Entrevista

Eletricidade e tango. Muito tango
O tradicional ritmo platino vai ao underground e encontra a música eletrônica

Você provavelmente nunca ouviu falar de Juan Campodónico. Mas deveria. Ele é um dos músicos que lideram a inovação da arte feita às margens do Rio da Prata. A máxima de que o Brasil está de costas para o seu próprio continente continua válida. Pouco sabemos sobre o que se passa com nossos vizinhos da América do Sul. Na música, não temos informação nem do que é feito nos dois países com os quais temos mais ligação, Uruguai e Argentina. E, neste momento, algo importante está acontecendo por lá.

Juan Campodónico, vulgo CampoEm vários momentos da História, em diferentes partes do mundo, rupturas políticas, grandes crises sociais e econômicas mudaram também os paradigmas culturais. "Para Argentina e Uruguai (os países unidos e separados pelo Rio da Prata) estes são tempos difíceis, tempos de eletricidade e tango. Muito tango", escreve Enrique Lopetegui na nota de apresentação do disco do Bajofondo Tango Club, um coletivo de artistas dos dois países que executaram a mais representativa e bem-sucedida fusão do tango com a música eletrônica até agora. Os líderes do Bajofondo são dois produtores: o já citado uruguaio Juan Campodónico, mais conhecido como "Campo", e o argentino Gustavo Santaolalla.

Campo é ex-guitarrista do grupo de rock Peyote Asesino e produtor dos últimos discos de Jorge Drexler, o mais conhecido cantor uruguaio da atualidade. Santaolalla é radicado nos Estados Unidos e produziu grupos como Café Tacuba e Molotov. Ultimamente tem se dedicado às trilhas para o cinema, como as de Amores Brutos, 21 Gramas e Diários de Motocicleta, o filme de Walter Salles que integrou profissionais de diversas partes da América.

Reza a lenda que os hinos oficiais da tristeza platina andavam esquecidos pela juventude de Buenos Aires e Montevidéu. Relatos de viajantes brasileiros davam conta que o tango nas plagas portenhas tinha virado coisa para turista - um equivalente ao show de mulatas do Sargentelli no Brasil. Mitos como Carlos Gardel ou mesmo o renovador Astor Piazzolla continuavam na memória de todos, mas petrificados como monumentos.

Após a grande crise, a renovação musical que vinha acontecendo silenciosamente ganhou destaque. Primeiro com o Gotan Project, um grupo radicado na França, e depois com um bom número de artistas que começaram a criar sobre antigos temas de antigos "tangueros" resgatados. O tango - que em sua forma clássica conta com piano, contrabaixo, violino e A capa do CDbandônion, mas nenhuma bateria - tem espaço de sobra para as batidas de house ou drum n' bass. Experiências interessantes e inovadoras que mesclam elementos modernos com os ritmos tradicionais não são propriamente uma novidade. No Brasil experimenta-se com o samba e a bossa nova há vários anos. Mas agora chegou a vez do tango e da milonga acrescentarem sua contribuição para os novos sons do mundo.

Por aqui, muitos ainda insistem em classificar qualquer coisa cantada em espanhol como anacrônica ou associar a música latina ao pop mais rasteiro. Nada mais equivocado. Para afastar de vez essa idéia basta escutar duas faixas do disco Bajofondo Tango Club: "Mi Corazón", a música que Juan Campodónico compôs usando samplers de uma velha gravação de Roberto "Polaco" Goyeneche. Um velho mito canta meio bêbado uma canção profundamente melancólica que, surpreendentemente, transforma-se em algo possível de dançar numa pista. Se não ficar convencido, o golpe final é "En Mí/Soledad", uma composição de Piazzolla que encontrou seu porto no trip hop.

Revelando-se um admirador da música brasileira, "de João Gilberto a DJ Marky e tudo o que está no meio", Campodónico concedeu esta entrevista ao Marca Diabo, via e-mail. Prestes a sair em turnê pela Europa e América do Norte com o Bajofondo, ele falou da música eletrônica e tradicional, de hip hop, do Uruguai, e da tão sonhada integração da América Latina que, pelo menos na seara cultural, dá sinais de crescimento.


Marca Diabo - Por que fazer um disco de tango misturado com eletrônica? O quanto o resgate do tango está relacionado aos tempos difíceis que a Argentina e o Uruguai passaram recentemente?
Campo - O tango é a música por excelência das urbes do Rio da Prata, Buenos Aires e Montevidéu. É uma música que tem 100 anos de desenvolvimento. Se você vive aqui respira o tango, goste ou não. É uma música que está associada à idiossincrasia dos rio-platenses. Desde a época do Peyote Asesino (banda de hip hop/rock a qual integrei na metade dos anos 90) eu já tentava aprofundar essa mistura. O mais interessante do tango é que é uma linguagem completamente particular e própria desta região, que conseguir expandir-se pelo mundo e ser reconhecida como tal, coisa que não aconteceu com nenhum outro gênero surgido nestas terras.

Para mim, o interessante era obter algo novo, por mais que o esquema de trabalho no começo fosse "vou fazer um disco de música eletrônica com influência de tango". No princípio estava difícil encontrar a conexão entre esses dois mundos, agora a vejo claramente. Porque é preciso entender o que queriam dizer essas músicas no seu tempo, o que querem dizer agora e o que dizem em um novo contexto.

Por exemplo, [Juan] D'Arienzo era para a Argentina dos anos 40 e 50 o que hoje é a música house. É a música de salão de baile. Socialmente cumprem a mesma função. Quando se juntam esses elementos, se entende do que tratava essa música, então pode fazer a sua própria versão com uma sensibilidade atual. Essa é a idéia básica do Bajofondo. Muitas das coisas que estão no tango, como a melancolia, não desapareceram do Rio da Prata quando o tango envelheceu e se tornou decadente. A questão é traduzi-lo em música para que ele tenha sentido hoje em dia, porque para mim não teria sentido tocar hoje igual ao que fazia [Aníbal] Troilo quarenta anos atrás.

O Bajofondo Tango Club reunidoComo outro exemplo, há uma versão de "Naranjo en flor" [canção de tango tradicional], que está no disco e saiu espontaneamente. Depois de feita me soava muito adolescente, muito oposta à idéia da canção que eu havia percebido escutando a versão de [Roberto] Polaco Goyeneche. Mas acontece que quando os irmão Espósito escreveram essa canção tinham 18 anos. Talvez essa leitura mais atual que fizemos conserve muito do espírito original da canção. Me dei conta de que a letra na verdade é muito adolescente. "Eterna e velha juventude" é uma associação muito adolescente.

Aqueles que gostavam do rock do fim dos anos 60 e 70 rejeitaram o tango em um conflito de gerações onde o tango ficou identificado com a música dos velhos, e o rock com a dos jovens. Hoje em dia o rock é a música oficial da cultura dominante do mundo ocidental. A música eletrônica é uma linguagem global carente de raiz e cultural. É a expressão do estado de evolução da música em sincronia com a evolução da tecnologia e as idéias de vanguarda. Essa linguagem nasce numa etapa do mundo quando as conexões não se dão de forma linear, mas em forma de rede. Isto é, você pode ter muito mais coisas em comum com um japonês do que com o seu vizinho.

Outro aspecto é o do formato da música eletrônica, que pode ser muito facilmente preenchido de conteúdo. Para mim foi lógico usar essa linguagem neutra e global para dizer com ela algo particular. Algo que só poderia ser dito por um músico com eu, que leva o tango como parte do DNA cultural.

É uma tendência global da música eletrônica buscar sabores nas músicas regionais. Há músicos misturando coisas do norte da África com house, coisas índias, jazz, flamenco, bossa nova. Neste sentido sinto que o experimento Bajofondo está em sincronia com esta tendência. Por outro lado, quando há crise as pessoas vão menos ao shopping e revalorizam coisas que não têm um valor unicamente econômico.

O revival do tango tem a ver com resgatar algo próprio neste bombardeio permanente de produtos culturais de consumo que vêm do Primeiro Mundo. Para mim, a chave para fazer música potente, atrativa e interessante está em ser original. Original no sentido de fazer algo novo, mas também fazer algo próprio, único e que venha da tua própria origem. Não tem sentido para mim ser um Moby uruguaio, imitando todos os "tics" da música de outro. Tem sentido ser Bajofondo.

MD - O disco Bajofondo Tango Club saiu só agora no Brasil, mas foi lançado em 2002 no Uruguai e na Argentina. Você acredita que nesse tempo o trabalho já inspirou mais gente a expandir as experiências com os ritmos regionais platinos?
C - Desde que começamos a fazer turnês com o Bajofondo encontramos muitíssimos músicos que nos mostraram demos e discos, que estavam simultaneamente em uma busca similar. Talvez nós conseguimos um resultado musical forte e rápido porque somos um grande coletivo de artistas e o projeto estava muito bem direcionado desde a produção artística que eu e Gustavo Santaolalla fizemos. Mas há muitos projetos que misturam tango com eletrônica.

MD - Duas das mais interessantes faixas do Bajofondo são suas, "En Mí/Soledad" e "Mi Corazón". Poderia dizer como elas foram concebidas?
C - Ambas surgiram de meu amor por músicos de tango geniais, como Piazzolla e Goyeneche. Em "En Mí/Soledad", a partir da melodia principal da canção "Soledad", de Astor Pizzolla, desenvolvi primeiro um novo entorno para ela, beats que estavam entre o abstract hip hop e o dub. Depois escrevi outras partes musicais que acompanharam o trecho de melodia de Piazzolla. É o conceito de sampling, mas não digital e sim conceitual. Tomo a essência da melodia de Piazzolla e escrevo algo novo ao seu redor. É uma canção muito melancólica. Não é um tango, mas uma milonga, outro gênero parente do tango.

Quanto a "Mi Corazón", eu tinha essa gravação de Polaco Goyeneche ao vivo, já velho e com muito pouca voz. A interpretação dele é brilhante, quase não canta, mas como diz. Nessa gravação ele está muito bêbado e a intensidade que obtém de "La última curda" [a canção original] é muito emotiva.

Eu sampleei algumas pavavras-chave: "Mi corazón me lleva hacia el hondo Bajofondo". Com base nesse texto reescrevi a letra, baseando-me nesses fragmentos cantados. A música é como uma habanera, gênero antecessor do tango, onde o ritmo delata a influência africana que tem essa música. Por outro lado, os beats do U.K. garage soavam perfeitos para esses ritmos. "Mi Corazón" é uma mescla de um fragmento de "La última curda", a interpretação de Goyeneche, a composição em formato de habanera e o conceito sonoro e os beats do U.K. garage adaptado a tudo isso.

MD - Você, Gustavo Santaolalla, Jorge Drexler, entre outros, estão dando uma nova direção para a música popular feita na Argentina e no Uruguai. Os três têm em comum passagens longas pelo exterior. Como isso afeta seus trabalhos conjuntos?
C- Somos uruguaios e argentinos, mas temos percorrido milhões de quilômetros ao redor do mundo. Eu já morei no México, Buenos Aires e Montevidéu. Vivo com um pé num avião e outro da terra. Santaolalla vive desde os 20 anos em Los Angeles e isso o colocou no nível das técnicas de produção americanas.

Drexler também vive com um pé na Europa e outro na América do Sul. Todos temos uma visão muito ampla do que se passa no mundo da música e, ao mesmo tempo, uma visão muito profunda sobre a música do lugar de onde viemos, a América do Sul. Isso nos ajudou sobretudo a revalorizar o que é nosso e a colocá-lo numa linguagem mais global.

MD - Durante os anos de ditadura o Brasil viveu sua fase mais criativa no campo da música popular. Foi como se as dificuldades da censura e as restrições à liberdade tivessem funcionado como estímulo e desafio a muitos compositores. Não foi assim no Uruguai. O que aconteceu nesse período na música de seu país?
C - No começo da ditadura militar (1973 a 1984) a maioria das pessoas criativas e vinculadas à música emigrou por razões políticas ou porque não podia desenvolver-se num ambiente de terrorismo de Estado. Houve uma geração perdida nesses primeiros anos. Pouca gente disse algo interessante, e os que assim fizeram foram marginalizados.

No início dos anos 80 surgiu uma nova geração de músicos, conceitualmente muito influenciados pelos movimentos brasileiros, que deu novo fôlego para a música uruguaia. Estou falando de gente como Jaime Roos, um talento excepcional. Definiu vários novos gêneros, aproximou o candombe e a murga [outros gêneros tradicionais do país] à canção de autor com raiz uruguaia. A verdade é que foi uma grande influência. Logo atrás está Fernando Cabrera, não tão grande mas genial, que combinou em doses perfeitas a influência de Piazzolla e Tom Jobim.

MD - Você era guitarrista de um grupo de rock, mas escolheu se tornar um produtor de eletrônica. Poderia comparar as diferenças entre essas duas formas de criação musical?
C - Na música que escutei quando adolescente ja stava implícita a eletrônica. Aqueles que foram criados escutando a música dos anos 80 ouviram rock, pop e tecno, além da música de seu lugar de origem. Acredito que cada um é livre para escolher o que gosta, mas inevitavelmente respira tudo o que está acontecendo. Durante os anos 90, talvez pelo próprio fato de tocar em uma banda de rock, comecei a me interessar por outras coisas que não tinham a ver com aquilo. Também vejo uma conexão muito grande entre o que eu fazia com a minha banda de hip hop/rock e a música eletrônica.

BTC em açãoO hip hop é uma música que se criou a partir do desenvolvimento de certas tecnologias, que têm a ver com a música eletrônica, e o Peyote Asesino estava muito influenciado pelo hip hop; por mais que fôssemos uma banda de rock, estávamos conceitualmente muito mais perto do hip hop. Um dos conceitos fundamentais do hip hop é o sampling, a idéia de pegar a música de outro e criar outra música com base nisso. Isso que vem determinado por uma tecnologia, que é o sampler, nós fazíamos todo o tempo. Por mais que não tivéssemos um sampler, roubávamos fragmentos musicais. O mesmo acontecia com as letras, que eram fragmentos de diálogos de filmes misturados com outras coisas.

Além disso, o hip hop tem um desenvolvimento muito cinematográfico em suas músicas. Os rappers criam personagens, o músico de hip hop representa um papel, ao contrário do músico de rock ou do cantor-autor, que representa a si mesmo. Se você escuta uma canção do Eminem, percebe que há efeitos sonoros, trilha sonora, ação, personagens. É uma maneira totalmente distinta de ver a música, é outra linguagem. O que está vivo hoje, o que se desenvolve, cresce e tem a ver com a sociedade atual, a vida, as pessoas, é a música eletrônica. Não desmereço todo o resto. Não vai deixar de existir o violino e o quarteto de cordas, mas o estado de desenvolvimento da música vai em direção da eletrônica.

O que acontece é que às vezes se identifica a eletrônica com um gênero, mas não é exatamente assim, é uma maneira de gerar música. Por sua vez, esse modo de fazer música, essa nova tecnologia, faz surgir formas musicais novas. O rock and roll, por exemplo, não teria existido sem a guitarra elétrica. O som de Jimi Hendrix não teria existido sem a guitarra inventada por Leo Fender. Mas nem tudo o que se faz com a guitarra elétrica é rock. Quando comecei a fazer música eletrônica propriamente dita, ou seja, quando pude comprar um sampler e um computador, já estava muito impregnado desses conceitos. Nunca racionalizei isto. Mas de fato tenho poucas canções escritas no formato de canção tradicional. Eu me criei na linguagem de recortar e pegar.

MD - No ano passado o Bajofondo se apresentou no Brasil, antes de o projeto ser mais conhecido no país. O que você achou dos shows por aqui? Ha previsão de o Bajofondo voltar a tocar em solo brasileiro?
C - Foram dois shows bonitos. É muito bom tocar num lugar onde ninguém antes escutou tua música e que, no decorrer do show, vai assimilando a música e a estética. No segundo show do Sesc Pompéia [em São Paulo] as pessoas acabaram dançando bastante. Ficamos muito contentes. Pensamos em voltar ao Brasil na segunda metade de 2004 [N.E: Os shows no Brasil devem acontecer em novembro, segundo informação posterior].

MD - A integração musical na América Latina está crescendo? Na sua visão, qual papel o Brasil e seus músicos podem ter neste processo?
C - O Brasil é o polo mais forte quando se fala em música na América do Sul. Apesar disso, o protecionismo e o próprio tamanho gigante de seu mercado o levaram a viver olhando para si mesmo. Para mim é uma grande mudança os vizinhos começarem a se olhar mutuamente.

O Uruguai é um país muito pequeno e tem vivido olhando para o mundo. A influência da música brasileira na nossa é enorme. Também é a da Argentina e a do resto da América, especialmente a dos Estados Unidos. Mesmo assim, poucos músicos do Uruguai conseguiram ter repercussão no Brasil. Para mim é uma alegria enorme que Bajofondo e Eco [de Jorge Drexler] tenham sido lançados no Brasil.

Creio que está havendo uma grande abertura por parte do Brasil ao idioma espanhol. Talvez isso tenha a ver com a latinização dos Estados Unidos. De fato esses dois discos de artistas platinos entram no Brasil através de companhias internacionais com sede no Primeiro Mundo. É paradoxal: para chegar a São Paulo primeiro tive que ir a Miami, L.A. e Madri.

Assim funciona o mundo até agora, a maior parte dos produtos circulam numa estrada com sentido único. De Norte a Sul. Isso está mudando. Há alguns infiltrados. Eu sou um deles.

 

Entrevista: Giuliano Ventura

 

Imagens: www.campoweb.net