Matéria
O carteiro das
galáxias
Conheça a história
do ufólogo grego que transmite mensagens de ETs em Florianópolis
Quem
lê casualmente a relação dos pontos comerciais na
portaria do Edifício Pórtico, localizado na mais movimentada
rua do Centro de Florianópolis, a Felipe Schmidt, pode estranhar
encontrar ao lado das tradicionais salas de advogados, contadores e
cirurgiões dentistas a sigla Socex. O significado dela ajuda
a aumentar o espanto - Sociedade de Estudos Extraterrestres. Logo na
porta da sala 112 um desenho de cinco supostos alienígenas, com
um deles fazendo a famosa saudação com a mão direita
erguida em sinal de paz, recepciona aqueles que não agüentarem
de curiosidade. E lá dentro é o próprio presidente
e fundador da Sociedade, Eustáquio Anddréa Patounas, quem
explica o objetivo da Socex: "Levar a palavra dos irmãos
extraterrestres para todas as pessoas".
Patounas se mostra entusiasmado quando
começa a falar na mensagem desses irmãos que moram tão
longe. O ufólogo nasceu em 1951 na capital da Grécia -
o que torna bastante óbvio seu nome incomum e o apelido pelo
qual é conhecido entre os amigos, Grego -, e veio para o Brasil,
terra natal de seu pai, em 1954. Para Santa Catarina, estado onde mora
com a mulher e quatro filhos, Grego veio em fevereiro de 1988, segundo
ele seguindo orientações vindas lá de cima.
Sua missão, como diz, seria harmonizar
as três bases extraterrestres de Florianópolis (infelizmente,
ele não quis revelar ao repórter a localização
de tais locais). Grego criou a Socex no dia primeiro de agosto de 1991
em uma sala na Avenida Central do Kobrassol, na cidade de São
José, no mesmo lugar onde antes contava com uma loja de lingeries.
Desde então, ele que também já foi gerente de banco
e representante de vendas, dedica-se exclusivamente à causa da
Ufologia. Mudou-se para o Pórtico no final de 1994, ocupando
uma sala doada por um sócio de sua entidade.
A
primeira experiência ufológica de Grego foi aos 12 anos,
quando teria avistado um disco voador sobre sua casa, em São
Paulo. "Eu senti um bafo, um calorão, algo me impelindo
a olhar para cima". O que viu marcou o início de mais de
30 anos voltados ao estudo e divulgação de tudo que diga
respeito a extraterrestres. Aquele primeiro contato é o mais
simples dos cinco graus estudados pela Ufologia, o simples avistamento.
O quinto, e mais complexo, segundo informa o especialista, seria o implante
de um chip alienígena no cérebro de um terráqueo.
O presidente da Socex garante ter passado por tal experiência
em 1993 (infelizmente ele não fornece nenhuma prova física
do fato, como uma radiografia ou laudo médico). "Assim como
um poste leva luz até uma casa, o chip traz a mensagem da turma
lá de cima até mim", compara o ateniense.
As mensagens que chegam via chip dizem
respeito às transformações cósmicas que
o nosso pequeno planeta irá enfrentar. Falam de uma evolução
natural do estágio atual dos terráqueos, que o ufólogo
chama de terceira dimensão, para uma superior, no caso a quarta.
"Hoje em dia, estamos a meio caminho da quarta dimensão,
algo como uma terceira dimensão e meia. E essa é a última
oportunidade da geração atual avançar. Caso não
se aproveite, outra oportunidade só daqui a 75 mil anos",
calcula enquanto acende um cigarro ("um dos meus vícios
de terceira dimensão").
Mas o que significa essa tal evolução?
Grego manda um rapaz, que também está na pequena sala
comercial que serve de sede para a Socex, virar uma fita cassete que
toca sem parar música new age (aparentemente, gravada de um CD
brinde da revista esotérica Planeta), e começa
a apontar radicais mudanças no mundo como conhecemos. Para começar,
a idéia de coletividade substituirá o individualismo,
dispensaremos o uso do dinheiro e a paz chegará a todos os cantos
da Terra, da Bósnia ao Oriente Médio. Um exemplo que costuma
dar de povos extraterrenos de vida quadridimensional são os marcianos.
Sim, dentro do planeta vizinho, e não na superfície, existiriam
9 bilhões de seres, parecidos conosco, vivendo em uma sociedade
muito mais evoluída que a nossa e que constantemente faz contatos
com os terráqueos.
Quanto ao filme divulgado no final de
agosto de 1995, no qual se via pretensa autópsia em ETs capturados
pelo exército americano, o ufólogo ateniense afirma ser
documento autêntico. O único senão que levanta é
a possibilidade dos alienígenas do filmete não serem os
mesmos do famoso Caso Roswell, a queda do alegado óvni no deserto
do estado americano do Novo México, em 1947, como vem sendo dito.
Afinal, Grego diz conhecer notícias seguras de pelo menos mais
de 20 acidentes com naves espaciais, a grande maioria nos EUA. A divulgação
daquele filme como sendo dos seres do Caso Roswell poderia ser um erro
de avaliação, ou, desconfia Patounas, uma tentativa de
desacreditar o movimento ufológico mundial.
Polêmicas
à parte, o Caso Roswell e outros temas igualmente bombásticos,
como a experiência do brasileiro Osvaldo Oliveira Pedrosa, que
diz ter convivido uma semana com ETs, estão no Correio Extraterrestre,
um curioso jornal tablóide editado por Patounas. Para difundir
a filosofia dos alienígenas, ele até pensou em escrever
um livro, mas acabou optando pelo formato do boletim mensal. "Eu
precisaria de muito tempo para fazer um livro com todas as informações
que recolhemos. E depois, acabo alcançando muito mais pessoas
com o jornal e as palestras que dou por todo o Brasil", conta mostrando
orgulhosamente a pasta com dezenas de cartas de leitores do jornal.
São bastante inusitadas as pautas
que esses leitores têm acesso no tablóide da Socex. Na
edição de estréia, de agosto de 1995, o editorial
já fazia previsões sobre o futuro de nossa espécie:
"Temos informações que dos 6 bilhões de habitantes
do planeta [Terra], cerca de 10% apenas constituirão o novo homem".
No mês seguinte, uma matéria explicava a origem e a missão
dos portadores de síndrome de Down: "Vivem o tempo necessário
para guiar seus pais na busca do encontro com sua essência, e
retornam ao seu planeta de nome ALDEYAT [as maiúsculas são
do original]". Mas foi no número de novembro daquele ano
que, provavelmente, o jornal trouxe seu maior furo, quando um ET definiu
para o já citado Osvaldo Pedrosa ninguém menos que Deus:
"Uma reta isotrópica vibrando em todas as direções
num ângulo de 90o, e tem a propriedade de se difundir para todo
o Universo".
O Correio Extraterrestre é
distribuído gratuitamente, a publicidade que circula no tablóide
mal paga a tiragem de 3 mil exemplares. Para dar suas palestras, Grego
cobra apenas 1 kg de alimento de cada ouvinte, para ser distribuído
a campanhas contra a fome. Cada vez menos pessoas estão dispostas
a pagar os R$ 10 de mensalidade à Socex. Tudo isso levou a algumas
crises financeiras, com direito a luz cortada e a ficar 17 meses sem
pagar o colégio dos filhos. Inevitavelmente, a família
reclamou. Porém Eustáquio Patounas encara os contratempos
como provação e assegura que nas horas mais difíceis
sempre aparece um jeito de ganhar dinheiro, "é como ter
conta num banco cósmico". Quanto à família,
o entusiasmo dele é tanto que garante o apoio. Seu filho mais
velho, Eduardo, de 17 anos, começou a ajudá-lo na Socex
(foi o garoto quem virou a tal fita com sons de baleias e ruídos
de cachoeiras).
Apesar das reclamações de
falta de participação dos associados, a Sociedade de Estudos
Extraterrestres está crescendo. Grego investe R$ 700 em modificações
na sede, sempre seguindo um projeto determinado "pela turma lá
de cima". Além de substituir as lâmpadas fluorescentes
por incandescentes, para "manter a freqüência do lugar
em harmonia", uma saleta próxima ao banheiro será
isolada para sessões de "energização sem interferência
humana". E as mudanças não param por aí, pois
a Socex deve abrir filiais em quatro cidades. Há propostas de
Blumenau (SC), Cascavel (PR), Ribeirão Preto (SP) e Alto Paraíso
(GO).
Romeu Martins
P.S.:
O Perfil acima foi publicado em dezembro de 1995. No ano seguinte, que
ficou marcado pelo caso do "ET de Varginha", foi feita uma
segunda matéria, em março, sobre a onda de avistamentos
de supostos discos voadores por todo o país, incluindo aí
a cidade catarinense de Joaçaba. Na ocasião, foi registrado
o parecer de Eustáquio Patounas sobre o caso local: "Os
seres são oriundos de Arcturus, na constelação
perto de Sirius, e sua tarefa é ancorar uma nova energia propícia
para as mudanças a nível vibracional, e para encorajar
ações para transmutação de valores espirituais".
Depois disso, por alguma razão que só ele conhece, o ufólogo
grego passou a se recusar a dar qualquer entrevista a mim ou a outros
jornalistas que diziam me conhecer. No começo de 2004, o ateninense
voltou à mídia catarinense, em matérias de jornais
e de TV, anunciando novos cursos para os interessados em aprimorar suas
capacidades de avistar objetos voadores não-identificados pelos
céus de Florianópolis.
Originalmente publicado na edição
nº 6 - Ano XIII - do Jornal Laboratório Zero