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Nós somos os robôs
Um retrospecto da carreira do Kraftwerk, que volta ao Brasil para dois shows

"Eu programo meu computador pessoal/ irradio a mim mesmo para o futuro", diziam os alemães do Kraftwerk em sua canção "Home Computer", de 1981. E era exatamente isto que eles estavam fazendo desde seu surgimento no final dos anos sessenta, irradiando-se para o futuro. Visionários, logo perceberam que o futuro da música estava nas máquinas eletrônicas e criaram sua própria auto-estrada para a modernidade. Todo artista que de alguma maneira está envolvido com música eletrônica deveria acender diariamente uma vela para o Kraftwerk diante do Grande Altar do Rock. A banda alemã foi a pedra de toque para praticamente tudo o que foi feito em música pop eletrônica.

Sua influência vai do hip-hop ao drum n’ bass, do pós-punk ao technopop, fazendo do Kraftwerk um dos nomes mais importantes do rock n’roll. No final dos anos 60, dois estudantes de música clássica, Ralf Hütter e Florian Schneider, se conheceram no conservatório de Düsseldorf, Alemanha. Além do interesse de ambos pela música erudita eletrônica de Karl Stockhausen, eles também eram fãs de carteirinha dos Beach Boys e foram dos primeiros a se ligar em bandas americanas de vanguarda, como o Velvet Underground e os Stooges, que pavimentariam o caminho para o punk e a new wave. Em 1968, junto a Klaus Dinger e Thomas Homann eles formaram o Organisation, que dois anos depois lançaria o álbum Tone Float. Quando Dinger e Homann deixaram a banda para formar o Neu!, Hütter e Schneider fundaram o Kraftwerk ("usina de força" em alemão), e lançaram três discos: Kraftwerk, Kraftwerk 2 e Ralf und Florian, que saíram apenas na Alemanha. Assim como na época de sua antiga banda o som era mais experimental e diferente do que eles fariam a partir de Autobahn, de 1973. Lançado nos Estados Unidos, Autobahn, uma celebração da relação homem-automóvel-auto-estrada, alcançou o sucesso comercial graças ao estouro de uma versão editada da canção título, que originalmente tem 22 minutos. Usando apenas sintetizadores e bateria eletrônica, "Autobahn", a canção, seria a base para todo o trabalho posterior da banda. Nesta época é consolidada a sua formação clássica com Wolfgang Flur e Karl Bartos, juntando-se a Ralf e Florian.

Kling Klang - Todo o trabalho do Kraftwerk é feito no estúdio Kling Klang, fundado pelos próprios músicos em 1970. É neste lugar misterioso que não tem campainha, telefone, nem endereço para correspondência, que a banda desenvolve novas tecnologias e se dedica obsessivamente à gravação de seus álbuns. Com o Kling Klang, o Kraftwerk demoliu a barreira entre a criação técnica e criativa, já que os próprios músicos são responsáveis por grande parte do equipamento que utilizam. A partir de Radio-Activity, de 75, é inaugurada uma nova fase para a banda, em que seus álbuns são lançados em duas versões uma em alemão para sua terra-natal e outra em inglês, para o mercado externo. Erroneamente interpretada como um manifesto pró-energia nuclear, a canção "Radio-Activity" teve seu refrão modificado para "stop the radioactivity" em The Mix de 1991, para esclarecer o mal entendido. Neste disco os alemães retomam a veia experimental fazendo vasto uso do vocoder, equipamento que faz a voz humana soar de forma robotizada. No Brasil, Chico Science e Nação Zumbi usaram um sample da clássica "Antenna" (sem dar crédito) em "Antene-se" de seu primeiro álbum, Da Lama ao Caos.

O Kraftwerk retoma completamente o pop em sua obra-prima, Trans-Europe Express, de 1977. O disco trazia canções perfeitas como "Europe Endless" e a soturna "The Hall of Mirrors" (popular no Brasil por ter sido tema de um anúncio de sapatos da Star Sax e que depois seria regravada pelos ícones góticos Siouxsie and The Banshees). A música título fazia pelo universo dos trens, o mesmo que Autobahn fez pelos automóveis, uma apologia das viagens sobre trilhos. Na mesma música eram citados dois amigos da banda que na época viviam na Alemanha: Iggy Pop e David Bowie. Depois de mergulhar no soul americano em Station to Station, Bowie se encantou com o som eletrônico dos alemães e gravou em Berlim três grandes álbuns, Low, Heroes e Lodger altamente influenciados pelo Kraftwerk. Na mesma época o padrinho do punk, Iggy Pop lançaria seu clássico The Idiot, não por coincidência também gravado na Alemanha e com Bowie nos créditos da produção. Nem é preciso dizer que o disco é recheado de sintetizadores e drum machines. Na faixa "V-2 Schneider", de Heroes, Bowie retribui a citação de Trans-Europe Express.

Em 1978 é lançada outra maravilha, The Man-Machine, com canções de melodias belíssimas como "Neon Lights", "Metropolis" e a irresistível "The Model". A partir deste álbum o Kraftwerk passou a contar com quatro robôs, com as feições dos músicos, que os substituíam em aparições públicas, sessões de fotos e nas performances ao vivo da música "The Robots", um dos maiores hits extraídos daquele álbum. Por aqui a Globo passa a usar algumas canções deste disco como música de fundo para aventuras espaciais do Sítio do Pica-Pau Amarelo fazendo com que o Kraftwerk se tornasse a banda preferida dos sonoplastas brasileiros. Três anos depois de The Man-Machine sai outro belo disco, Computer World, que traz vários hits como a canção título e "Pocket Calculator". O disco tem ainda "Computer Love", que exerceria uma influência enorme em uma das mais importantes bandas dos anos 80, o New Order.

Desde a época em que a banda ainda se chamava Joy Division e fazia um som pra lá de sombrio e depressivo, o vocalista Ian Curtis declarava sua admiração pelos alemães e tocava os discos da banda antes de suas apresentações. Após o suicídio de Curtis em 1980 os membros remanescentes rebatizaram a banda de New Order e modificaram seu estilo musical, fazendo um som onde mesclavam Kraftwerk com grupos disco.

Nonsense - A aparente seriedade e frieza dos quatro alemães cai por terra quando se presta atenção em algumas das letras, onde o senso de humor teutônico impera. Quem poderia levar a sério refrãos como os de "Showroom Dummies" ("Nós somos manequins de vitrine") ou de "Pocket Calculator" ("Eu sou o operador da minha calculadora portátil/pressionando uma tecla especial é tocada uma pequena melodia")? O nonsense do Kraftwerk só tem paralelo com as bobagens dos Ramones. O próximo lançamento da banda seria o single Tour de France, de 1983 em que a banda refletia seu interesse pelo ciclismo. "A bicicleta é por si só um instrumento musical", disse na época Ralf Hütter, um fanático pelo esporte. Ironicamente naquele mesmo ano ele quase morreria em um acidente com sua bike. Por esta época o Kraftwerk estava fascinado com sua influência sobre a música para as pistas de dança e no nascente hip-hop. Não seria exagero nenhum afirmar que o rap não existiria sem o Kraftwerk. Em 1982 Afrika Bambaataa & The Soul Sonic Force produziram um dos primeiros sucessos do mundo do rap, a canção "Planet Rock", que usava como base o riff de sintetizador de "Trans-Europe Express" somado à batida pesadona de "Numbers". Segundo Bambaataa, "o Kraftwerk não fazia a mínima idéia do quanto era popular entre a comunidade negra americana em 1977, na época todo mundo ficou maluco com Trans-Europe Express".

Com Electric Café, de 1986, seu último disco completamente inédito, o Kraftwerk escancara as portas para o surgimento do tecno, inicialmente praticado por bandas de Detroit. Suas músicas longas e sem muitos vocais foram influências fundamentais para o surgimento do novo ritmo. Durante os anos 80 bandas de diversas tendências beberam nas águas do Kraftwerk, desde punks, como o Gang Of Four e Big Black (do produtor Steve Albini) ao rock industrial do Killing Joke, até os new romantics, capitaneados por Duran Duran e Depeche Mode. No fim dos anos 80 e começo dos 90 bandas importantes e barulhentas, como o Ministry e o Nine Inch Nails levaram a música eletrônica aos últimos níveis de paranóia e violência sonora. Em 91 o Kraftwerk lança The Mix, onde eles recriam seus maiores clássicos remixando-os para as pistas de dança. Logo após o lançamento Karl Bartos e Wolfgang Flur abandonaram a banda para seguirem outros projetos.

Na segunda metade da década de 90 o som dos alemães volta a ser revisitado com maior força devido à explosão da chamada electronica (jargão inventado pelos americanos para rotular bandas completamente distintas cujo ponto em comum é a utilização de baterias eletrônicas, sintetizadores e samplers). Neste balaio de gatos surgiram os Chemical Brothers, o Prodigy, Daft Punk, Underworld, todos filhotes legítimos da matriz, o Kraftwerk. Grupos de trip-hop, como o Massive Attack e Portishead também aprenderam uma coisinha ou duas com os homens-máquina. Em seus discos mais recentes bandas de sucesso como o Smashing Pumpkins, Beastie Boys, R.E.M. e Chemical Brothers trazem elementos kraftwerkianos. Pug, música do álbum Adore dos Pumpkins lembra Autobahn, enquanto que And Me, de Hello Nasty dos Beastie Boys parece uma Radio-Activity drum n’bass. Já Music:Response, de Surrender dos Chemical Brothers beira ao plágio de Musique Non Stop.

Em 1997 o Kraftwerk voltou a se apresentar ao vivo em um festival na Inglaterra e em 98 fez seus primeiros shows nos Estados Unidos depois de dezessete anos. O Free Jazz Festival do mesmo ano trouxe pela primeira vez os lendários alemães ao Brasil e, heresia das heresias, botaram os alemães para abrir as apresentações do Massive Attack. Quem viu diz que foi uma das melhores apresentações de uma banda estrangeira nestas terras em todos os tempos. Em 2003, saiu o álbum Tour de France Soundtracks, em que revisitam o single de 1983 e com a turnê deste disco eles devem voltar ao Brasil para duas apresentações em novembro deste ano.

Gabriel Rocha

 

Matéria originalmente publicada no fanzine "O Gárgula" em dezembro de 1999 .