Entrevista
com Fred 04
Militando na
contra-informação
Fred 04 fala
sobre Mombojó, Jorge Ben, vinis e Governo Lula
Dez
anos depois de tocar em Florianópolis pela primeira vez, o Mundo
Livre S/A voltou à cidade para sua segunda apresentação.
Nesse mesmo período, a banda de Recife lançou cinco discos,
se apresentou pelo Brasil e mundo afora, reativou o interesse por Jorge
Ben, influenciou uma pá de gente e está lançando
uma caixa com os quatro primeiros CDs e um DVD. Depois de um show lotadaço
em que todo mundo cantava junto todas as músicas (mesmo com o
som sofrível para quem estava na parte de trás do bar,
alô John Bull) Fred 04, letrista (dos melhores), guitarrista,
tocador de cavaquinho, líder do Mundo Livre e presidente do Conselho
de Cultura do Recife achou tempo pra essa conversa:
MD- O Mundo Livre já tem
um certo tempo de estrada. Vocês já conseguem perceber
a influência de vocês sobre outros artistas, como o Mombojó?
04- Lógico, lógico. Os caras
começaram como banda de garagem e tocavam covers da gente. E
hoje eu sou fã do Mombojó, acho uma banda do caralho,
olha a idade dos caras. Hoje começam a despontar no Brasil bandas
com membros muito jovens, na faixa dos 19, 20 anos sem ser aquelas coisas
repetitivas e aqueles clones que surgiam há algum tempo atrás,
são bandas de personalidade. E em outros lugares do Brasil também.
A gente tocou em Caxias (RS) e um cara veio trazer um disco de uma banda
de lá, Cabaré High Tech, e eles mesmo falaram "ó,
a gente tirava cover de vocês, é uma referência forte
(no som)". E a gente sabe que no interior de São Paulo,
Brasília, tem uma galera que curte. Basta ver o caso do Nação
Zumbi.
A primeira vez que a gente saiu pra fazer
turnê em São Paulo, ainda nem tinha disco gravado, saiu
o Mundo Livre e o Nação, a gente dava um rolê nas
lojas de instrumento, na Teodoro Sampaio e a gente via as percussões
que rolavam lá e tal, só aquela coisa mais convencional,
conga, um berimbauzinho aqui e ali. De alguns anos pra cá, é
muito louco, não tem uma loja de percussão em São
Paulo que não tenha alfaia (tambor) de maracatu, vai pra Brasília,
todo o lugar, as lojas estão vendendo percussão nordestina,
principalmente de maracatu e tal. É um sinal de que a galera
está realmente ouvindo, tem como referência mesmo. É
lógico que isso tem um lado meio perverso, já que acaba
rolando muita diluição, muito oportunismo e algumas coisas
meio equivocadas também. Mas reforça o lado de um troço
que não é mainstream, mas consegue exercer influência
mesmo assim e isso garante que possa haver mais diversidade na cena.
MD - E sobre fazer a cabeça
dos outros? Não sei se é uma impressão errada minha,
mas percebo que grande parte do revival do Jorge Ben foi porque muita
gente te ouviu dizer "A Tábua de Esmeralda é
foda pra caralho" e foi atrás.
04- Sim, já cheguei em points punk
em São Paulo e moleque adolescente, punk, chegar e dizer "velho,
quero que você me dê uns toques de discos do Jorge Ben pra
ouvir". Eu acho que não só a gente, mas várias
bandas por aí contribuíram para isso, acho saudável
isso. A banda foi formada numa época em que 90% das bandas de
rock brasileiras eram clones de bandas estrangeiras. E acho que foi
uma coisa deliberada nossa de começar a falar de Jorge Ben, que
aliás foi um mestre nisso, mostrar que dá pra tocar guitarra
sem
tentar imitar um guitar hero americano ou inglês. E que dá
pra fazer alguma coisa com caráter brasileiro sem soar regionalista.
Então a gente tenta reforçar esse preceito. O que a gente
sempre quis ressaltar e explicitar no conceito da banda era algo como
o universo do que o Jorge Ben fazia nos anos 70. Eu acho que teve uma
galera que foi muito na onda daquilo de "W/Brasil" e confundia
Jorge Ben com Tim Maia, achava que era tudo a mesma coisa, tinha aquela
galera meio oba-oba, arroz-de-festa, e o que eu mais salientava era
outra coisa. O nome do nosso primeiro disco remetia ao primeiro disco
do Jorge Ben. E era Jorge Ben mesmo, bem antes de ser Benjor. Não
que pra mim isso faça diferença. O cara tem uma obra sólida,
consistente e se de alguma forma a gente contribuiu pra lançar
uma luz sobre a importância que ele tem para a música brasileira,
eu já me dou por muito satisfeito. Pra mim, eu fui recompensado
com o presente que a gente ganhou dele, de gravar "Mexe-mexe"
com exclusividade, quando era inédita ainda.
MD-
Na outra
entrevista que você tinha dado ao Marca Diabo, você
disse que achava legal o Mombojó citar vocês como influência,
mas que isso não era de praxe o pessoal do Recife fazer isso,
que bandas da Bahia costumavam ser mais unidas. Como funciona isso?
04- A gente sempre teve uma coisa meio
oposta a Salvador, principalmente essa cena da Axé Music, que
era um troço meio oportunista. E aí eu não sei
se é uma coisa do caráter do Recife mesmo, um defeito
de fabricação, entre aspas, ou se tem alguma coisa a ver
com esse princípio da diversidade que a gente falava no manifesto.
O lance da gente ter pintado no mercado ao mesmo tempo, Nação
e Mundo Livre e com sons totalmente diferentes, o fato é que
todas as bandas que iam pintando lá, com raríssimas exceções
de um ou outro oportunista, a maioria sempre teve a ambição
de fazer alguma coisa original e não querer soar como ninguém
da cena. Isso é muito saudável, só que tem um lado
meio arrogante de não querer assumir influência de ninguém
dali. Então era aquilo de citar "minhas influências
são Cartola e Nelson Cavaquinho misturado com Chemical Brothers
e não sei o quê", assim como se não tivesse
nenhuma ligação com a cena de lá. O que eu acho
legal do Mombojó é que eles estão desencanados
com isso, só quem é de lá sabe o quanto tem um
simbolismo importante ouvir uma banda de lá dizendo que tem como
referência uma banda de lá. Isso é muito forte para
o que era a cultura anterior.
MD- Do mesmo jeito que muita gente
comparava vocês com a Tropicália com o pessoal do Alceu
Valença, há pouco tempo surgiu uma nova leva de artistas,
principalmente de Alagoas, como o Wado, que foram muito comparados com
o mangue beat e eles diziam que não era bem isso. Você
chegou a perceber o que é ser o alvo da comparação
equivocada?
04- Acho Wado do caralho. Eu deixei de
me preocupar há algum tempo com essas análises da crítica,
da imprensa. Porque da mesma forma que tem gente criteriosa, que vai
a fundo nas coisas, pesquisa e tem realmente base de conhecimento para
analisar, tem uma grande maioria, 90% do que sai é feito por
gente leviana, gente que gosta de se promover em cima de falsas polêmicas,
falsos atritos, isso é o que mais tem hoje em dia e eu acho nojento
da imprensa atual. O cara não tá interessado em falar
sobre o teu trabalho, sabe que aquilo pode gerar algum tipo de discussão
diferente, aí o cara só coloca o que ele quer. Eu acho
que o mangue é um desafio pra imprensa, pra indústria
e pra quem estuda. A gente recebe pesquisadores, estudiosos, musicólogos,
sociólogos de tudo que é lugar do mundo, cara. Tem sempre
nego fazendo tese, indo pra lá e tal. Porque não é
um movimento musical no sentido do que é a bossa-nova, do que
é o reggae, que tem uma sonoridade definida. É assumidamente
uma cena que tem uma postura mais ou menos comum de contemporaneidade,
só que não tem uma batida que possa ser diluída
pela indústria. Não existe a batida do mangue. E isso
é um problema pra quem vai escrever, pra quem quer assinar contrato
com empresário. É um problema mas eu acho que é
um bom problema, um problema do bem porque salienta a história
da diversidade. Foda-se que não está atendendo a demanda
da indústria, o que importa é que está gerando
coisas como o Mombojó. E está gerando noites como essa,
onde
você vê uma banda independente botando todo mundo pra cantar
junto. Se a gente fosse um movimento com uma batidinha certa e bem identificável,
talvez fosse mais
complicado chegar numa situação como essa.
MD- Você tinha declarado
que O Outro Mundo de Manuela Rosário talvez fosse o
último trabalho de vocês no formato CD. Agora está
saindo uma caixa com os primeiros CDs do Mundo Livre também.
Como está essa história?
04- Está saindo uma caixa com um
DVD anexo como bônus, agora tem um convite pra gravar um DVD ao
vivo. Quando eu falei não foi no sentido de que a gente não
queria mais trabalhar com esse formato. Foi no sentido de que a indústria
está passando por um período de transição
tão rápido, uma transformação tão
violenta que eu achava provável que o formato estivesse condenado.
Hoje tem vários setores lá do nordeste onde muitas e muitas
bandas que estão lotando ginásios não lançam
mais CD.
MD-
Você acha que o vinil vai acabar durando mais do que o CD?
04- Pode ser, cara. Na última viagem
que fiz pra Nova Iorque eu fiquei impressionado. Nas megastores de lá,
tudo está sendo relançado em vinil. Coisas novas saindo
em vinil, seções imensas de vinil. É um caminho
que pode ser viável, não sei. Eu pirei quando ouvi uma
banda gaúcha agora que lançou um compacto em vinil.
MD- Peraí, não foi
o Repolho?
04- Repolho, exatamente.
MD- Banda gaúcha, não!
Eles são catarinenses, de Chapecó.
04- Ah, eles são catarinenses?
Me disseram que eram gaúchos. Que tem aquele lance lá
da bucetinha, né? Achei do caralho a coragem de lançar
nesse formato. Eu fui fissurado em compactos quando era moleque. Quando
eu ia numa loja e via um compacto legal, comprava na hora.
MD- Esses lançamentos de
vocês só em MP3, tipo "Dogville, Coleiras e Bombeiros"
não tinham que ser em compacto?
04- É, eu pensei nisso seriamente.
Porra, a Coca-Cola lançou uma promoção onde davam
uns CDs pequeninhos. Se a gente tem uma idéia pra lançar
uma crônica de algo
urgente, assim como foi "Dogville", nego pode querer comprar.
Aí tinha que lançar algo que poderia estar na loja em
duas semanas. Mas eu estou otimista, velho. Só o fato de ter
uma porrada de bandas lá do Recife gravando sem precisar sair
do Recife. A gente gravou quatro discos em São Paulo não
por opção, mas por contingência mesmo. A gente não
tinha como gravar em Recife. Não tinha estúdio legal,
não tinha técnico que
pudesse trabalhar o som que a gente fazia, não tinha a menor
estrutura. Hoje em dia tem um puta pólo de gravação
super-intenso rolando lá em Recife. Isso é do caralho.
E isso é por conta dessa descontrução desse modelo
aí.
MD- Vocês sempre tiveram
uma ligação forte com a esquerda, como é que vocês
estão avaliando esses dois anos de Governo Lula?
04- Olha, eu estou botando fé que,
por exemplo, em termos de política internacional as coisas estão
diferentes. Tomou posse recentemente o novo embaixador americano aqui
no Brasil e o primeiro compromisso oficial do cara não foi no
Planalto, não foi falar com
o Presidente. Foi com o (ex-presidente) Fernando Henrique (Cardoso),
com o Instituto Fernando Henrique. Tem toda essa pressão agora
em cima do programa nuclear brasileiro, tem toda uma pressão
em cima da ALCA. Eu acho que isso é tudo por conta de uma postura
internacional que o Brasil nunca teve antes. De ser líder do
grupo de amigos da Venezuela, de estar fazendo parcerias bem intensas
com o Hugo Chavez, brigando na OMC, conseguindo altas vitórias
na OMC, um monte de coisas. Algumas coisas da macroeconomia a gente
ainda sente falta de alguma coisa com mais identidade. Mas eu não
concordo com esse discurso de que a economia está a mesma coisa,
de que é a mesma política econômica. Eu acho que,
com certeza, se tivesse sido eleito o José Serra, a Petrobras
já tinha sido privatizada. O BNDES ao invés de estar bancando
privatizações está ajudando a Argentina, está
financiando microcrédito Brasil afora, um monte de coisas que
estão muito diferentes. E é isso que a imprensa tucana
não consegue engolir.
Os caras não precisaram fazer uma
revolução ou uma mudança radical e mesmo assim
estão fazendo um troço muito mais competente e com muito
mais eficiência (do que o governo anterior), inclusive na macroeconomia.
Agora mesmo essa história da Ancinav (Agência Nacional
do Cinema e do Audiovisual), muito louca a postura da imprensa. Arnaldo
Jabor chega e faz até uma encenação com luz vermelha,
como se o PT fosse o demônio, "eles querem censurar".
Aí um cara do Ministério da Cultura foi lá em Recife
para um debate e me mostrou um texto do Arnaldo Jabor de 98, época
do Fernando Henrique, cobrando tudo que está na Ancinav. Ou seja,
o cara não tem a mínima moral. É uma postura de
quem está incomodado. O PT está sendo tudo aquilo que
eles achavam que não ia ser, fazendo tudo muito melhor que eles.
Agora, por exemplo, acho que é muito tímida, ainda mais
tendo um músico como Ministro da Cultura, o
problema com as concessões de rádio. Fora Rio, São
Paulo e alguns lugares aqui do Sul, as rádios foram abandonadas
pelas gravadoras porque não tem mais como bancar jabá
no Brasil inteiro. E não há revisão nas concessões.
As rádios estão todas falidas e estão
caindo nas mãos de máfias dentro do crime organizado.
Tem máfias com cento e poucas emissoras de rádio no Norte
e Nordeste. Caras que inventam falsas bandas, que tocam material pirata,
as rádios funcionam no vermelho, sem pagar imposto, sem pagar
porra nenhuma. E é concessão pública, não
pode ficar na mão da bandidagem pra usar como quiser.
Entrevista: Gabriel
Rocha e Humberto Montenegro
Imagens: Recife Rock