Matéria
Como se faziam
HQs no Chile
A
radiografia da produção socialista de quadrinhos (e seus
problemas)
Sobre
a discutível opinião do "grupo chileno" sobre
os quadrinhos já falamos bastante (leia
aqui). Vamos abrir espaço aqui para reproduzir o testemunho
de um desses integrantes do grupo (que reunia, entre outros, Ariel Dorfman,
Armand Mattelart, Santiago Fuentes, Mário Salazar e Manuel Jofré)
a respeito dos trabalhos práticos realizados por eles durante
sua breve existência em uma editora de HQs que foi estatizada
durante o governo de Salvador Allende (1970-73) . O modelo de produção
que eles montaram é detalhado e até os problemas internos
são apontados no relatório redigido por Manuel Jofré
para o livro Super-Homem e Seus Amigos do Peito. É lamentável
que a experiência tenha sido destruída pela ditadura de
Augusto Pinochet (1973-90) por vários motivos. Primeiro porque
sempre é saudável ver alternativas ao modelo mainstream
e segundo porque seria uma chance daqueles intelectuais testarem na
vida real suas idéias iniciais, registradas também no
livro Para Ler o Pato Donald, e só assim perceberem a
distância que vai do preconceito à realidade. Tanto é
assim que, ao final do texto original, Manuel Jofré apresentava
dúvidas em relação às certezas absolutas
que abriram seu relatório. Vale a observação que
o personagem mencionado no texto que segue (retirado das págs.
155 a 160 do livro Super-Homem e Seus Amigos do Peito) é
El Manque, "O Condor", um camponês descendente de índios
chilenos que tinha suas histórias publicas na revista El Jinete
Fantasma.
"Oficinas populares e condições
subjetivas
Estas realizações foram
levadas a cabo dentro de diferentes regimes de trabalho e funções
que a própria prática assinalou como necessário.
O fato básico, a completa nacionalização
dos produtos - as histórias em quadrinhos - possibilitou, aos
roteiristas e desenhistas a criação e a renovação.
As novas séries criadas permitiram a participação
organizada, tanto em opinião como em elaboração
concreta, em quase todos os níveis, dos trabalhadores da Área
de Publicaciones Infantiles y Educativas.
Novos mecanismos de trabalho aboliram
a produção irracional que imperava na editora quando esta
estava nas mãos privadas. Desenharemos os mais importantes. Fixaram-se
roteiristas e desenhistas em determinadas séries, permanentemente.
Por sua vez, eles elegeram um coordenador para cada revista, responsável
pelo fornecimento dos roteiros, dos desenhos de capa, e dos comitês
criativos (por período determinado). Concretamente estes comitês
são os organismos coletivos encarregados de elaborar os roteiros.
O roteirista apresenta um resumo do argumento de um episódio,
que é discutido, analisado e reelaborado neste comitê,
que é integrado pelo próprio roteirista, o coordenador
da revista à qual pertence o episódio, um revisor de roteiros
e provas (no seu aspecto lingüístico) e um integrante da
equipe de coordenação e avaliação de histórias
em quadrinhos. Este último membro é responsável
pelo conteúdo do roteiro que corresponde a um trabalhador intelectual
de formação universitária.
Depois de passar pelo comitê criativo,
o roteirista dispõe de alguns dias para elaborar definitivamente
o roteiro, o qual, em três cópias, é enviado para
a revisão, avaliação e desenho. O conjunto dos
trabalhadores da área de quadrinhos (oito roteiristas, uns vinte
desenhistas, dois revisores, cinco policromistas) discute, por sua vez,
seus problemas sindicais, administrativos, ou de qualquer outra índole
numa assembléia de trabalhadores ou, em certos casos, no comitê
de produção que é um organismo
exclusivamente
integrado por trabalhadores e é nomeado pela base com um caráter
mais executivo e que se concentra na eficácia e no cumprimento
da produção. Finalmente, um desenhista, também
eleito pela base, cumpre a função de chefe da área
de histórias em quadrinhos.
A certeza sobre o verdadeiro caráter
das novas séries criadas e, em geral, sobre toda a produção
atual de histórias em quadrinhos, não pode partir fundamentalmente
do próprio interior da empresa que as produz, mas sim do público
receptor. Os transmissores necessitam confrontar sua codificação
das mensagens com a decodificação que se realiza nas massas.
A mensagem, a história em quadrinhos, deve romper com o autoritarismo
e com o verticalismo da comunicação burguesa (segundo
a qual um diz o que acredita que muitos sejam), definitivamente integrando
aspirações e realidades dos receptores. A mensagem deve
ser questionada criticamente pelas organizações de massa,
já que o povo - que é o criador real do atual processo
de mudança -, deve recolher seus interesses nas mensagens do
meio de comunicação social. Estes novos dados servirão
para a criação e reformulação de novos roteiros
e novas séries, que voltarão a iniciar o circuito dialético
proporcionando novos conhecimentos e atitudes aos receptores, que eles
por sua vez criticarão, etc. As mensagens não podem ser
elaboradas sempre pelas mesmas pessoas, por mais que sejam representantes
do estado ou de um governo popular. A principal força das mensagens
deve radicar-se num impulso dos próprios sujeitos que sofreram
a dominação de classe: o proletariado.
A
equipe coordenadora das histórias em quadrinhos criou Oficinas
Populares em diversos comitês de produção da empresa
Quimantu. Cada oficina contava com a assistência média
de uns quinze trabalhadores. A duração da entrevista oscilava
entre uma hora e uma hora e quinze minutos. A equipe coordenadora designa
um dos seus integrantes para que dirija a reunião. Esta se inicia
com uma explicação prévia sobre os objetivos da
reunião e a necessidade de que os trabalhadores participam. Os
primeiros vinte minutos são dedicados a questionar os trabalhadores
sobre uma série determinada, por exemplo, El Manque. Depois desta
parte geral, entrega-se um ou dois episódios aos trabalhadores
para que sejam lidos em dez minutos. A seguir, abre-se a discussão
e comentários, especificamente sobre os episódios lidos,
por outros vinte minutos. Os trabalhadores podem fazer perguntas, responder,
criticar, discutir, discordar, sugerir. Um integrante da equipe coordenadora
vai tomando nota de cada uma das intervenções. Além
destes, desenhistas, roteiristas, coordenadores de outras revistas,
assistem e intervêm na discussão e fazem perguntas. Finalmente,
extrai-se um informe que é impresso para cada oficina e dirigido
aos organismos e autoridades permanentes e cada três oficinas
fazem uma avaliação onde se examinam e codificam as opiniões
obtidas.
Depois de criar três oficinas populares
sobre a série El Manque, foram obtidos os seguintes resultados
que exporemos ordenadamente nos diferentes temas que neste momento nos
pareciam primordiais (março de 1972):
1. Observações gerais:
Adverte-se que as opiniões dos integrantes da oficina dividem-se
politicamente. Os trabalhadores que se declaram "apolíticos"
estão contra (ou duvidosos) das mudanças realizadas na
historieta. Os que simpatizam com as mudanças políticas
estão de acordo com a nova orientação dada às
séries.
2. Compreensão: Os "apolíticos" vêem o
Manque como um forasteiro vagabundo; os que se declararam a favor das
mudanças dizem que representa a liberdade e a justiça.
3. Identificação: Não se acham parecidos com o
Manque (não há identificação de classe)
ainda que se solidarizem com ele e suas lutas. Acreditam que o que ocorre
ao Manque não poderia ocorrer-lhes.
4. Entretenimento: Para os "apolíticos" a história
em quadrinhos deve entreter; o grupo mais politizado diz que deve entreter,
mas além disso deve ensinar, educar. Ambos os grupos crêem
que os elementos para entreter são o humor e a ação
(violência).
5. Realidade-fantasia: Os elementos da fantasia são os que entretêm.
Os "apolíticos" pedem mais fantasia e exemplificam
com historietas muito evasivas. Os que são a favor das mudanças
propõem historietas de conteúdo mais real. Não
conseguem definir essa última expressão.
6. Política: Os "apolíticos" acham a série
demasiadamente contida. Chama de política o confronto entre Manque
e os patrões, que sempre aparecem como maus. Todos pensam que
as historietas são políticas, mas os que se declaram a
favor das mudanças acrescentam que uma dose adequada de política
viria bem. Todos estão de acordo que este elemento deve ser sutilmente
introduzido e não de forma óbvia. Um segundo ponto importante:
para todos o Manque aparece como um modelo de conduta, sempre que atue
dentro da legalidade. Rechaçam o vagabundear ou um ataque de
Manque à política. Para todos a justiça deve sempre
ser respeitada.
7. Educação: Crêem que na história em quadrinhos
deveria haver uma educação do tipo geográfica.
Que se assinalem os lugares do país por onde o Manque passa.
8. Avaliação dos personagens: O que ambos os grupos destacam
do Manque é o fato de ele ajudar aos demais, isto é, sua
solidariedade.
9. Aspectos formais: Acham que o desenho é bom, mas acham necessários
certos reparos nas cores.
10. Sugestões: Pedem mais humor, que a série seja mais
extensa, que haja mais publicidade para a revista e sugerem que outros
personagens acompanhem o Manque.
Os próprios resultados das oficinas
populares provam a necessidade de empregar esse ou aquele meio (testes
ou questionários, dentre as possibilidades mais tradicionais
e com menor participação; oficinas de participação
onde seus integrantes discutissem e propusessem roteiros - possibilidade
remota) para definir o perfil do leitor. Prova-se que o grau de consciência
política é determinante para a apreciação
decodificadora que se faz da série. Quer dizer, que os quadrinhos
são um instrumento que integra a luta de classes e que é
possível utiliza-lo para tomar a ofensiva trazendo mais consciência
para a realidade dos leitores. A opinião dos setores avessos
à transformação (política e das histórias
em quadrinhos) é importante enquanto permite corrigir algumas
das séries. A decodificação dos trabalhadores comprometidos
com as transformações coincide, em linhas gerais, com
as opiniões dos trabalhadores da área de histórias
em quadrinhos, com as da equipe coordenadora e com as das autoridades
da empresa. Finalmente, é preciso ressaltar que os produtores
das histórias em quadrinhos não deram a devida importância
aos resultados realizados pelas oficinas populares.
É
natural que surjam, num processo como o descrito, uma série de
obstáculos tanto de ordem natural como de ordem humana. Baseando-nos
neste último termo, é forçoso reconhecer que apenas
umas poucas medidas descritas foram criadas e impulsionadas pelos próprios
trabalhadores da área de histórias em quadrinhos. A princípio,
estes trabalhadores questionaram as funções dos comitês
criativos por excesso de reuniões e por constituir uma perda
de tempo. Os roteiristas tentaram preservar um status economicamente
privilegiado e para isso reafirmaram a espontaneidade, manifestando-se
como criadores literários que precisam de inspiração
para produzir. O próprio funcionamento dos comitês criativos,
e todas as lições objetivas e subjetivas que deixaram,
permitiram uma melhor utilização deste recurso organizativo
e de trabalho. A preparação técnica dos coloristas
e desenhistas é pobre e muito pequena, o que redunda em escassas
variações de cor, nos desenhos, e na presença de
personagens típicos de séries estrangeiras.
Houve por parte do chefe da divisão
de publicações infantis e educativas, da qual depende
diretamente a área de histórias em quadrinhos, um tratamento
ora autoritário, ora paternalista. Essa autoridade teve um leve
contato com as bases e sua gestão careceu de objetivos, políticas
de desenvolvimento e expansão. Não se favoreceu nenhuma
instância renovadora que fosse além dos limites comerciais,
tanto técnica como praticamente. Mesmo assim, o recurso mais
fundamental para se perceber qual era a receptividade do leitor, as
oficinas populares, foi menosprezada não só pela base
produtora, mas pelas próprias autoridades. Os trabalhadores não
participaram dos níveis fundamentais de decisão e só
o fizeram quando se tratou de assuntos econômicos referentes a
eles próprios. Um critério comercial prevaleceu durante
toda esta etapa. A equipe de coordenação e avaliação,
que tinha funções em excesso (avaliação
das séries, criação de novas histórias em
quadrinhos , análise dos roteiros, realização dos
comitês criativos, realização das oficinas populares
etc.) entrou freqüentemente em contradição com as
autoridades da divisão, ou com a base. Esta equipe carecia de
qualquer poder de influência ou decisão, apesar de estar
presente em quase todas as etapas produtivas. Sua participação
nos comitês criativos foi decisiva."
Obs.: Trecho entre aspas
repoduzido do livro Super-Homem e Seus Amigos do Peito