Matéria
Junket: um dia
no meio das estrelas
As
entrevistas com artistas de Hollywood combinam labuta e boca-livre
O
dicionário Cambridge define "junket" como uma viagem
ou visita feita por lazer e paga por outra pessoa, ou com dinheiro público.
Entre os jornalistas especializados em
cinema, porém, a palavra tem um sentido um pouco diferente. Apesar
de continuar sendo uma viagem paga por terceiros (no caso, os estúdios
como Fox, Universal, Warner Bros, etc.), o prazer é misturado
com labuta. Tá certo que é um trabalho divertido, entrevistar
estrelas de Hollywood, mas ainda sim é um trabalho.
Quem
assistiu a filmes como Queridinhos da América (America´s
Sweethearts, de Joe Roth - 2001) e Um lugar chamado Notting Hill
(Notting Hill, de Roger Michell - 1999), ou costuma zapear pelo
E! Entertainment Television, já tem uma boa noção
do que é uma junket.
Na maioria das vezes, um dia antes das
entrevistas os jornalistas são convidados a ver o filme. Com
as anotações em mãos (e geralmente alguns brindezinhos
também, afinal, ninguém é de ferro) todos são
convidados a se dirigir no dia seguinte a um hotel luxuoso. De acordo
com o nível da estrela e do filme, o hotel pode ser mais ou menos
chique e bem localizado. Em Londres, onde morei e participei da maioria
das junkets, um dos locais mais badalados ficava ao lado do Hyde Park,
o equivalente ao Central Park para os ingleses. Foi lá que entrevistei
Reese Whiterspoon (Legalmente Loira 2), Colin Farrell (O Novato),
Pierce Brosnan e Halle Berry (007 - Um novo dia para morrer),
Heather Graham (O Guru do Sexo), Rowan Atkinson (Johnny English)
e Tyrese (+ Velozes + Furiosos).
Uma
das primeiras coisas que você aprende é que o humor dos
entrevistados varia muito. Marisa Tomei (Guru do Sexo) que tem
fama de ser muito chata com jornalistas, realmente é bastante
antipática. É o que dizem também de Julia Roberts,
mas esta eu ainda não tive o (des?)prazer de entrevistar. Porém,
você também pode dar sorte de conhecer pessoas ótimas,
com quem você provavelmente poderia ficar horas e horas conversando,
caso de Matt Damon (A identidade Bourne), ou da estrela de Titanic
Kate Winslett (A vida de David Gale), dona de dois olhos azuis
muito muito brilhantes e uma simpatia sem fim. Coincidência, ou
não, estes dois estava usando jeans e camiseta quando os encontrei.
Mostram que apesar de serem estrelas de filmes, são também
pessoas normais.
Agora,
preciso contar um segredo. É algo que vai quebrar um pouco da
magia, mas já que você chegou até aqui, merece a
verdade: nem sempre estas entrevistas são "mano-a-mano".
Especialmente quando se trata de veículos impressos (jornais,
revistas, sites). Geralmente, os "talentos" - como são
chamados os entrevistados - são colocados numa sala com grupos
que podem variar de três a dez jornalistas. Se não me engano,
na do Senhor dos Anéis - Duas Torres, eram 11 pessoas.
Impraticável. E aí, entra o conhecimento e a educação
de cada um. Tem jornalista que não está nem aí
e atropela o outro para conseguir fazer todas as suas perguntas e tem
outros, mais tímidos (e provavelmente despreparados também),
que sequer abrem a boca. Ficam ali, no cantinho, só anotando
e gravando o que os outros falam.
Algo
parecido pode acontecer com os artistas. Existem os monossilábicos
(o diretor Alan Parker - A Vida de David Gale) e aqueles que
não param de falar (Viggo Mortensen - O Senhor dos Anéis
- O Retorno do Rei) e, no fim do seu tempo, só responderam
duas perguntas.
As durações das entrevistas
também variam. Vão de 15 a 30 minutos. Se você tiver
a sorte de pegar alguém de bom humor e não houver um outro
grupo esperando do lado de fora da sala, pode até rolar um "chorinho".
Quando o bate-papo é dividido com várias outras pessoas,
a regra é que não haja duas pessoas do mesmo país
(se for um evento mundial), ou de veículos concorrentes diretos
(dois jornais, duas revistas especializadas em cinema, etc.). Desta
forma, a entrevista sempre será exclusiva para o seu público.
Infelizmente, aqui no Brasil, a falta de organização já
me colocou numa sala ao lado de um repórter que trabalhava num
veículo que compete com o meu Omelete.
Mas em muitos casos, as junkets não
se resumem a ver os filmes, ganhar presentes e entrevistar os atores
e diretores. Tem um detalhe que é sempre muito importante e pode
até mesmo por tudo a perder: a comida! Já passei fome
e já vi gente comer mais do que deveria. Fato: jornalista e comida
são duas coisas que dificilmente conseguem ficar sob o mesmo
teto por muito tempo. ;-)
Marcelo
Forlani