Josh
Rouse - 1972
Luz
para acabar a sombra
Strokes? White Stripes?
Não, o disco de 2003 é 1972





É
uma pena, mas o disco do ano em 2003 não foi lançado no
Brasil, nem dá pinta que vá chegar às lojas daqui
tão cedo. 1972, de Josh Rouse, traz de volta elementos
do glorioso ano para a música americana que foi... 1972. What's
Going On, de Marvin Gaye, Tapestry, de Carole King, e Harvest,
de Neil Young, saíram todos naquele ano em que as ilusões
do Vietnã acabaram e o folk e a música negra alcançaram
novos patamares de qualidade e engajamento político.
Todos esses clássicos e mais alguns
serviram de inspiração para as dez preciosidades que Rouse
reuniu em seu quarto álbum. 1972 é o ano que o cantor
americano nasceu e seu grande mérito, além de ter construído
canções pop que orgulhariam os mestres da Motown, foi
conseguir fazê-las com um "clima anos 70" (com direito
a flautinhas, sax e tudo mais) sem soarem como cópias ou meras
imitações datadas. A faixa James, por exemplo, à
primeira audição soa puro Santana dos bons tempos. Mais
uma ouvida e lembra-se de algumas Marvin Gaye. Na terceira passada,
percebe-se que tem um pouco de tudo isso, mas a letra sobre um conquistador
barato que deixou mulher e filho e agora circula pelos botecos da vida
definitivamente tem personalidade. Linhas como aquela na qual o fictício
James se define como "uma desculpa pobre para o que alguns chamam
de homem" teria pouca chance de entrar num disco dos medalhões
anteriormente citados.
A começar pela capa, 1972
é um disco solar, com músicas que exaltam o "sentir-se
bem" sem culpa. Mas também é um falso isso. É
um álbum de alguém que tem tendência à melancolia
e faz algumas músicas para se sentir bem. Para cada alegre e
ripongo "Spread the love vibration/ Spread the love vibration"
(Espalhe a vibração do amor) pode-se encontrar na próxima
esquina um "Now everybody's scared / Scared of being lonely and
abandoned" (Agora todo mundo está com medo de ficar sozinho
e abandonado). Para cada "Step out into the sun" (Saia para
o sol) pode-se encontrar pela frente um "Until we find a way out
of this hole" (Até encontrarmos uma saída deste buraco)
.
Sunshine (a segunda música de Rouse
com esse título) deve ser a oitava milionésima música
do pop-rock americano a falar em largar tudo e se mandar numa van para
a Califórnia. Para quem viu o filme A Estranha Família
de Igby, ela casaria perfeitamente com aquele final em que ele está
indo para a costa Oeste e os raios de sol batem em seu rosto. Recomeço
depois de um grande período de desilusão e merda.
A
linha de baixo de Come Back não vai sair da sua cabeça
tão cedo. Essa faixa entrega o jogo do disco de vez: cheia de
groove, fala de uma temporada na Noruega em que a escassez de luz do
Sol baixa os níveis de serotonina e a lentidão da depressão
só é superada pela vontade de ver o verão chegar.
Under Your Charms é outra inspirada em Marvin Gaye, só
que na fase das músicas de coito. O mais engraçado é
pensar que Josh Rouse, um caipira branco morador de Nashville, a meca
do country (valei-me, Homem Chavão), sempre foi associado a artistas
como Wilco, Ryan Adams e britânicos como Cure e Smiths. Em 1972,
alt.country é inspiração menor, o forte mesmo é
o folk "de raiz" e a música negra pré-hip hop.
Alguém pensou em Lambchop?
Talvez o digníssimo leitor ache
que esta resenha já está meio grande para falar de um
disquinho de um cara que ninguém conhece e, além do mais,
nem deve sair no Brasil. Mas calma, estamos falando do disco do ano
e ainda restam três motivos fortíssimos para a conquista
do título. Flight Attendant narra de modo bem-humorado a história
de um comissário de bordo gay, das surras que ganhava na escola
até o medo de ficar pelo "cinturão bíblico"
do Meio Oeste dos EUA.
Em Sparrows Over Birmingham entra uma
experimentação com coro gospel e a voz do fundo da alma
do bluesman James Nixon, um cara que podia cantar ópera (e o
fez, durante uma época da vida). No DVD-bônus que acompanha
o CD, a interpretação dessa música faz a entrevistadora
de Rouse numa rádio cair em prantos.
As inspirações vindas dos
anos 80 na Inglaterra voltam em Rise, música mais próxima
do rock, com letra que não envergonharia Morrissey. É
uma canção que mereceria destaque em qualquer um dos discos
anteriores de Josh Rouse. Ainda bem que existe o Soulseek e com ele
não é difícil achar esse disco em MP3. Mas para
quem está disposto a gastar uma grana num disco importado o DVD-bônus
já valeria por um só motivo: a execução
completa de Michigan, uma canção em forma epistolar que
só havia saído num velho EP limitado em 750 cópias.
Quem sabe um dia ela seja lançada junto com Famous Blue Raincoat,
de Leonard Cohen, numa coletânea das mais belas cartas tristes
em forma de música.
Giuliano Ventura
Cotações:




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Emerson Fittipaldi


Michael Schumacher

Nigel Mansell
Satoro Nakajima