O Homem que Morreu Três Vezes - Fernando Molica
As
mortes do Chacal
Livro conta a história
de uma caçada que durou cinco anos



"Já
que é de caçadas que estamos falando, por que não
Chacal?". Foi dessa forma que o protagonista do primeiro romance
do escritor inglês Frederick
Forsyth escolheu o nome código pelo qual ele passaria a ser
conhecido. Na verdade, foi em 1975, cinco anos depois de ser lançado,
que O Dia do Chacal ganhou status de verdadeiro arrasa quarteirão:
um exemplar foi encontrado em um certo apartamento de Londres que servia
de esconderijo para o armamento do venezuelano Illich Ramírez
Sánchez, o mais perseguido terrorista dos anos 70 e 80. Livro,
autor e personagem ganharam fama mundial e o terrorista passou a ter
uma nova alcunha grudada no nome falso que já escondia sua identidade,
Carlos, o Chacal. Agora em 2003, um novo livro acrescentou um terceiro
personagem à lista daqueles homens que podem trocar o nome de
batismo pela identidade do animal traiçoeiro. O livro é
O Homem que Morreu Três Vezes - Uma Reportagem Sobre o "Chacal
Brasileiro" e o personagem é o gaúcho Antonio
Expedito Carvalho Perera, ou simplesmente Antonio Carvalho Perera, ou
ainda Paulo Antônio Blanco Parra. No final da leitura, é
possível perceber que, sofisticado e mulherengo, a versão
brasileira é mais próxima do pragmático e fictício
Chacal britânico que o dogmático e revolucionário
venezuelano.
Fernando Molica, o autor do livro recém-lançado
pela editora Record, é repórter do Fantástico
há seis anos, e a maior parte desse tempo esteve envolvido na
caçada à história verdadeira desse gaúcho
misterioso e de suas várias identidades. Tanto que antes mesmo
de escrever o livro, o seu segundo, Molica já havia dado 15 minutos
de fama à sua presa. Para ser exato, 14 minutos: foram oito em
uma reportagem que foi ao ar no dia 12 de dezembro de 1999 e outros
seis em uma segunda matéria do dia 19 de maio de 2002, ambas
pelo dominical da Globo. Em um mundo perfeito, o livro seria acompanhado
de um CD, ou pelo menos VHS, com tais matérias. Mas como isso
extrapolaria o preço da obra para bem além dos R$ 38 que
já estão sendo cobrados, a solução foi trazer
um anexo com os textos e outro com algumas fotos do material televisivo.
O envolvimento do jornalista com seu personagem
começo mesmo em fevereiro de 1998, durante a preparação
de uma outra reportagem, essa sobre prisioneiros políticos libertados
pela ditadura brasileira em troca do resgate do embaixador suíço
no Brasil (o último dos diplomatas seqüestrados pela guerrilha
nacional). Aquela operação aconteceu em 13 de janeiro
de 1971 e na época o protagonista do livro já havia morrido
uma vez, estava prestes a começar a parte internacional de suas
três vidas.
Segundo a divisão que o autor fez
em seu livro, podemos resumir a trajetória do Chacal Brasileiro
em três fases:
A primeira delas diz respeito a
Antonio Expedito Carvalho Perera , o advogado que nasceu na cidade gaúcha
de Itaqui, em 1931 e morreu em Porto Alegre em 1964. Anti-comunista
e católico ortodoxo, ele não perdia oportunidades de demonstrar
suas crenças, seja apedrejando o líder esquerdista Luís
Carlos Prestes, escrevendo artigos para jornais defendendo o uso da
tortura contra marxistas ou até planejando a morte de Leonel
Brizola. Esse é um resumo da vida daquele advogado conservador,
a morte aconteceu quando ele tentou aplicar um golpe traiçoeiro
contra seus ex-sócios em um escritório de advocacia. Expedito,
como ele era conhecido no Rio Grande do Sul, preparou um dossiê
acusando os colegas de serem comunistas para aproveitar o momento da
recém-instalada ditadura militar e ganhar prestígio. Só
que os dedurados foram mais rápidos e apresentaram provas de
uma maracutaia envolvendo o antigo sócio. Dessa forma, Expedito
caiu em desgraça nos primeiros meses de uma ditadura que ele
estava disposto a ajudar.
A
segunda vida começou em São Paulo, naquele mesmo ano
de 1964, e foi terminar na Europa, em1975. Para fugir das acusações
de corrupção, o advogado abandonou o Expedito do nome,
passando a assinar apenas como Antonio Carvalho Perera, diferença
sutil, mas funcional. Passou também a ter contato com o extremo
oposto da ideologia que marcou a primeira vida, prestando serviços
profissionais a membros da organização clandestina VPR,
hospedando em seu apartamento paulistano líderes revolucionários,
como Carlos Lamarca, e planejando a morte do ministro Delfim Netto.
Se no Rio Grande do sul Expedito tentou dedurar seus conhecidos, em
São Paulo Perera suportou a tortura sem delatar nenhum de seus
novos amigos, assim que a polícia descobriu suas atividades subversivas.
A decisão garantiu a confiança da VPR (que desconhecia
seu passado direitista) a tal ponto de ser incluído na lista
de libertação de presos políticos de 1971, e de
ser enviado como relações públicas da organização
a países da Europa e da África, onde conheceu Sánchez.
A parte mais agitada da vida desse personagem chegou ao fim durante
o mesmo evento que deu fama aos dois outros Chacais da história.
Em 27 de junho de 1975, Sánchez foi surpreendido em um apartamento
de Paris e para fugir matou três pessoas. A partir dali, começou
uma perseguição internacional que levou à batida
no covil londrino, à descoberta do livro de Forsyth e à
decisão do brasileiro mudar de vida novamente.
A terceira (e, até agora,
última) morte do protagonista de O Homem que Morreu Três
Vezes aconteceu na Itália, por onde ele andou com o nome
falso de Paulo Antônio Blanco Parra, entre 1975 e 1996. Nessa
encarnação ele se apresentava como sendo um psicólogo
especializado nas fictícias disciplinas de magnetologia e psicocibernética.
Para reconstituir esse derradeiro movimento de sua presa, Fernando Molica
contou com a ajuda fundamental de Teresa Cristina Perera, a filha que
Expedito teve ainda nos tempos de Porto Alegre, e da Globo, que bancou
uma viagem até Milão. Já que sobre a alcunha de
Parra o Chacal brasileiro teve sua vida menos agitada, o grande trunfo
dessa parte do livro é ter desvendado sua última morte:
no lugar de um fim tão espalhafatoso quanto o restante de sua
biografia, o ex-advogado direitista e ex-militante de esquerda, acabou
morrendo na cama, doente.
Como um todo, O Homem que Morreu Três
Vezes tem trunfos ainda maiores. O que chama mais a atenção
é a entrevista que Molica conseguiu realizar com o Chacal venezuelano,
via fax e com a ajuda da advogada e atual esposa de Sánchez.
Capturado no Sudão em 1994, o mais temido terrorista de sua época
cumpre prisão perpétua na França e aceitou responder
um questionário com nove perguntas enviadas pelo jornalista.
Parte do material foi utilizada naquela primeira matéria do Fantástico,
mas só agora a íntegra é publicada. Outro curinga
do livro está no formato que o autor escolheu para escrevê-lo.
Ao longo da história de Expedito/Perera/Parra, Molica, que é
diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo,
descreve em forma de making of o percurso seguido para conseguir tais
informações. Das pesquisas em documentos históricos,
ao contato com os entrevistados, passando por um absurdo golpe de sorte
do jornalista, toda a história paralela vai destacada em itálico.
A iniciativa acaba tornando o livro obrigatório tanto para estudantes
de Jornalismo quanto para qualquer um interessado em saber como se faz
reportagens investigavas sérias.
O livro também tem seus pontos
negativos. Em vários trechos não fica claro o critério
adotado para destacar o que é making of do que é a história
principal. Apesar de trazer em detalhes os bastidores da reportagem
e até de serem narradas em primeira pessoa, muitas partes não
receberam grifo, o que causa certa confusão de estilo. Isso fica
mais evidente no último capítulo, que também é
prejudicada por um excesso de detalhes que não acrescentam muito
à história. Provavelmente tais detalhes deverão
ser revistos em futuras edições da obra. Mas algo que
pode causar desapontamento entre alguns leitores é o relato da
fase internacional da vida de Perera. O envolvimento com Sánchez
não fica muito definido, os relatos dos documentos e entrevistas
levantam mais dúvidas que esclarecimentos. Deve-se levar em conta
que, tanto no subtítulo quanto na introdução do
livro, o autor sempre afirmou que estava realizando uma reportagem,
e não a biografia definitiva desse gaúcho de Itaqui. Usando
horas de folga e boa parte de suas férias para se dedicar a essa
caçada, Molica não contou com os recursos necessários
para ir a campo pessoalmente em cada um dos cerca de dez países
em três continentes por onde Expedito/Perera/Parra marcou presença.
Talvez seja a chance de a vida desse personagem complexo ganhar uma
nova encarnação, já que teve sua cota na TV e em
livro. Talvez um documentário? Ou um filme?
Romeu Martins
"Acho
que nunca vou me livrar do personagem"
É
pro Marca Diabo: o repórter do Fantástico Fernado Molica
respondeu algumas perguntas do nosso site sobre seu novo livro (o primeiro,
o romance Notícias do Mirandão, foi lançado em
2002 também pela Record) e sobre o jornalismo investigativo praticado
no Brasil. Carioca e botafoguense, o jornalista de 42 anos ainda comemorava
a volta de seu time à primeira divisão ("Rapaz, arrisco
a dizer que foi uma vitória de todos nós. Botafogo e Palmeiras
fizeram o óbvio - caíram, reconquistaram a vaga no campo
-, mas fazer o óbvio no Brasil é quase sempre uma lição
de cidadania...") quando arranjou tempo para responder a nosso
e-mail. (RM)
Ao fim da Leitura de O Homem que Morreu
Três Vezes ficamos com a impressão de que a história
renderia ainda mais. Você diria que, depois de duas matérias
para TV e do livro, encerrou seu interesse pelo personagem ou que poderia
retornar ao tema, por exemplo, realizando um documentário, caso
houvesse a possibilidade?
O personagem é maior que o livro, tenho plena consciência
disso. Encerrei a apuração no momento em que considerei
satisfatórios os dados que dispunha. Creio ter conseguido contar,
de forma comprovada, as passagens mais relevantes da vida do Expedito
Perera. Isto não impede, porém, voltar ao tema. Creio
que nunca vou me livrar do personagem.
Além daquele contato estabelecido
com o Chacal venezuelano descrito no livro, você chegou a tentar
novas entrevistas com ele?
Por ocasião do 11 de Setembro, tentei uma entrevista com ele
para a TV. Mas sua advogada queria cobrar pela entrevista - e um valor
absurdo.
Suas atividades junto à Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) influenciaram no formato
que escolheu para o livro, com os dados do making of paralelos à
história principal?
Houve uma coincidência. O formato do livro já estava definido
antes mesmo da criação da Abraji. Como explico na apresentação
do livro, achei que episódios relacionados à apuração
mereceriam ser contados. Depois, já participando de reuniões
da Abraji, soube que existe, nos Estados Unidos, uma prática
de se contar os bastidores de uma reportagem, mesmo que isto não
seja feito em livro. O IRE (a Abraji deles) disponibiliza, em seu site,
uma série de relatos sobre isto.
Falando na Associação,
quais avanços você acredita que tal iniciativa trouxe aos
jornalistas participantes?
Em linhas gerais: acho que estamos procurando melhorar a qualidade do
Jornalismo. Queremos mais e melhores matérias, e temos que nos
instrumentalizar para isto.
Como diretor da Associação,
qual sua opinião a respeito do Jornalismo investigativo realizado
hoje no Brasil, em jornais, revistas e TV?
De um modo geral, a qualidade é muito boa, ainda que ainda existam
falhas relacionadas com a imprecisão de dados e com alguns juízos
apressados. Mas o Jornalismo de hoje é melhor do que o que era
feito há 20 anos, sem dúvida.
Como descrever o impacto que o assassinato
de Tim Lopes trouxe aos profissionais que, como você, dedicam-se
a essa atividade investigativa?
O
Tim, além de excelente profissional, era meu amigo. A dor maior
é pessoal, mas seu assassinato só nos estimula a fazer
um Jornalismo melhor e mais comprometido com a população
deste país. O Tim via o mundo do lado de quem apanha, não
do quem bate. Isto é um exemplo para todos nós.
Cotações:




Dr. Destino



Duende Verde


Coringa

Lex Luthor
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