Matéria
Como ser expulso
da Sala de Justiça
Mais
exemplos da teoria e prática de Ariel Dorfman e seus amigos do
peito
"Esta
edição foi feita baseada nos rascunhos que a dupla dinâmica
de autores conseguiu salvar e que fez passar através da Cordilheira
dos Andes por uma passagem secreta". A afirmação
descreve parte da aventura editorial promovida para salvar um livro
da intolerância ideológica de uma ditadura, que, como é
o hábito desse tipo de regime, se impõe acabando com as
liberdades alheias. A frase está no prólogo escrito por
Ariel Dorfman para o livro em questão, Super-Homem e Seus
Amigos do Peito, de autoria dele em parceria com Manuel Jofré.
O motivo que fez ser necessária a operação de salvamento
dos manuscritos foi o golpe de estado cometido no país natal
dos escritores, o Chile, em 11 de setembro de 1973. Apenas quatro dias
depois da morte do presidente eleito Salvador Allende e da posse do
general e genocida Augusto Pinochet, homens da força aérea
chilena tomaram de assalto a Tipografia Roda, na capital do país.
Lá os soldados empastelaram a gráfica, derreteram e confiscaram
o chumbo utilizado na composição dos tipos de impressão
e apreenderam os originais de diversas obras, entre elas os cerca de
5 mil exemplares em fase de acabamento do livro da "dupla dinâmica"
na época intitulado Documentos Secretos Sobre a Vida Íntima
de Super-Homem e Seus Companheiros D'Alma. Felizmente foi possível
salvar os manuscritos, que acabaram dando forma ao livro impresso no
ano seguinte (e que ganhou edição brasileira pela Paz
e Terra em 1978) para servir de testemunho contra mais aquela arbitrariedade
de Pinochet.
Só que, infelizmente, Super-Homem
e Seus Amigos do Peito não é só testemunho
da intolerância e arbitrariedade sofridas por seus autores, mas
também por aquelas cometidas pela "dupla dinâmica",
mas sobre isso falaremos mais tarde.
O Ariel Dorfman do qual falamos é
o mesmo co-autor do controverso Para Ler o Pato Donald, já
comentado aqui. Naquele primeiro livro, de 1971, muito mais famoso que
este, Dorfman e seu colega Armand Mattelart escolheram como alvo de
sua análise crítica os personagens criados por Walt Disney,
considerados muito mais perigosos que os super-heróis, como Batman,
Super-Homem e Zorro. Passados dois anos, o diagnóstico de periculosidade
se inverteu, como o intelectual contou no mesmo prólogo: "Assim
como o Pato Donald, que havia sido um inimigo considerável, durante
1971 e 1972, daquele momento em diante, pressentíamos que era
o Super-Homem quem passaria a ser o mais perigoso". Curiosamente,
apesar da citação deste personagem como alvo prioritário,
a começar pelo título do livro, Super-Homem e Seus
Amigos do Peito não trata especificamente da mais famosa
criação de Jerry Siegel e Joe Shuster, considerado o paradigma
de todo o gênero das HQs de superseres. O livro de 1973 pode ser
dividido em duas partes. Na primeira, o próprio Dorfman faz um
ensaio teórico sobre um personagem que, a rigor, não pertence
a tal gênero, Lone Ranger (Cavaleiro Solitário), um caubói
criado em 1932 (portanto seis anos antes do Super-Homem) para estrelar
programas de rádio e que acabou ganhando gibi, que ao contrário
do Brasil, fez sucesso nos EUA e em alguns países da América
Latina. A segunda parte, de autoria de Manuel Jofré, representa
um relatório de atividades práticas que o chamado "grupo
chileno" estava desenvolvendo em relação aos quadrinhos
durante o abortado governo socialista de Allende.
Lone
Ranger foi incorretamente traduzido no Brasil, ou melhor, foi confundido
mesmo, com outro personagem, o Zorro , propriedade da Disney e famoso
por aqui por um seriado de TV, o que causa bastante confusão
quando se fala neles. Em comum, os dois justiceiros tinham apenas a
ambientação histórica de suas aventuras, nos EUA
do século XIX, e uma máscara tipo Robin cobrindo a cara.
Lone Ranger é um texano que monta o cavalo Silver, é ajudado
por um índio, conhecido como Tonto, e tem armas que disparam
balas de prata nos bandidos; o verdadeiro Zorro é da Califórnia
(do tempo em que aquelas terras pertenciam ao México), inimigo
do Sargento Garcia, auxiliado por um criado, mudo, chamado Bernardo
e usa uma espada para marcar seus adversários com um Z. De maneira
bem parecida com o que fez com os patos Disney, Dorfman analisou teoricamente
a ideologia por trás das HQs do Lone Ranger. Sempre com o viés
marxista, o autor aponta as motivações, a ideologia, o
porquê da máscara, o uso da violência etc. O resultado
é uma galeria de frases fortes como esta, da pág. 36:
"Cada episódio de Zorro (e cada aventura em cada revista
subliterária) é um ato de omissão, um silêncio,
um livro de história com todas as páginas em branco e
com tinta invisível. Projeta-se reiteradamente, e desde a mais
tenra idade, uma visão do templo do passado que limpa a violência,
que apaga os conquistados, a luta que se estabeleceu, o sangue que mancha
cada precipício e rocha do vale, cada máquina fotográfica
do turista, este turista que visita o vale como o leitor visita a revista
do Zorro [Lone Ranger]".
Ou esta outra, da pág. 48:
"O objetivo inconsciente da literatura de massas é, portanto,
capacitar o leitor ideologicamente para que interprete seus incessantes
problemas reais desde um ponto de vista e desde uma possível
solução predeterminada e preconceituosa, desde a ideologia
da classe economicamente dominante".
Ou, ainda, esta da pág. 65:
"Portanto, o que a subliteratura trata de fazer é que tanto
dominadores como dominados careçam de consciência real
quando defrontados com sua crise".
Enfim, seria relativamente simples fazer
uma coletânea das frases de efeito de autoria de Dorfman e contra-argumentar.
Mas seria também repetir o que já fizemos aqui no texto
"Como Ser Expulso de Patópolis".
Para rebater o estilo empregado pelo intelectual, podemos usar o prefácio
da edição brasileira do livro, escrito pelo também
pesquisador, e autor de livros sobre quadrinhos, Orlando Miranda. Mesmo
vendo com simpatia o trabalho dos chilenos, enfatizando o pioneirismo
da experiência de propostas alternativas ao grande esquemão
de entretenimento, o prefaciador não pôde se negar a analisar
a precariedade das idéias reunidas por eles. "Claro, pelas
próprias circunstâncias de seu advento, não se poderia
esperar que a característica marcante do 'grupo chileno' fosse
a riqueza teórica, ou mesmo a originalidade da análise",
aponta Miranda e mais à frente completa: "Obviamente, e
à luz de contribuições metodológicas mais
recentes, se poderia acusar tal modelo de análise de recair em
uma simplificação banalizadora. E de fato, desde um ponto
de vista teórico, elas são vítimas de um esquematismo
empobrecedor". Para ser mais explícito, Miranda apontou
algumas das falhas da metodologia daquele pessoal: "Ela toma como
estático o que é dinâmico (já que o universo
das estorietas pode apresentar uma transformação constante),
apresenta como unívoco o que é múltiplo (desde
que o significado das estorietas não é dado por um 'gênio
criador', mas por um processo capitalista de produção
que incorpora as contradições inerentes às relações
produtivas), e supõe o consumidor como uma massa acrítica
e desprotegida". Em nome da precisão, é necessário
dizer que nessa última análise, o prefaciador se referia
ao livro de 1971, ele parecia acreditar que houve uma evolução
em Dorfman e seus amigos do peito, algo que discordo muito.
Existe um outro ponto em Super-Homem
e Seus Amigos do Peito que merece ser destacado, ainda mais que
pode passar despercebido em uma leitura mais rápida. Quando falamos
do outro livro do grupo, Para Ler o Pato Donald, comentamos as
semelhanças entre aquela obra e Seduction of the Innocent,
de autoria do psiquiatra ultraconservador Fredric Wertham. A conexão
fica de fato estabelecida em um comentário de Dorfman, na pág.
58, sobre o uso de identidades secretas pelos super-heróis, o
emprego
da violência e a capacidade de escapismo do tema, que remete a
uma nota justamente sobre aquele livro da década de 50. Se Ariel
Dorfman tivesse feito um trabalho de pesquisa mais sério, saberia
que muito dos problemas que ele identifica na produção
de quadrinhos americanos deriva da influência nefasta da obra
daquele psiquiatra alemão.
As preocupações básicas
de Wertham eram as insinuações sexuais e as citações
de crimes e de violência nas HQs, mas suas acusações,
em pleno período do macarthismo, causaram muitos outros estragos
aos comics, diminuindo muito o espaço para qualquer tipo de crítica
social. De maneira talvez ainda mais forte do que ocorreu com o cinema
daquele país, os quadrinhos dos EUA enfrentaram um processo de
autocensura explícito que prejudicou de forma drástica
o trabalho de gente como Harvey Kurtzman e Will Eisner, sobrando material
pasteurizado como aquele que Dorfman tomou como sendo a totalidade da
mídia. Mas, já foi dito, o rigor intelectual não
era a marca dessas pessoas, e fazer pesquisa séria dá
muito trabalho. Para Ler o Pato Donald foi baseado na leitura
de apenas 100 revistas Disney e em seu texto para Super-Homem e Seus
Amigos do Peito o material de pesquisa foi ainda mais raquítico,
já que apenas uma história de Lone Ranger serviu de eixo
para a análise em tom definitivo. Resumindo, o autor para diminuir
o valor dos quadrinhos sempre classifica o gênero como subliteratura
(não entendo porque não sub-artes plásticas). É
direito dele, mas eu diria que por trás de todos os jargões
sociológicos que empregava, era Dorfman quem produzia um subgênero,
no caso, a pseudociência.
Na
prática - Passada a teoria da primeira parte do livro, é
na segunda que podemos ver o que o "grupo chileno" fez de
prático. "As Histórias em Quadrinhos e suas Transformações"
é o nome do relatório de autoria de Manuel Jofré
sobre as atividades da antiga Empresa Zig-Zag Companía Limitada
que, estatizada, tornou-se a Editora Nacional Quimantu. Mas antes precisamos
voltar a falar um pouco de, digamos, teoria, já que as opiniões
de Jofré sobre HQs que abrem o relatório precisam ser
citadas. Poucas vezes se viu tamanho ódio e desprezo destilados
contra uma forma de comunicação. Para começar,
na página 90, descobrimos que "os quadrinhos transformam
qualquer leitor numa criança, no sentido de que não exige
exercício intelectual reflexivo nem crítico". E,
na página seguinte, que "a primitiva história em
quadrinhos tradicional burguesa não se propões nenhum
objetivo a não ser o de divertir (...) Por isso, os quadrinhos
surgem como mais um meio de defesa do sistema burguês, como um
novo elemento que assegura a sobrevivência de um sistema social
degradante. Os quadrinhos não devem falar, não devem mostrar
o que a sociedade é". Na página 92, podemos entender
o que o autor compreende por entretenimento: "Entreter é
distrair, é permitir a evasão (..) E essa felicidade se
faz concreta na possibilidade de uma história em quadrinhos,
que o entretém [ao leitor, trabalhador explorado], que o diverte
com um riso que não é mais que o sintoma de uma doença.
Assim, da mesma forma com que se aproxima do álcool, lê
uma história que não falará dele, nem de seus vizinhos,
mas falará do oeste, da selva, dos detetives, das guerras, de
um mundo de animais etc. (...) E se o trabalho, que é a atividade
humana fundamental , não está autenticamente realizada
no homem, como pode haver realização humana numa atividade
tão mínima como ler histórias em quadrinhos? (...)
A situação é cristalina: se o homem sofre com o
trabalho, por que tem de ter prazer com os quadrinhos?".
Depois da malhação contra
a idéia de se divertir com a leitura de HQs, o autor começa
uma longa série de metáforas bélicas, na página
93: "É preciso desmontar a arma para aprender a usá-la.
Ver as peças, o mecanismo funcionando, apontar o assassino. É
preciso mostrar quais são os instrumentos portadores de ideologia
burguesa que matam os homens. É preciso tomar a arma que nos
mata. Os meios de comunicação são uma arma. Mas
o uso que fazemos dela não é para matar, mas para defender.
Porque nossas armas são outras. A verdade, a liberdade, a realização
humana, o tudo em todos, a unidade dos seres humanos. No socialismo
não existirão armas. No socialismo não haverá
homicídios. No socialismo não existirão homens
que matem outros homens, nem com trabalho nem com nenhuma arma.
Porque
não haverá balas nem armas, não haverá quadrinhos
nem capital. Não haverá falsas riquezas". Bem...
evitando falar sobre a parte final desta argumentação,
que se aproxima perigosamente demais do fanatismo religioso para se
comentar, vamos ver como o grupo desmontou a arma dos quadrinhos para
tentar entender o funcionamento do mecanismo.
O período de abrangência
do relatório de Jofré vai de maio de 1971, quando estatizaram
a editora, até maio de 1972, o momento em que o texto foi escrito.
Em setembro de 1973, como se sabe, a experiência socialista no
Chile chegou ao fim e com ela a produção de HQs socializadas.
Seja como for, apesar da redação confusa do autor, que
fazia parte da equipe de Coordenação e Avaliação
das Histórias em Quadrinhos da Editora Nacional Quimantu e que
participou de um seminário organizado por Dorfman ("Subliteratura
e Como Combatê-la") e outro dirigido por Mattelart ("A
Cultura de Massas e a Revolução Socialista"), dá
para se ter uma idéia das transformações a que
eles submeteram a "primitiva história em quadrinhos tradicional
burguesa". Uma coisa que parece ter sido positiva foram as novas
séries criadas a partir daquela experiência (leia mais
detalhes aqui). Manuel Rodríguez era sobre um combatente
da independência chilena; Os Cinco de La Aurora: Valentia Trabalhista
contava a história da tripulação de um barco pesqueiro;
CONU narrava as aventuras de uma agência de segurança
fictícia, o Comando Operacional Nacional Unido; e El Manque,
a favorita de Jofré, era sobre um camponês chileno que
denunciava a exploração dos latifundiários do país.
É uma pena que os autores do livro não tenham incluído
nenhum anexo de tais HQs ideologicamente corretas em sua obra, limitando-se
a fazer resumos das tramas e descrições vagas das ilustrações.
Seria muito interessante conhecer em primeira mão este trabalho
prático dos chilenos. Se alguém souber como fazer para
ter contato com algum material da época, por favor, entre em
contato (marca_diabo@yahoo.com).
Mas
o problema verdadeiro daquele modelo estava no modo como tratava os
quadrinhos estrangeiros anteriormente publicados pela editora Zig-Zag.
Resumindo o detalhado esquema narrado por Jofré, na primeira
fase selecionava-se os episódios "eliminando-se os de conteúdo
ideológico mais forte" (página 141). Depois desse
exame mais superficial, fazia-se uma "leitura ideológica"
do material, algo que no fim "permitia o encarregado desta tarefa
procurar as possíveis formas de alterar, neutralizar e humanizar
esta carga ideológica". Isso era só o começo,
pois a partir daí vinha a etapa de "modificação
do roteiro". Segundo o autor, resumindo de um esquema com um total
de oito pontos, estas eram as medidas gerais aplicadas com mais freqüência:
1. Sugeria-se a negação
dos quadrinhos mais negativos, mais violentos, mais ideologicamente
fortes;
2. Eliminavam-se legendas ou diálogos que se referiam a grupos
como sendo formados por loucos, bobos ou imbecis ou ainda os que incluíam
alusões morais mais fortes (no exemplo dado: "o que os personagens
ingleses e franceses dizem a respeito dos alemães");
3. Mudavam-se expressões como fatídico, pressentimento,
culpa, imortal, mistério, fantasmagórico, demônio,
espectro, macabro etc.;
4. Neutralizava-se, na medida do possível, ou se eliminava a
figura do super-herói.
Bem,
não posso tentar adivinhar o nome que o eventual leitor dá
a atitudes como essas, mas para mim, particularmente, não passa
de censura, intolerância e arbitrariedade. Vale lembrar que abrimos
este texto com a justa indignação de Ariel Dorfman, no
prefácio do livro, condenando o empastelamento da gráfica
de Santiago pelos soldados chilenos. Mas há mesmo muita diferença
entre aquele ato de violência e o patrulhamento ideológico
cometido contra os quadrinhos estrangeiros? E qual a diferença
entre as medidas gerais aplicadas no Chile e os cortes promovidos pelas
tantas ditaduras direitistas da América Latina em jornais, livros,
revistas, filmes, novelas, peças de teatro, discos, shows etc.
etc. etc.? Alguém pode dizer que o "grupo chileno"
era movido em seus atos pelas mais nobres e sinceras motivações
progressistas, mas também se pode argumentar que as intenções
por trás dos 100 mil que marcharam pela família e por
Deus no Brasil na década de 60 também eram nobres e sinceras,
mesmo tendo aquilo acabado por incentivar uma ditadura de longos 21
anos. Não se pode duvidar que havia sentimentos legítimos
na população alemã, durante os anos 30, em seus
levantes contra as pessoas que ela via como sendo seus exploradores,
donas de todos os capitais, apesar disso ter degenerado no Holocausto
e na maior guerra que este mundo já viu. E assim vai, todos têm
uma boa razão para desejar menos liberdades para os desafetos
aqui e ali, e contra isso só existem argumentos vagos que falam
de valores democráticos, uma coisa considerada como luxo burguês
por tanta e tanta gente. Para encurtar a conversa, que de novo ficou
mais longa que o planejado, resta dizer que poucas coisas são
tão diferentes na teoria e tão iguais na prática
quanto a extrema direita e a extrema esquerda. Super-Homem e Seus
Amigos do Peito é uma boa testemunha disso.
Romeu Martins
P.S.: O livro em questão, cuja
existência eu desconhecia, foi enviado pelo leitor, colaborador
e amigo Hugo Lopes Tavares, que se comprometeu a mandar nos próximos
dias a obra de Orlando Miranda.