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A ferrugem nunca dorme
Odiado por muitos, GG Allin continua a importunar depois de morto


As páginas da história do rock estão recheadas de episódios de infâmia, degradação, subversão e ultraje. Porém, nestes quesitos ninguém chega perto dos feitos de um sujeito chamado GG Allin. Mais do que por sua música (um punk rock mais tosco, sujo e tonitruante do que a média), Allin era conhecido por suas dementes performances no palco. Os shows de GG Allin invariavelmente envolviam nudez, defecação pública, auto-mutilação e várias outras formas de obscenidade. Tal qual um bugio, Allin costumava comer seus próprios excrementos e jogar os restos no público. O figura chegou a ser preso mais de 50 vezes pelas mais diversas acusações. Durante anos, ele prometeu o que seria seu maior espetáculo: seu próprio suícidio em pleno palco. Promessa nunca cumprida, já que em 1993 Allin acabou morrendo por overdose, clichê por excelência do universo roqueiro.

GG nasceu em 1956 na cidade de Lancaster, New Hampshire, EUA, filho de pais ultra-religiosos que o batizaram de Jesus Christ Allin. O apelido veio do irmão Merle que quando criança não conseguia pronunciar “Jesus” e o chamava de Gee-gee. Pouco antes de entrar na escola, sua mãe mudou seu nome para Kevin Michael Allin. O pequeno GG e a família viviam sobre constante tensão quanto às atitudes de seu pai, que freqüentemente ameaçava matar a família e se matar depois, tendo chegado a cavar covas para todos no porão de sua casa. Durante seus anos de escola, GG se transformou num autêntico delinqüente juvenil, fazendo de tudo para chocar quem estava a sua volta (incluindo aí até ir para o colégio vestido de mulher). Por essa mesma época, descobriu o rock através do rádio e começou a tocar bateria, participando de diversas bandas junto ao irmão Merle.

No final dos anos 70, GG descobriu e se identificou com o punk e passou a tocar em uma banda chamada Malpractice. Foi nessa mesma época em que ainda não estava completamente alienado da sociedade que ele chegou a se casar e ter uma filha. Alguns anos depois, ele abandonaria a família, fugindo com uma garota de 13 anos. Em 1980, já como vocalista da banda Jabbers, ele lançou seu primeiro álbum. No ano seguinte, juntou-se ao projeto Motor City Badboys (que incluía os lendários Wayne Kramer e Dennis Thompson, ex-membros do MC5) para o lançamento de um single. Depois do fim do Malpractice em 1984, se juntou ao irmão Merle nos Scumfucs. Decepcionado com os rumos que o rock havia tomado, as atitudes de GG no palco começaram a ficar cada vez mais extremas, como que para compensar a bunda-molice que imperava. Depois que soltou um barro no palco pela primeira vez, o cara começou a ficar com o filme queimado com os promotores de eventos e teve cada vez mais dificuldades para agendar shows.

Em 1990 ele foi condenado e preso por agressão com intenção de mutilação, acusação feita por uma de suas parceiras sexuais. Liberado sob condicional partiu para uma turnê de tacar o horror com sua nova e derradeira banda, os Murder Junkies, novamente com Merle no baixo. As barbaridades que ele aprontou pelo caminho foram suficientes para condená-lo por violação de condicional. GG voltou para o xilindró e puxou três anos de cana. Ao sair da cadeia em 1993, voltou para a estrada com a banda e esta última turnê foi brilhantemente registrada no documentário “Hated” (odiado), de Todd Phillips. O filme traz performances antológicas dele em shows e em apresentações de spoken-word (espécie de palestras). Numa dessas últimas, ataca brutalmente uma mulher da platéia por ela ter questionado por que raios ele ainda não tinha se matado. Em outra, ele começa a tirar as roupas, enfia uma banana no rabo e convoca o público universitário a ficar nu junto com ele. A platéia simplesmente foge apavorada. Em um dos momentos, digamos, mais íntimos de GG, é mostrada uma festinha de aniversário que os amigos armaram para ele. O presente? Uma mulher mijando em sua boca até que ele vomite. Nem o notório junkie e desajustado de carteirinha Dee Dee Ramone agüentou tanta insanidade. O fundador dos Ramones se uniu aos Murder Junkies em um dia e abandonou a banda no outro.

Finalmente, em 28 de junho daquele ano, a trajetória de GG Allin chegava ao fim. Logo após um show que acabou logo após a primeira música, com GG atravessando vidros e correndo nu pelas ruas para fugir da confusão que causara, ele foi para a casa de um amigo e tomou uma dose fatal de heroína. No seu funeral, GG estava no caixão vestido de jaqueta de couro e uma saqueira onde estava escrito “me coma”. Em um de seus braços estava uma garrafa de bourbon. Os fãs colocavam pílulas em sua boca e jogavam bebida goela abaixo do defunto. E tiravam fotos sorridentes ao lado do ídolo morto enquanto brincavam com seus genitais. Uma despedida digna da vida que levou.

Enquanto viveu, GG Allin conquistou um grande séquito de admiradores e seguidores. Dono de um magnetismo comparável ao de Charles Manson, Allin atraía menininhas que se ofereciam a ele como escravas sexuais. E mesmo depois de morto ele continua a colocar minhocas na cabeça de diversas pessoas mundo afora. Os Murder Junkies, agora sob o comando de Merle, continuam tocando por aí. Em outubro do ano passado, para lembrar os dez anos da morte de GG, estudantes da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) organizaram em Florianópolis uma semana de eventos que celebraram da carreira de Allin. Além de “Hated”, na mostra Dez Anos Sem GG Allin - Paixão e Fúria: O punk mais punk da história foram apresentados filmes underground raros de diretores como John Waters e Richard Kern, além de palestra com o rei do cinema trash brasileiro, Peter Baierstof. O evento ainda contou com apresentações teatrais, suspensão humana e um show de encerramento no mítico Underground Rock Bar, com bandas como Os Legais, O Monstro da Garagem e Objeto Amarelo.

Além disso, os organizadores foram responsáveis por um dos momentos mais bisonhos da história da televisão catarinense. Na cara-dura, os figuras foram ao programa popularesco Cesar Souza (misto de assistencialismo com entretenimento furreca e jornalismo mundo-cão, comandado pelo deputado estadual de mesmo nome) para divulgar o evento. Com a maior cara de santos, contaram lorotas deslavadas sobre GG Allin, afirmando que ele era “um roqueiro que pregava contra o uso de drogas e a violência”. E para outubro próximo os caras já estão armando uma segunda edição do evento, com shows dos Muzzarelas, Os Legais e Os Cafonas. Por essas e outras que o espírito de porco de GG Allin ainda vai continuar perturbando por muito tempo.

Gabriel Rocha