Marcelo Nova & Camisa de Vênus - 05/11 - Curitiba Center Art
Bailinho
cheio de más intenções
Marceleza
e camaradas tascam o pé na tal "linha evolutiva da música
brasileira"




Deve
ser cada mais difícil pra Marcelo Nova viver nesse mundo. Pra
ele e pra qualquer pessoa que não enquadra muito nesse esquema
new-age de homens que fazem lipoaspiração aos
trinta anos e das bandinhas furrecas que pagam pau mutuamente para garantir
o capilé do mês, entre outros abusos que doem mais no fígado
do que qualquer garrafa de conhaque Presidente. Ainda mais tendo uma
filha trabalhando pro esquemão (conta pra pagar não escolhe
empregador, vá lá) e que namora um sujeito que é
a antítese do pai (imagine André Matos, o homem Shaman,
tentando convencer o sogrão a ouvir Kate Bush ou A-Ha).
É por isso que Marcelo Nova segue
firme no palco, mais firme até do que neguinho pode imaginar,
e conduz um show de rock como ninguém da geração
dele. Aliás, que geração? Aos 53, Marceleza está
no meio termo entre os “cânones baianos” e os Lulu
Santos/Lobão da vida. As duas gerações, pra variar,
foram alvo de chacota durante o show. “Nós somos uma banda
de bolero. Se vocês quiserem rock, vão pedir pro Lulu Santos
e pro Skank. Eles é que tocam rock”.
Passadas as duas horas de enrolação
(traduzidas na barulhenta apresentação de uma banda cover
do AC/DC e de outra que deixei a ignorância vencer e não
perguntei o nome), Marceleza subiu ao palco com seu trio – o velho
amigo Lú Stoppa no baixo, o jovem guitarrista Márcio Guedes
e o baterista estepe Daniel Lacerda, que deu conta do recado depois
do batera original ter passado mal na véspera – chamado,
ora pois, “Camisa de Vênus”. Venham os puristas com
“cadê o Karl, o Gustavo, o Robério?” e sua
razão, mas isso é irrelevante. Dez pilas e um quilo de
alimento pra doação tão muito bem pagos pra uma
noite de rock, sendo que no estado de cima a galerinha tinha Kraftwerk,
PJ Harvey e Brian Wilson à disposição para o final
de semana. Ou você acha que um Libertines a oitenta mangos era
melhor negócio?
Então, Marceleza chegou com o diabo
nas cordas em “Coração Satânico” e sem
fazer o público esperar muito, emendou “Só o Fim”
(a “Gimme Shelter” da ocasião), “Bete Morreu”
(culminando numa roda de pogo que não via há um bom tempo),
“Cocaína” e uma versão eletrizante pra “Quando
Eu Morri”. “Podemos começar o show?”, pergunta
o sr. Costeletas pela primeira vez em muitas na noite. Pra recomeçar
sempre com mais pique. Um show de Marcelo Nova é lugar pródigo
pra engraçadinho berrar “Toca Raul” e, como poucos
no Brasil podem fazer, o cara vai lá e toca duas de sua parceria
com o Maluco, “Rock And Roll” e “Carpinteiro do Universo”,
numa levada mais torta, mas que rapidamente cai na voz da rapaziada.
É a primeira vez de Marceleza no
Paraná em sete anos. Daquele tempo pra cá, alguns dos
presentes perderam a virgindade e os dentes de leite, mas nem por isso
deixavam de saber as letras do tiozinho roqueiro. E ele sabia que alguns
deles não eram tão lobotomizados como se pode crer, pois
preferiram o Camisa aos Detonautas (que tocavam na mesma noite numa
outra bodega), cantando “bo-ta pra fu-dê” sem ostentar
mini-garrafas da Coca-Cola nos pulsos. Essas e outras valeram a noite,
como atestaram também as versões de “O Adventista”
(com os versos instantâneos: “eu acredito que agora fudeu
/ eu acredito em Lula e Zé Dirceu”), “Pastor João
e a Igreja Invisível” e o longo biz, certamente o ponto
alto do show. Se era pra rolar só a programação
básica, ela foi muito além, de “Simca Chambord”
a “Sílvia” e “Eu Não Matei Joana D’Arc”
passando de meia-hora, entre medleys de Elvis, Carl Perkins, Eddie Cochran
e mais uns tantos que a memória nem busca mais.
No geral, foi um grande bailinho anos
50 cheio de más intenções. A principal delas -
lembrar o povo de que o rock é feio, velho e catarrento, mas
diverte. Até porque no dia seguinte, a “linha evolutiva
da música brasileira” trataria de acabar com tudo isso,
naquele mesmo palco, durante o show de Chico César.
Fabrício Rodrigues
Cotação:




Simca Chambord



Fusca


Variant

Chevetão
Lada Laika