Diários de Motocicleta
Mito no casulo
(Diarios
de Motocicleta). Argentina/Brasil/Chile/Peru/EUA, 2004. Direção
de Walter Salles. Com Gael García Bernal, Rodrigo de la Serna,
Mía Maestro. 126 min.




Existem
escritores habilidosos, que com, digamos, truques literários
se alçam entre os mais mais da literatura. Mas há aqueles
que, sem truque algum, fazem desaparecer um navio e de repente tiram-no
da orelha. É mágica. No cinema, há os mesmos dois
tipos. Em Diários de Motocicleta, Walter Salles não
tira um navio da orelha, mas, pelo menos, uma moeda, tenho que admitir.
Continua sendo mágica - uma pequena mágica - fazer um
filme sem grandes clímax (pl. conferido), truques publicitários
(por vezes, até louváveis) ou vernizes modernosos.
Sem tirar os méritos do diretor,
boa parte da mágica se deve ao personagem que, se não
era o grande revolucionário, era um mito no casulo. Na escolha
do tema - em que alguns podem achar injustamente que há oportunismo
- é que está um grande mérito de Salles. Quando
se escolhe fazer um road movie, não há espaço para
malabarismos, já que possíveis delírios de um diretor
espalhafatoso (mesmo que fosse genial) poderiam diluir a aura fundamental
do gênero: a honestidade e a simplicidade. Quando um personagem
põe o pé na estrada, ele procura algo e, conseqüentemente,
acredita intransitivamente. O viajante,
seja
Kerouac, em On The Road, Henry Milller, em sua obra, ou o pequeno
príncipe, todos eles procuram desesperadamente por algo mais
que o fim dessa ou daquela rodovia. Há um quê de ingenuidade
nisso tudo. Afinal, os cínicos não estão atrás
desse tipo de beatitude, assim como há um tipo de cinema que
não procura nada e não é pior por esse motivo.
Essa busca, no filme, é algo muito
sutil. Pequenos avanços que escondem uma tempestade de escolhas
nos jovens Ernesto Guevara de la Serna (Gael García Bernal) e
Alberto Granado (Rodrigo de la Serna). Nota-se isso pelo resultado da
jornada em comum: as mesmas estradas levaram Guevara e Granado a destinos
diferentes. Essa sub-trama que se desenrola de modo quase imperceptível
só vem à tona na cena em que Guevara atravessa o Rio Amazonas
a nado, para comemorar seu aniversário de 24 anos ao lado dos
leprosos - separados dos funcionários, na Colônia em que
os dois rapazes trabalhavam voluntariamente. Aí surge o mito,
mesmo
que mergulhado em incertezas, enquanto Granado escolhe um emprego seguro,
como se a viagem pelo continente fosse uma espécie de despedida
para a vida segura e comum que leva até hoje em Cuba.
A América Latina é pano
de fundo para isso tudo. Mas não passa mesmo de um pano de fundo.
A pobreza com que o espectador se depara é a mesma que lhe saltaria
os olhos em vários outros lugares do mundo. Não há
regionalismos, apesar da bela fotografia dos Andes ou da pobreza dos
mineiros da Bolívia. Mais que de Che Guevara, da pobreza ou de
latinidade, fala-se em Diários... do poder transformador
da juventude, de esperança - valores muitas vezes esquecidos,
tanto neste começo de milênio, quanto na época em
que o jovem Che acelerava a "La Poderosa" pelas poeirentas
estradas do continente.
Artur
Rodrigues
Cotações:




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Guevara



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