Zap
Comix
Viagem
ao centro da Terra
Coletânea documenta o
(verdadeiro) início do movimento underground





Qualquer
um que tenha contato próximo com a cultura punk já deve
ter participado de discussões sobre qual é o marco zero
do movimento. Se vocês não estiverem fartos desse tipo
de especulação, jogo aqui minha versão dos fatos.
Não, não foi na metade dos anos 70 que tudo começou,
mas quase dez anos antes, em 1967. O local não foi nem a cena
de Londres, nem a de Nova Iorque, foram as esquinas de San Francisco,
na Califórnia. A obra inaugural tampouco foi um disco dos Ramones
ou dos Pistols, foi o primeiro número da Zap Comix, revistinha
underground que finalmente ganha uma antologia decente no Brasil. Lançada
pela Conrad Editora com tradução de Alexandre Matias (do
Trabalho
Sujo, site também abrigado no Gardenal.org), os brasileiros
passam a ter à mão um álbum reunindo as melhores
histórias em quadrinhos que saíram nas 14 edições
que foram lançadas até 1998.
Sim, quadrinhos, uma das mais acessíveis
mídias que existem, tanto para se produzir, quanto para se consumir.
Essa foi a matéria-prima da publicação artesanal
que, entre choro e ranger de dentes, deu uma ajuda fundamental para
mudar o mundo que existia até aquela época (leiam a matéria
sobre Quadrinhos e Política). Esse
meio tão desprezado por intelectuais era um dos únicos,
ao lado da música é bem verdade, a dar liberdade para
seus criadores fazerem algo completamente novo. Mas
de nada serviria toda essa liberdade potencial se não surgisse
um grupo de pessoas dispostas a seguir uma direção diferente
dos bichinhos fofinhos de um merdalhão como Walt Disney, ou dos
cansativos super-heróis da DC. Por uma série de fatores,
San Francisco de meados dos anos 60 reunia em suas ruas um bando de
párias com talento, desespero e culhões (escolha a ordem)
suficientes para tocar a Zap Comix pra frente. A formação
da banda é a seguinte:
Robert
Crumb - Se alguém merece ser chamado de precursor do movimento,
essa pessoa - por mais que ele próprio deteste a idéia
- é Crumb. Nascido na Filadélfia, o cartunista tinha acabado
de chegar a San Francisco, aos 23 anos, naquele fatídico ano
de 1967, com a mulher grávida. Ele já havia publicado
algumas histórias em revistas de outros editores, como a Help,
de Harvey Kurtzman, célebre criador da Mad, mas até
então não tinha tido a chance de tomas as decisões
sozinho. Agarrou a primeira chance de editar ele mesmo uma revista e,
depois de impresso, passou a vender o número 1 da Zap
pelas ruas da cidade, ao lado da mulher, carregando os exemplares em
um carrinho de bebê. Crumb fez totalmente sozinho as primeiras
duas edições da revista.
S. Clay Wilson - Foi o primeiro
a conhecer Crumb e a colaborar na revista. Chegou a estudar belas-artes
em Nebraska, teve uma passagem por Nova Iorque e estava entupido de
LSD quando foi descoberto por um poeta de San Francisco que também
andava por aqueles lados. Foi parar na Califórnia exatamente
quando estavam rodando os primeiros números da Zap. "Eu
mostrei minhas coisas ao Crumb ele achou legal, eu gostei das coisas
dele, nós fumamos um e começamos a desenhar e blablablá",
detalhou o desenhista, especialistas em imagens de ultra-violência,
a respeito de tal evento histórico.
Rick
Griffin e Victor Moscoso - Esses dois já eram bem conhecidos
do submundo cultural de San Francisco quando passaram a colaborar com
a Zap Comix. Griffin era um surfista californiano e Moscoso um
artista plástico espanhol que já morava na cidade desde
1959. Ambos eram astros dos cartazes psicodélicos, criadores
do estilo que é chupado até hoje quando se pensa em motivos
de surf ou em desenhos simulando viagens lisérgicas. Griffin,
que é o criador do logo da revista Rolling Stone, foi
também a primeira baixa da história dos zapsters. O cara,
que já havia se convertido ao cristianismo na década de
70, morreu em um acidente de moto em 1991.
Spain Rodriguez - O membro latino
daquela publicação subversiva fez parte da segunda leva
de colaboradores, os que entraram a partir da quarta edição.
Spain tem o histórico mais barra-pesada, conviveu com gangues
na juventude. Politizado, foi colaborador de jornais marxistas e, mais
tarde, de outros francamente anarquistas. Um ano antes da Zap
o cara chegou a montar sua própria revistas de quadrinhos, Zodiac
Mindward. Assim como Wilson era adepto dos desenhos de violência
extrema e foi o criador da sátira super-heroística "Trashman,
o Homem da Sexta Internacional".
Gilbert Shelton - O texano, ao
lado de Crumb, foi o único que conseguiu algum destaque no Brasil
antes de sair essa antologia da Zap. Seu trabalho com os "Fabulosos
Freak Brothers" saiu por aqui, ainda que de modo irregular, por
editoras como a L&PM. Outro de seus personagens, também tiração
de sarro com super-heoís, o Javali Maravilha, já fazia
sucesso antes mesmo de ser publicado na Zap. Atualmente, aos
63 anos, continua produzindo lá na França.
Robert Willians - Foi o último
a integrar a formação clássica dos zapsters. Nascido
no Novo México, Willians estava na Califórnia, mais especificamente
em Los Angeles, desde 1963. Seu interesse era a indústria de
carros personalizados com pinturas bizarras. Logo que conseguiu um emprego
na área, passou a fazer desenhos que saíam impressos em
bonés e camisetas e a ilustrar gibis-anúncios que o fizeram
se aproximar de Crumb e do resto dos figuras.
Paul Mavridos - Retardatário
e pé-frio, esse cartunista com idade pra ser filho do restante
da cambada foi convidado a entrar para o time na edição
número 14, a que saiu em 1998. Apesar de anunciarem que uma nova
revista está sendo produzida pra sair no ano que vem, a edição
de estréia de Mavridos vai ficar famosa mesmo como sendo o último
número no qual Crumb trabalhou (ele já se dizia de saco
cheio daquilo tudo há tempos). Em sua participação,
o novato contou em forma de HQ a sua versão da briga entre o
fundador da Zap e o Moscoso, que pôs fim a uma amizade
de mais de 35 anos (publicada na coletânea brasileira, essa história
faz uma referência ao famoso quadrinho em que Crumb matou seu
personagem mais famoso, Fritz, The Cat, justamente por ele ter ficado
famoso demais).
Um apanhado do que esse grupo tão representativo
das culturas subterrâneas da América fez quando começou a trabalhar
junto pode ser conferido no álbum da Conrad, com histórias reunidas
especialmente para a edição brasileira. É verdade que muito material
clássico ficou de fora (talvez, com alguma sorte, novas edições venham
por aí) e que, devido às cópias feitas por inúmeros imitadores, parte
do material fique com cara de datado (especialmente a parte lisérgica
de Griffin e Moscoso). Mas essa é uma oportunidade histórica dos brasileiros
conferirem, pela primeira vez com a qualidade merecida, o trabalho desses
sujeitos que mudaram o mundo em um tempo que nem sequer havia uma palavra
para definir o que estavam fazendo... Quando aquele grupo ainda era
um bando de moleques, a moda entre os revoltados eram os Beats, mas
a geração de Kerouac nunca chegou perto do nível de ultraje dos caras
da Zap. Quando começaram a sair os primeiros números da revista,
era inevitável comparar o material com os hippies, mas o tempo se encarregou
de mostrar como isso não era verdade. Menos mal que John Holmstron e
Legs McNeil nunca negaram a inspiração fundamental da Zap Comix
quando lançaram o zine que acabou batizando a onda seguinte. Um certo
zine chamado Punk!.
Romeu Martins
Cotações:




Ana Lima



Luciana Vendramini (aos 16)


Xuxa

Fogueteira
Hortência