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Mais (ainda)
do mesmo
Exposição
mostra por que Renato Russo continua destemido e temido no DF
O
folheto da exposição "Renato Russo Manfredini Jr.",
no Centro Cultural do Banco do Brasil, em Brasília, era assustador.
Indagava coisas como "Quem
são os Renatos que compõem a figura de Renato Russo Manfredini
Jr.?" ou "Como seria 'ler' (isso mesmo, entre aspas!) a produção
musical de Renato hoje e colocá-la em um espaço de galeria,
contemporaneamente?". O folheto ainda dizia que Russo tinha a "capacidade
de expressar, sob a perspectiva do trovador solitário, a rarefação
dos valores sociais e os grandes paradoxos de nossa época".
Desenhava-se um grandissíssimo programa de índio, do tipo
muito apreciado pelos P.I.M.B.A. (Pseudo-Intelectuais Metidos a Besta
Associados) de Brasília.
Apesar da má expectativa criada,
foi uma surpresa. Mesmo quem não gosta de Renato Russo e de Legião
Urbana não se sente constrangido na exposição.
Pode não entender qual a importância de certas coisas ali,
mas não se sente mal, o que é muito comum de acontecer
quando se está na companhia de fãs ardorosos da banda.
A exposição sobre Renato
Russo, mesmo sendo sobre nada relevante em sua maioria, está
muito bem montada. Ela foi inaugurada no dia do aniversário de
Brasília e tem a pretensão de fazer as pazes do finado
músico com a cidade que ele tanto xingava. Tem uma parede enorme
com uma linha do tempo da vida do cantor, contextualizada com fatos
de cada época, o mapa astral (!), as roupas que ele usava no
palco, móveis e enfeites (!) da casa onde ele morava, fotos de
família, um quadro feito pela mãe (!), uns violões
e zilhões de folhas de caderno escritas pelo líder da
Legião Urbana.
Antes
de ir à exposição, o Marca Diabo entreouviu uma
conversa de elevador onde um amigo recomendava o passeio a outro dizendo:
"Está muito legal! Tem as fotos de todos os amantes dele!".
Não conseguimos encontrar as tais fotos, talvez por não
sabermos quem foram os amantes dele. Nada mais dispensável. Se
fosse uma exposição sobre Jorginho Guinle, cuja profissão
era playboy internacional, as fotos de suas amantes seriam a atração
principal. Mas Renato Russo era músico, pombas!
A sala que abriga todos os CDs e livros
de Russo exibe a típica coleção de quem tem dinheiro,
repleta de caixas de CDs, discos japoneses, muita música clássica
e muitos discos legais. Entre os livros estão os clássicos
cabeça como James Joyce e Proust, alguns Stephen King e outros
como "O guia da literatura gay e lésbica". A eclética
coleção de vinis também está exposta numa
parede. Numa sala ao lado, dois CD players tocam músicas dos
Beatles, Velvet Underground e outras bandas bacanas. Depois de ter olhado
os livros e CDs que você nunca vai ter e de ter ouvido uma musiquinha
no fone, o visitante sai de lá com a sensação de
ter ido à Fnac (megaloja de livros e CDs). E o melhor, sem ver
ou ouvir nada referente à Legião Urbana neste trecho da
exposição, que fica no subsolo.
As
folhas de caderno espalhadas por todo lado são a essência
da exposição, quase sempre cheia de gente que não
resiste e cantarola as letras das músicas escritas à mão.
Além das letras, qualquer garrancho, rabisco feito ao telefone,
lista de compras ou desenho tosco do ídolo é exposto como
se fosse uma obra prima. Percebe-se aí o nível de mitificação
criado em torno da figura de Renato Russo. Parece que o cara era um
profeta e qualquer registro de sua passagem pela Terra, uma revelação.
Descobre-se também que o sujeito
era o bambambam no inglês desde pequeno, e em seus manuscritos
revela-se uma irritante mania, a de comentar tudo em inglês. Qualquer
lista de prováveis músicas de um disco ou de coisas a
fazer tem um "call him" ou "work in progress".
Apesar
de alguns visitantes cantarem baixinho as músicas, justiça
seja feita, os curadores levaram em conta a legião de gente que
não gosta do cara e nos presentearam com um agradável
silêncio por quase toda a exposição. Existem aqueles
caríssimos alto-falantes direcionais pendurados no teto, que
só quem passa por baixo ouve a música, mas mesmo estes
estavam desligados. O fã que quisesse ouvir tinha CD players
fixados nas paredes com fones de ouvido.
Os discos de ouro da banda e ingressos
dos shows invocavam lembranças nos visitantes: "Essa foi
a fase mais melancólica dele", explicava um fã a
outro. Os monitores que fazem visitas guiadas pela exposição
contam que às vezes entra alguém com um violão
e começa a cantar. Um dia uma garota tentou remover o vidro que
protege os CDs de Russo, alegando aos seguranças que havia dado
o CD de presente a ele, e por isso o disco poderia ter seu nome. Além
disso, quase todo dia aparece uma pessoa descontrolada, que começa
a gritar no meio do salão e a chorar copiosamente, perguntando
aos céus "por quê?" levaram seu ídolo.
Pedro Valente
Imagens do site "O
Sopro do Dragão"