Only the Strong Survive

Por onde andava a alma
Only The Strong Survive. EUA, 2002. Direção de D.A. Pennebaker e Chris Hedegus. Rufus Thomas, Sam Moore, Wilson Pickett, Isaac Hayes, Mary Wilson, Ann Peebles. 97 min.

"Memphis tem dois reis: Elvis Presley e Rufus Thomas. Mas Rufus veio antes e foi o primeiro cara a tocar Elvis numa rádio". O sujeito desinformado que, como eu, jamais tinha ouvido falar de Rufus Thomas e for pesquisar na internet a história do octogenário cantor provavelmente vai se chatear ao saber que o velhinho bateu as botas no final de 2001. O documentário, finalizado em 2002, não informa isso. E o faz de forma sábia, pois "se somente os fortes sobrevivem", Rufus não poderia ser dado como morto. Na película, todos foram imortalizados. Este foi o favor prestado pelos produtores e pelos diretores D.A. Pennebaker e sua esposa Chris Hegedus a algumas das maiores legendas da música negra americana.

Rufus Thomas em açãoWilson Pickett, Isaac Hayes, Sam Moore, Mary Wilson, Rufus Thomas e sua filha Carla Thomas, o grupo vocal The Chi-Lites, esses e outros nomes por aqui são lembrados mais por conexões ou referências ("o cara do Shaft", "a ex-cantora dos Supremes"); por lá não chegou a ser muito diferente nos últimos anos. Sam Moore, por exemplo, fazia parte da dupla Sam & Dave, mina de ouro da gravadora Stax em meados dos anos 60. A parceria se desfez, Dave morreu anos depois e Sam acabou pelas esquinas de Nova York vendendo pó e heroína. Mary Wilson celebrizou-se como uma das três vozes das Supremes. Até que Florence Ballard morreu e Diana Ross partiu para uma polpuda carreira solo. Ficou por aí, mas sendo sempre "a ex-Supreme". Isaac Hayes escreveu dezenas de hits gravados por outros artistas de soul, lançou discos fabulosos entre as décadas de 60 e 70, mas sua falência pessoal o obrigou a vender a propriedade de direitos autorais. Passou a usar o vozeirão grave para locuções publicitárias e dublagens (como a de Chef, em South Park).

Essas são apenas algumas histórias. As outras também passam pelos extremos de sucesso e esquecimento, pelo reconhecimento tardio da obra por outras gerações, mas sem tornar o assunto monótono ou piegas. Only The Strong Survive é um documentário solto, onde fala quem tem que falar e não há narrador para nos fazer derramar lágrimas. Por trás das câmeras tem um cara responsável por momentos históricos da música pop no cinema - a turnê de 1965 de Bob Dylan (Don't Look Back) e o último show de David Bowie como Ziggy Stardust também foram assinados por Pennebaker - e isso encurta argumentos.

O projeto que ele e Hedegus começaram a tocar lá por 1999 lembra o Buena Vista Social Club redescoberto por Ry Cooder e Wim Wenders, e tem mesmo algumas semelhanças, que esbarram no fato de enquanto os cubanos terem ficado durante décadas encobertos pelo embargo econômico, os soulmen vinham de uma mais representativas escolas musicais americanas para o resto do mundo. E acabaram sendo substituídos no decorrer dos anos por outras tendências, pela "invasão britânica", discotéque, Michael Jackson, MTV...

Levando em consideração que a "cena" soul americana é cheia de detalhes - a Motown criou seu padrão, a Stax, de Memphis, apostava na diversidade enquanto a turma de Chicago era mais independente - ver esse pessoal todo passando pela pindaíba e pela semi-obscuridade é algo realmente indigno. Por isso, os closes durante as apresentações de Sam Moore, Rufus Thomas e sua filha Carla, principalmente, são tão reveladores. Só falta Memphis tratar seus reis de forma igualitária.

Fabrício Rodrigues

 

Cotações:

Massacration
Slayer
Maiden
Helloween
Poison