar sua “crise criativa”. Ignácio é um ator que chega para Enrique com um conto chamado “A Visita”, baseado nos tempos de colégio. Nesse conto estão todas as velhas lembranças, inclusive do carrasco de ambos, o pedófilo padre Manolo. Disso surgem as ambigüidades do filme e as coisas passam a ser diferentes. Os dilemas e o sofrimento de ambos na infância aparecem no decorrer do filme, como complemento do mote principal - a relação adulta de Enrique e Ignácio afetada pelos padres do internato.

Com muita sutileza, Almodóvar embaralha a realidade com os acontecimentos do conto escrito por Ignácio. E quando Enrique decide filmá-lo, a brincadeira de metalinguagem se completa – como os personagens que eram apenas atores encenando o roteiro. Estes detalhes estão entre as melhores sacadas de Almodóvar, mas quando todo o suspense se esclarece, não dá pra fugir de uma conclusão anti-climática e previsível. O filme só não é sutil nas cenas de sexo – detalhe apavorante, nenhuma delas contracenada com mulheres.

Não dá pra tirar o brilho do elenco (o ótimo Javier Câmara, o enfermeiro de Fale com Ela poderia ter um papel mais destacado, mas Gael García Bernal se sobressai com muito mais expressão do que Antonio Banderas nos primeiros longas do diretor) tampouco do roteiro, mas desta vez Almodóvar ficou no meio termo entre o ataque à Igreja Católica, o conflito de gênero e de identidade dos personagens e um certo suspense que se cria na seqüência final. Pelo menos, não se corre o risco de ver Caê na telona de novo.

Fabrício Rodrigues

Cotação:

Ronaldinho Gaúcho
Ronaldo Bôscoli
Lobão e os Ronaldos
Ronaldo e os Impedidos
Ronaldo McDonald