Matéria
Os crucificados
pelo sistema descobrem seu mentor
Chuck
Palahniuk fala sobre os assuntos que ninguém tem coragem de conversar
Um
certo dia Chuck Palahniuk foi abordado por um rapaz que disse ter adorado
o jeito que ele descreveu os garçons mexendo com a comida antes
de servir, no Clube da Luta. O cara contou a ele que trabalhava
num restaurante cinco estrelas e que lá eles sacaneavam os pratos
das celebridades o tempo todo. Margaret Thatcher, disse
ele, comeu o meu esperma. E mostrando a mão aberta,
completou, pelo menos cinco vezes.
A história acima foi contada por
Chuck em um artigo onde ele analisa o comportamento humano à
luz de Kierkegaard e chega à conclusão de que as pessoas
não vão deixar de fazer alguma coisa só porque
é ilegal ou moralmente repreensível. Basta descobrirem
que alguma coisa é possível para começarem a fazê-la.
Em seus livros Chuck faz exatamente isso:
levanta o tapete para debaixo do qual todo mundo varreu seus atos mais
sórdidos e deploráveis. Fala sobre assuntos que ninguém
tem coragem de conversar. E assim demonstra serem possíveis coisas
que muita gente nunca imaginou.
Segundo Kierkegaard, analisa Palahniuk,
cada vez que percebemos que algo é possível, fazemos isso
acontecer. Transformamos essa possibilidade em algo inevitável.
Até Stephen King ter escrito sobre assassinatos nas escolas,
ninguém falava sobre isso, diz ele no mesmo artigo. Mas
foram Carrie e Rage que tornaram isso inevitável?,
questiona. Mesmo sem ninguém ter escrito sobre isso, o imbecil
do maníaco do shopping viu que dava pra sair atirando
no cinema. E foi isso que ele fez.
A
cada dia comprovamos que tem sempre algum maluco que vai fazer alguma
loucura que o cara escreveu. Mas é realmente culpa do escritor
ter revelado às pessoas fatos que muita gente já sabia
por baixo dos panos? Figurões de Hollywood contaram a ele que
em seus tempos de projecionistas nos cinemas faziam igualzinho ao que
foi mostrado no Clube da Luta. Intercalavam quadros de putaria
no meio de filmes para a família.
E os livros dele são recheados
do começo ao fim com esse tipo de coisa. No Brasil, quem buscar
livros de Palahniuk vai encontrar somente o Clube da Luta, Sobrevivente
e Cantiga de Ninar. Os outros três não foram traduzidos
ainda, mas vão virar filme e já estão sendo produzidos.
São eles Invisible Monsters, que vai ser dirigido por
Jesse Peyronel e produzido pela Miramax; Choke, a ser produzido
pela Bandeira Entertainment, de Réquiem para um Sonho;
e Diary, o menos adiantado de todos, que está na mão
da Dreamworks.
Quem
lê em inglês pode se contentar com Guts, um conto
sobre técnicas de masturbação que dão
errado e que não é recomendado para os fracos de estômago
(Leia o conto aqui). Foi lendo este conto
- um capítulo de seu próximo livro para platéias
nos Estados Unidos, que ele fez mais de 40 pessoas desmaiarem ou passarem
mal. Se você é impressionável não leia. Ou
pelo menos deixe pra ler bem depois da hora do almoço.
Guts representa bem aquele tipo de coisa
que acontece todo dia, mas que as pessoas sempre varrem pra debaixo
do tapete. É o tipo de coisa que os jornais não publicam
pra evitar cópias, equivale aos suicídios que a TV não
mostra por temer aumentar sua ocorrência. É a especialidade
de Chuck Palahniuk. São as receitas de bombas caseiras, a fórmula
para limpar sangue humano do tapete, idéias para os terroristas
anti-globalização, assoar o nariz nos hambúrgueres
dos outros e perversões sexuais mórbidas. É o que
o gigantesco séquito de fãs dele adora e é o que
ele vai continuar fazendo, mesmo que alguém resolva usar seus
livros como manuais práticos.
Pedro Valente