Entrevista

Tô te confundindo pra te esclarecer
Tom Zé era bomba que não ia dar chabu, por isso tentaram deixá-lo esquecido. Não conseguiram, agora agüentem

Aos 67 anos, Tom Zé continua saltador, mesmo após os problemas de saúdeTalvez você seja da turma que acha que Tom Zé não pode ser considerado um grande nome da MPB por nunca ter feito o mesmo sucesso de Caetano Veloso (o novo amigo de Kurt Cobain), de nosso atual ministro regueiro ou de sua ex-namorada Gal Costa. Ou talvez você seja um daqueles indies com vontade de ter nascido em San Francisco e faz careta para qualquer som brasileiro - ou seja, um legítimo portador do "complexo de vira-lata", tão bem definido por Nelson Rodrigues. Se você se enquadrada em quaisquer das categorias citadas acima, faça um favor a si mesmo e pare por aqui. O que Tom Zé tem para dizer não vai lhe interessar de forma alguma.

Do contrário, pense um pouco: quantos figurões saídos da Bahia nos anos 60 ainda fazem música relevante, têm moral no exterior sem abrir as pernas para os gringos e, ainda por cima, estão longe do estrelismo a ponto de aceitar dar entrevista para um e-zine desconhecido? Se você tem alguma dúvida de que Tom Zé está sozinho nesse conjunto, acrescente mais um item: que não é da turma do ACM. Pronto. Não restou mais ninguém.

O baiano de Irará veio a Florianópolis para apresentar no dia 14 de maio o show de seu último disco, Imprensa Cantada, de 2003. Entre canções de protesto contra George Bush e a guerra do Iraque, a exploração do Terceiro Mundo e a mediocridade musical em geral, sobrou muita conversa com a platéia que lotou o teatro do Centro Integrado de Cultura (CIC). O repertório com favoritas do público como "Parque Industrial", "Defeito 3: Politicar" e "Dois Mil e Um" foi temperado com inovações percussivas (de jornal do dia a esmeril). Como de costume, Tom Zé mostrou uma vitalidade rara para alguém com 67 anos. Depois do "susto" no coração que tomou há dois anos após uma apresentação no Abril Pro Rock, em Recife, é impressionante vê-lo pular e cantar com vigor durante quase duas horas no palco - tanto que fica até estranho tratá-lo por "senhor", apesar da idade.

Um dia antes do show no CIC, Tom Zé teve uma noite de autógrafos de seu livro Tropicalista Lenta Luta no Mecenas Bar e conversou com os repórteres do Marca Diabo. Tratando todo mundo como se fosse velho conhecido, foi gente boa e paciente para saciar os malas caçadores de autógrafos e atender os malas caçadores de entrevistas.

 

Marca Diabo - Como você está de saúde?
Tom Zé - É claro que eu tenho 67 anos e principalmente eu, que na juventude fiz muita maluquice - nem me gabo disso, foi uma falta de juízo, mas fez parte dessas dificuldades, dessa maneira de eu viver minhas dificuldades. Mas agora eu estou com a saúde muito boa, porque eu faço ginástica diariamente, tai-chi. E quanto ao coração, na hora que eu tive o problema que entupiu a veia, eu estava junto de um dos maiores hospitais do país, que é o hospital lá de Recife. É um super-hospital do coração. Tanto que, por acaso, eu peguei a ambulância, o rapazinho perguntou: "você quer a ambulância?". Eu disse "quero", só que eu não sabia o que eu tinha. Quando eu cheguei no hospital a moça botou a mão no meu peito e disse "não se mova mais". Meia hora depois eles botaram o cateter pela minha perna para desentupir a veia. É maravilhoso, né? Puta que o pariu!

MD - Pode fazer nos shows o mesmo de antes?
TZ - Eu posso fazer tudo. Correr, pular, tudo.

Shönberg, aquele que Tom Zé misturou com CarnavalMD - Você está voltando de duas apresentações na Alemanha. Como foi a recepção por lá?
TZ - Porra, bicho, superlotado, maior auê na imprensa, nossa, foi uma verdadeira festa. Foi ótimo. A imprensa fala muito "é hoje que vai ter [o compositor de vanguarda austríaco Arnold] Shönberg misturado com Carnaval?"

MD - Você tem formação erudita mas enveredou pela música popular. Como foi essa transição?
TZ - Na verdade, eu antes fazia música popular. Um belo dia, o pessoal do CPC, o Centro Popular de Cultura, que fazia aqueles espetáculos para a praça estudantil antes da ditadura, me instou a ir estudar música. Eu, como tinha vontade de estudar música erudita, entrei numa escola de música, que era uma coisa rara no mundo. Um cometa que de vez em quando passa num sistema solar. Uma superescola de música, localizada na Bahia, Koelreutter: importância crucial na moderna música brasileiranum estado pobre, num país pobre. Uma das melhores escolas do mundo naquele momento, que [o maestro alemão Hans Joachim] Koellreutter e toda a sua turma mantinham lá na Bahia. Então eu tive essa felicidade, num país pobre, com gente passando fome, de estudar numa escola muito boa, superexigente, super-rigorosa. E nós éramos apaixonados. A gente passava o dia e a noite na escola, minha turma. Durante seis anos nós comíamos e dormíamos lá dentro.

Esses alemães largaram uma Europa educada - vê o que tá na cabeça desse povo, Koellreutter, [Ernst] Widmer. Deixaram a Europa educada pra vir pra cá ensinar analfabetos. Quando um jovem chega aos 18 anos na Europa, ele tem a iniciação musical absolutamente sossegada. Ele tocou flauta bloch [flauta doce] lá no curso primário, aprendeu a solfejar como se fosse datilografia ou ligar a internet. Aqui não, nós chegávamos lá adultos, sem saber onde botar o dó.

Widmer, outro dos alemães doidos que foram parar na BahiaA nós que essas pessoas dedicaram grande parte de suas vidas. E não se arrependeram. O próprio Koellreutter me disse. Por acaso, porque eu nunca tive a ousadia de levar coisa minha para o Koellreutter ouvir. Quando saí pra fazer música popular, achei que aquilo era outro mundo. Um dia, uma moça que fez um filme sobre a minha vida, a Carla Gallo, uma menina lá de São Paulo, muito competente, ela disse que ia mostrar pro Koelreutter uma música minha. Eu disse "pelo amor de Deus, não vá aborrecer o professor". Aí ela mostrou o disco todo, o The Best of Tom Zé. Koellreutter disse que não dormiu por causa do disco. Eu nunca esperava isso. Eu esperava que ele fosse dizer "isso é uma porcaria". (Assista ao depoimento de Koellreutter aqui )

MD - No seu último disco, Imprensa Cantada, nota-se uma grande preocupação com os acontecimentos atuais no mundo e no Brasil. Por que o pessoal da sua geração não se importa com isso tanto quanto você?
Tom Zé entre Rita Lee e o maestro Julio Medaglia no Festival da Record de 68, do qual saiu vencedorTZ - Ah, já sei a resposta. Porque eu tinha deficiências e eles têm qualidades. São minhas deficiências que me fizeram fazer o que eu faço. Eles com qualidades, puderam fazer música contemplativa, puderam se olhar no espelho e ficarem admirados. Eu não posso nem fazer música contemplativa nem ficar admirado me olhando no espelho, porque eu sou um péssimo músico, um péssimo compositor, um péssimo cantor, então eu tive que fazer o que ninguém faz. Eu fui obrigado, por causa das minhas deficiências. São às minhas deficiências que eu devo o que eu sou. E é interessante isso, porque todo o jovem na hora que vai iniciar a carreira ele tem a impressão que tem deficiência. Muitas vezes isso é real, muitas vezes isso é bom. Porque justamente para o mundo o aceitar, ele vai ter que trilhar uma nova estrada, que dá forma a uma nova visão de mundo. Fazer uma nova configuração daquela malha de relações do primeiro grau, matéria da qual se fazem os protótipos, arquétipos.

MD - Você teve um período longo de esquecimento, até o "resgate" feito pelo David Byrne. Há mais algum músico importante hoje na mesma situação em que você esteve?
Luiz Tatit é bomba que não vai dar chabu, promete Tom ZéTZ - Belo assunto levantado. Eu conheço em São Paulo um superartista que ninguém liga. Mas não é da minha geração, é Luiz Tatit. Se você botar Luiz Tatit pra cantar agora, a platéia vira torcida. É como se o Avaí ou o Criciúma estivessem jogando. Luiz Tatit é fogo. E as pessoas grandes não falam dele porque têm medo. Realmente as pessoas grandes não falam de ninguém que possa ser maior do que eles. Só falam de bomba que vai dar chabu. Esse foi meu problema. Porque nego sabia que eu era bomba que não ia dar chabu. Luiz Tatit a mesma coisa. Os grandes não falam dele porque sabem que não vai dar chabu. É essa coisa natural. Na história da música, teve uma história assim, parece que foi Brahms, um desses caras que encontrou um artista na mesma ocasião e protegeu esse artista sabendo que quando esse artista crescesse ele ia ficar na sombra. E aconteceu isso mesmo.

MD - Neste mesmo local [Mecenas Bar, em Florianópolis] nós vimos um show do Mombojó ontem, uma gurizada de Recife. Eles parecem ter uma conexão com o seu trabalho. Em quais outros artista novos você perceba essa conexão?
TZ - Eu conheço o Mombojó. Olha, ali no Recife tem uma coisa admirável que é a semente que o rapaz que morreu, o Chico Science, botou. Aquele espermatozóide supercapaz de inseminar já duas gerações, todas fogosamente seguindo no rastro do que ele fez. O artista é assim, ele inspira a geração toda, não é? Ele ajuda as pessoas a ter fé. Isso é que é ser artista. E hoje é claro, é uma alegria estar aqui com vocês, que ao mesmo tempo eu sou um avô de vocês, com 67 anos e ao mesmo tempo sou um moleque como vocês. Então é uma vida dupla, como se eu fosse um Dr. Jeckyll.

MD - E a crise na indústria fonográfica? Você sempre viveu meio à margem dela, mas há 20 ou 30 anos eles ainda investiam em carreiras a longo prazo. O que você acha do atual estado das coisas?
TZ - É, parece que vai virar de pernas pra cima, a gente não sabe direito. Agora até uma pessoa do sucesso de discos, a Zélia Duncan, lançou um disco independente, sem necessidade. A gravadora continua com ela. Ela decidiu fazer um disco diferente, a gravadora ficou meio assim, ela decidiu gravar independente. Um disco de sambas onde ela gravou uma música minha, "Tô". Então parece que de vez em quando o mundo vira de pernas por ar, né? Um dia parecia que Roma era eterna, não é? O Império Romano parecia eterno. O império de Nabucodonossor também. O Egito dos faraós era eterno. Os Estados Unidos também parecem eternos, né? Mas é claro que nada é eterno. Tem uma coisa gozada, quando [Thomas] Edison inventou o toca-discos - que é sobre o que nós estamos conversando agora, tudo isso existe por causa do Edison - o regente de origem portuguesa [John] Phillip Souza foi lá assistir uma exposição e viu o fonógrafo. Ele fez um comentário gozado, ele disse assim: "esse aparelho vai esvaziar o pulmão da nação". Muito bem, você pode interpretar isso de várias maneiras. O fato é que esse aparelho se transformou numa indústria, fez heróis, distraiu gerações e gerações e parece que agora vai ter outra revolução, a revolução do MP3. Ninguém sabe. Agora você imagine, as pessoas que vivem dessas grandes potências de gravadoras o que devem sentir agora, o medo que têm. Mas o mundo é assim.

 

Entrevista: Gabriel Rocha e Giuliano Ventura

 

Imagens: www.tomze.com.br