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A cidade dos chapéus
Brasília, quem diria, acabou por sintetizar a breguice nacional

Há uma cidade no Brasil que possui uma cadeia de lojas de chapéus em shoppings. Nessa cidade, muito famosa por outras características, as pessoas se divertem saindo em boates que também ficam nos shoppings - que aliás, brotam mais que cogumelo no estrume. Aconchegue-se e conheça o outro lado de Brasília, algo muito distante da politicagem e da roubalheira já conhecidas em todo o país.

A jovem capital federal de 44 anos continua sendo um local bastante aprazível para se morar mas, assim como aconteceu com a antiga capital federal, o Rio de Janeiro, as belezas e benesses da cidade são prejudicadas pelo povo local. Só que os candangos são muito diferentes dos cariocas. Com a mistura de pessoas de todos os confins do país foi sintetizada na cidade de JK - nome de quase tudo por aqui - a breguice nacional.

A cidade é a única que eu conheço com uma rede de lojas que vende chapéus. Shopping que é shopping em Brasília - e não duvide, são muitos - tem que ter cinema Severiano Ribeiro, McDonald's, Giraffas e a Hat Shop. Acredite: a loja sobrevive vendendo chapéus. E, por mais estranho que pareça, as principais clientes não são as adolescentes freqüentadoras de festas a fantasia, mas sim mulheres que pretendem esbanjar charme e luxo nos requintados eventos da corte brasiliense.

O show de B.B. King em abril foi o álibi ideal: um verdadeiro desfile de chapéus. Os homens que não queriam ficar fora da onda "fashion" aproveitaram o relativo frio local - 18º - e saíram de coletes, que vêm com tudo nesse inverno no Planalto Central. Show, aliás, que aconteceu no Pontão Sul, um local lindo à beira do lago Paranoá e que tem um pórtico que é uma réplica dupla do Arco do Triunfo. Resquícios da colonização francesa em Brasília.

As pessoas presentes ao espetáculo fizeram de tudo para sair em um dos muitos programas de noite e moda que pululam os canais de TV de Brasília. Tá certo, isso corre em toda a cidade, mas só aqui você vê esse programas ao meio dia, como o da querida Wilma Magalhães e o "Acesso Livre", com Todi Moreno. No último de Wilma que assisti - que é diário na Band e até mudar de nome se chama "Mais que Emergente"-, uma "celebridade emergente" do mundo da noite disse uma pérola que é a cara de Brasília: "Aqui se morre mais de inveja do que de câncer", afirmou um descontraído "rapaz" de uns 40 anos.

Muitos podem pensar que isso é coisa de gerações mais antigas. Infelizmente não é verdade. Garotas na faixa dos 20 anos se vestem sempre iguais e demonstram que carregam o DNA das mães: em qualquer lugar, até no boteco da esquina, elas vâo à guerra com saltos altos transparentes, cabelos preparados e muita, muita maquiagem. Parece que o simples barzinho do happy hour é a concentração de um casamento ou de um baile de formatura. O que por uma lado pode parecer positvo - o cuidado das mulheres - traz, na verdade, uma armadilha: há muita propaganda enganosa entre a mulherada.

Todi Moreno, do programa "Acesso Livre"O par ideal para essas meninas, como não poderia deixar de ser, são garotos que também não primam pela originalidade e andam todos iguais. Freqüentadores de academias, usam camisas regatas para exibir os braços. Eles, em geral, não usam a força para tentar tomar iniciativa com as mulheres, o que se traduz em vantagem para nós, "estrangeiros", que vamos à luta e, às vezes, nos damos bem com as filhas de ministros e deputados.

À essa hora o leitor - se é que há algum - deve estar se perguntando se é possivel que todos os 2 milhões de habitantes de Brasília sejam dessa forma. É verdade, há outro tipo de gente nessa cidade, mas não menos insuportável: os intelectuais do cerrado. Os cabeças de Brasília vão ao cine Academia, onde só passa filme fora do "mainstream" e depois vão ao Café da Rua Oito e, literalmente, ficam discutindo Godard, como foi presenciado por uma amigo que, indignado, questionou: "Onde vão as pessoas normais dessa cidade?"

O programa mais tradicional de Brasília é ir nas boates que ficam nos shoppings ou nas festas. Em ambos há filas. Sempre. Em qualquer dia ou horário. Nas boates há um efeito característico: a fila pra entrar no recinto e a fila dos amigos que esperam reconhecer alguém e entrar junto na boate. Nas festas do lago Sul - onde algumas se salvam - há o efeito celebridade: todas tem camarotes Vips, que ficam lotados e chegam acustar até R$ 250 por noite.

Feijoada Vip: o nome é digno de uma mente privilegiadaComo esse mundo (de longe) não é o nosso, vamos aos bares, mas nem assim as coisas melhoram. As pessoas que frenqüentam esses locais são as mesmas e as filas persistem. Se você um dia visitar um bar em Brasília, ao conseguir sentar, seja rápido e beba o quanto puder no menor tempo possível, porque o garçom pode chegar e perguntar se é a sua última bebida, trazer a conta ou simplesmente começar a apagar as luzes. Motivo? A lei seca, que impede a venda bebidas alcoólicas após as 2 horas da matina durante a semana, horário estendido para os fanfarrões do fim de semana para as 3 horas. Acredite, isso acontece. Os bares expulsam os clientes das mesas. Bares aliás, que sempre erram um dos seus pedidos da noite. Isso é mais certo do que a capacidade do governador Joaquim Roriz de sair ileso de processos.

Há, claro, um único local de resistência: o Barzão. Localizado em uma das mais movimentadas avenidas da cidade, a W3, ele prefere que sua porta fique na viela que fica por trás. Lá há cerca de cinqüenta mesas de bilhar onde se reúnem todos da cidade que não se enquandram nos ítens anteriores - e até alguns deles também. Não há restrição para fumo nem para bebida e não há hora pra fechar. Este que vos fala, por exemplo, apesar de toda a tradição em outros estabelecimentos, nunca coseguiu sair do Barzão quando ele já estivesse com as portas arriadas. Serviço: 504 Sul.

Há outros fatos inusitados na cidade, que se fôssemos contar mereceriam outro aritgo, como a lei anti-fumo que já gerou briga e determina que as pessoas saiam dos bares - mesmo os abertos - para fumar a três metros de distância da porta, as bandas de rock que usam baterias eletrônicas nos shows sem nenhum constrangimento, entre outros. Mas é melhor parar por aqui. Afinal, temos que preservar a alma da cidade, que se orgulha de ser nobre e adora chamar os goianos de cafona...

Guilherme Zabael

 

P.S.: Um pingue-pongue com Todi Moreno que vale a pena ser lido.