Amarelo Manga

Sexo, estômago e coragem
Amarelo Manga. Brasil, 2003. Direção de Cláudio Assis. Leona Cavalli, Chico Diaz, Matheus Nachtergaele, Dira Paes, Jonas Bloch. 97 min.

Chico Diaz / Foto: DivulgaçãoPara os americanos, uma boa expressão a respeito de Amarelo Manga seria dizer que o filme tem "guts". No Brasil, a tradução seria "visceral". Para os nordestinos, é "bucho" mesmo. E isso faz toda a diferença. Neste que é o seu primeiro longa-metragem, o diretor pernambucano Cláudio Assis encarna (ou descarna) o ser humano a partir de seus desejos primais, do sexo à comida, da perversão ao perigo. Todos os envolvidos na trama estão mais próximos das necessidades animais que de qualquer pretensão em "ser" ou "parecer". Porque são todos uns fudidos na vida, que mal têm onde cair mortos e por isso não tentam renegar os instintos. Quem ainda tenta, logo vai aprender que esse é o jeito errado de se levar essa vida - o que se pode constatar em frases-chave do filme como "o ser humano é sexo e estômago" e "o pudor é a forma mais inteligente de perversão".

É o que acontece com os "habitantes" do pulguento Texas Hotel, como o cozinheiro Dunga (Matheus Nachtergaele) e o psicótico Isaac (Jonas Bloch, que em alguns momentos derrapa com alguma canastrice), a dona de boteco Lígia (Leona Cavalli), o açougueiro Wellington Kanibal (Chico Diaz, em uma de suas melhores atuações) e sua mulher Kika (Dira Paes). Para Lígia, que vive de aturar e servir bêbados, os dias são sempre a mesma merda e só quando a noite vem ela consegue seu descanso. E no intervalo de um dia, o mundo dos rotos muda significativamente, das cafajestagens de Wellington aos sonhos gays de Dunga, da perversão de Isaac ao fervor religioso de Kika. Os personagens não são mais importantes do que seus redutos, pois tanto o bar quanto o hotel-espelunca onde se amontoam os tipos mais perdidos retratam o comportamento dos que não aparecem em capa de revista nem em novela da Globo. A fotografia deixa o clima ainda mais pesado, ora sufocando nos contrates ora deixando tudo às claras (como na cena do matadouro). Já o título "amarelo manga" se refere à poesia do mal, ao decadente, à cor da hepatite, dos dentes sujos, das remelas.

Este é um daqueles filmes que poderiam servir para embasar teorias sobre o comportamento humano, coisa e tal, embora não se pretenda a isso. Assis afirmou que seu filme é calcado nos sentimentos que os personagens carregam, num universo bem definido, porém nada particular. A Recife que emoldura a ação não se limita à praia da Boa Viagem ou às suas favelas. Os longos travelings pelas avenidas da "Veneza brasileira" e pelo olhar de dezenas de anônimos são os momentos documentais que o diretor faz questão de incluir em seu filme.

A um custo de meros R$ 450 mil, Amarelo Manga teve trilha sonora encomendada para Jorge Du Peixe e Lúcio Maia - respectivamente vocalista e guitarrista da Nação Zumbi -, conta o trabalho de fotografia do renomado Walter Carvalho (Lavoura Arcaica, Central do Brasil, entre outros) e participações especiais do próprio diretor (trajando a camisa do "pior time do Brasil" Ibis) e do líder do mundo livre s.a., Fred 04, que entoa "Édipo, o homem que virou veículo" numa rodinha de samba. Em suma, é um filme corajoso e um tanto desagradável pela sua crueza e franqueza. Com certeza não deverá passar em futuros "Festivais Nacionais" - a reserva de mercado da Globo para produções brasileiras com atores de novela - mas Cláudio Assis não dá a mínima para isso. Como ele afirmou em entrevista para o site oficial do filme (www.olhosdecao.com.br/amarelomanga), "a gente não tem que fazer filme que só fale de folclore, maracatu, de boizinho e cangaço. Há outras coisas há serem ditas". Parece óbvio. Mas poucos são os que vão além disso.

Fabrício Rodrigues

 

Cotações:

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Maiden
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