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Dr. Gonzo vem aí
Depois de Hell’s Angels – Medo e delírio sobre rodas, a editora Conrad anuncia o lançamento de todo o catálogo de Hunter Thompson


Um dia qualquer, lá na enfadonha Blumenau, uma sacola cheia de livros me esperava no quarto. Era coisa de um tio e do avô, e tirando a pilha de livros de um tal Pedro Bloch, o Lair Ribeiro/Paulo Coelho das gerações passadas, tinha lá alguns livrinhos instigantes para um garoto com menos de vinte anos. Tinha lá O apanhador no campo de centeio, do J.D. Salinger, livro mais incensado do que lido, com fama grande depois que Mark Chapman carregava um exemplar quando atirou em John Lennon. Tinha também um livro com a capa púrpura, desbotando pro azul já, e uma foto de um carrão conversível, vermelho, à beira de uma piscina, ou coisa assim. Chamava-se Las Vegas na cabeça. Comecei a ler e logo ali na terceira página, por aí, o autor descrevia sua bagagem na viagem que faria à meca dos cassinos, onde iria cobrir uma corrida de motocicletas. Opa, o filhadaputa tá armando uma boa história, pensei. No porta-malas estavam cervejas, uísque, saleiro com coca, peyotes, ácidos, benzina, maconha a barrê e outras cositas más. Depois dali, engatei no livro e só fui parar no final da primeira parte. Assim, meio que sem querer, eu era apresentado a Hunter S. Thompson, pai do jornalismo gonzo e, a meu ver, o único que o fez com dignidade do nome. Aliás, gonzo não tem uma tradução literal, mas se aproxima de algo como torto e poderia ser descrito como um jornalismo em primeira pessoa, direto, transbordando (mas nem sempre) nas alucinações chapantes de uma mente alterada pelas drogas e que naturalmente procura investigar os assuntos relacionados a ela. Mas não só.

Las Vegas na cabeça foi lançado nos anos 80 por uma editora que nem existe mais e, além de terem me roubado aquele exemplar (será que era do meu vô ou do meu tio?, eu me perguntava), não tinha terminado de ler a segunda parte. Tempos atrás, lendo alguns textos na internet de jornalistas que se consideravam “gonzo” deu uma saudade daquele texto do Hunter, escrito assim como se fala, sem meias verdades ou preocupações formais, soltando palavrão e se entupindo de drogas. Esses pseudogonzos nunca chegariam lá. Bom, você deve ter ouvido falar nele, virou filme e tudo em Hollywood, com Johnny Deep e Benicio del Toro, Medo e delírio (tradução mais apropriada, pois o título original é Fear and lothing in Las Vegas). Hunter reapareceu meses atrás pra mim num sebo de Niterói. Tava já saindo e passando os olhos por uma pilha de promoção a cinco real, na esperança de algo que prestasse. Me deparo então com o livrinho roubado (livrinho devido ao número de páginas, 150, por aí) e recupero a preciosidade. E eis que agora, enquanto o sacana do Hunter – que sobreviveu aos “anos loucos” da década de 60 e continuou se entupindo de drogas nas décadas seguintes também – se enfurna no meio do mato e vira cronista de futebol americano pro site da ESPN, a Conrad Editora anuncia a tradução dos livros do homem. O primeiro já tá nas melhores casas do ramo e se chama Hell’s Angels – Medo e delírio sobre rodas.

É o primeiro de Hunter e ele começa com estilo, não podemos negar. Ainda não tão próximo do naturalismo exacerbado e totalmente chapado alcançado em Fear and lothing, Hunter passou um ano com a gangue de motoqueiros quando esta foi alçada a figurinha fácil da sempre conservadora mídia norte-americana, trocando as páginas policiais pela capa e primeira página, para figurar como as novas bestas do apocalipse que vieram para destruir a família americana. O estopim foi um suposto estupro coletivo, praticado por dezenas de Angels enfurecidos em alguma vila perdida da Califórnia, em meados dos anos 60. Queixa que mais tarde seria retirada pelas supostas vítimas, mas daria início ao Relatório Lynch, nome do procurador do Estado e responsável pelo início de toda a fama dos motoqueiros. A partir daí e fugindo de uma ordenação cronológica, Hunter vai descrevendo como são esses animais, com certeza nem um pouco santos, mas também longe de ser a horda de facínoras e estupradores com que toda a sociedade norte-americana passou a tachá-los. Nem oito nem oitenta, como diria o Homem Chavão.

Essa construção dos Angels pela mídia, sobretudo New York Times e as revistas semanais Time e Newsweek, é muito instrutiva nos dias que correm para compreendermos que a manipulação é algo que vem de longa data nos EUA, e também pra aprender que os tacanhos americanos do interior, branquelões do Texas e de Cleveland, mas também do interior da Califórnia, já há muito entorpecem a sociedade de lá. Eles são broncos, sim, batem em um só coitado em bandos, com correntes e outros requintes de crueldade, se entopem de cerveja, maconha e outros aditivos, mas sobretudo cerveja. Advêm de um paraíso perdido com a Segunda Guerra, que solta esses malucos esquizôfrenicos de volta no país, agora com motocicletas baratas, embrião do que realmente cresce nos anos 60, década de algo também sinistro para os fudidos (entenda-se pobres e pretos) americanos que retornam do lamaçal no Vietnã.

Thompson inaugura aí o estilo pessoal, em primeira pessoa, fala como foi conviver com os malacos, a aceitação deles, as mudanças que enfrentou ao começar a circular de moto, as manias, os preconceitos de ambos os lados e até a surra que tomou, meio que de bobeira e sem saber por quê. Transcreve trechos das matérias tendenciosas, dos relatórios inescrupolosos, das conversas improváveis com tacanhos guardas municipais, além de extensas conversas com os Angels. Saudades desse jornalismo que se propunha a ouvir, pesquisar, investigar e fazer um trabalho de fundo, coisa impossível na imprensa brazuca de hoje (que pra lembrar como já foi bom o seu tempo áureo lança edição especial da revista Realidade) e rara na imprensa mundial. E pelo menos no que diz respeito a Thompson, as notícias são boas. A Conrad prepara mais um livro do figura para este ano e outros dois para ano que vem.

 

Bruno Dorigatti