Matéria
Que líder
é esse?
Times de SC supreendem
e tiram estado do limbo do futebol nacional
Décima rodada do Campeonato Brasileiro
e aquela zona de sempre. Técnicos caindo a cada derrota em casa,
equipes vendendo seus melhores jogadores pra qualquer um que apareça
com um milhãozinho de dólares, estádios quase vazios.
Entre os três primeiros colocados, duas surpresas: Criciúma,
líder há três rodadas, à frente do São
Paulo no saldo de gols, e... Figueirense, que esteve na ponta da tabela
por duas rodadas consecutivas. O que aconteceu em Santa Catarina, outrora
um túmulo do futebol em âmbito nacional, para que seus
dois representantes começassem o campeonato de forma tão
incisiva?
Até
2002, comentaristas esportivos do estado louvavam como "grande
feito" a vitória do Figueirense no Brasileirão de
1975, contra o Bahia, em Salvador, que garantiu a vaga para a fase seguinte
do torneio. O Criciúma, campeão
invicto da Copa do Brasil em 1991, também não tinha
muito do que se orgulhar pelas campanhas no nacional. Ficou na primeira
divisão entre 1993 e 1997, muitas vezes lutando pra escapar do
rebaixamento. A melhor participação catarinense no Brasileirão,
até o momento, cabe ao Joinville, que terminou na oitava colocação
do bizarro campeonato de 1985 (aquele que teve o Coritiba campeão,
o Bangu como vice e o Brasil de Pelotas como terceiro colocado).
Até o início da década,
futebol em Santa Catarina era, no máximo, segunda divisão.
Criciúma, Figueirense, Joinville e Avaí disputavam a duras
penas a série B do Nacional, e poucos acreditavam na chegada
de algum destes até a primeirona. O feito aconteceu em 2001,
quando o Figueirense, comandado pelo "rei do acesso" Vagner
Benazzi (hoje treinador do Criciúma), levou o time do Estreito
ao vice-campeonato da série B e garantiu presença na Séria
A no ano seguinte. Esboçou-se naquele 2001 um "levante"
do futebol do Sul do país, com os títulos nacionais do
Grêmio (tetra na Copa do Brasil) e Atlético-PR (que bateu
o São Caetano na final do Campeonato Brasileiro). Em 2002, mais
um barriga-verde resolveu subir à Série A: depois de uma
boa campanha, o Criciúma derrota o Fortaleza em casa por 4 X
1 e vence a segundona. Ficou a dúvida: pela primeira vez desde
que o campeonato "desinchou" (conte desde os anos 80), dois
times catarinenses estavam na elite - até quando?
O Figueirense chegou todo prosa ao campeonato
de 2002. O presidente Paulo Prisco Paraíso (ex-secretário
da Fazenda do governo Paulo Afonso) fazia as contas para ficar no pelotão
de cima da classificação, mas o time demorou sete rodadas
para vencer uma partida (e quando aconteceu foi em Salvador, contra
o Bahia, outra vez) e era favorito ao rebaixamento. Não caiu
e ainda fez companhia ao Criciúma no ano passado. A campanha
do alvinegro em 2003 foi mediana, mas valeu uma vaga numa competição
internacional miguelenta (a tal Copa Sul-Americana, que está
para ser realizada no segundo semestre deste ano). Já o Criciúma,
no retorno à primeira divisão, começou valente
- chegou à metade do campeonato de 2003 em quinto lugar, disputando
com Inter e Coritiba uma vaga à Libertadores - mas faltou gás
no returno e terminou atrás do rival de Florianópolis.
Neste
ano, os dois times começaram com a macaca. Primeiro o Figueirense,
que venceu Inter, Atlético-PR e Santos e saltou para a liderança
isolada já na terceira rodada. Depois o Criciúma, que
não se abalou com a chicotada que tomou do São Caetano
(5 X 0 para o time do ABC) e devolveu com a maior goleada da competição
(7 X 2 sobre o Goiás). Para quem foi apontado pela Playboy
antes do campeonato como o pior time da competição, ao
lado do Paraná Clube, começar a 10ª. rodada à
frente de todo mundo não é nada mal. Só a torcida
não parece estar acreditando tanto assim na equipe. O Heriberto
Hülse - estádio do Tigre, que tem capacidade para 24 mil
pessoas - recebeu menos de sete mil torcedores, em média, por
jogo até agora.
A presença dos catarinenses na
zona de classificação para a Taça Libertadores
da América pode não durar o campeonato todo, mas os dois
"azarões" dificilmente verão seu plantel ser
desmanchado por clubes europeus em busca de reforços. O atual
campeão Cruzeiro vendeu o seu craque Alex para um clube turco
(Fenerbahçe) e logo, logo vai despachar o zagueiro Cris para
a Ucrânia. O São Paulo, ainda de ressaca pela perda da
Libertadores, já negociou o lateral Gustavo Nery para o Werder
Bremen e espera a confirmação do Porto para vender o atacante
Luís Fabiano. Sem falar nos artilheiros Vágner Love, Renato,
Christian e outros tantos. Os times que mantiverem a base ao longo das
46 rodadas provavelmente terão mais chance de brigar pelo título
ou pela vaga na Libertadores do que os favoritos de véspera (Atlético-MG,
Corinthians, Vasco, Grêmio) que estão sapateando pra evitar
o trauma do rebaixamento). E cuidado ao tirar sarro dos bagrinhos antes
da hora - num ano em que equipes de menor expressão vêm
desbancando clubes tradicionais (que o digam Werder Bremen, Valencia
e Once Caldas, por exemplo), ser Davi pode ser um bom negócio.
Fabrício Rodrigues