Entrevista

No Piauí do mundo
MrManson, do site Cocadaboa, leva para o livro aquele "bom e velho humor heterossexual de raiz"

Allan Sieber, Wagner Martins e Felipe Flexa (Adailton Persegonha)Calúnia e Difamação. Esse é o singelo título da seção de entrevistas do site Cocadaboa. Perguntas e respostas obviamente fictícias trazem o que muitos gostariam de dizer sobre artistas, astros do futebol, políticos e outros habitantes da Ilha de Caras. Num de seus melhores momentos, o Cocadaboa "entrevistou" o ex-presentador Marcos Mion, aquele que dizia quebrar paradigmas na TV brasileira. Sem espírito para brincadeira, Mion acionou seu advogado, o pai de Luciano Huck, para tentar tirar o site do ar. A entrevista de mentira foi retirada, mas em seu lugar entrou uma carta verdadeira do advogado. Ou seja, a piada ficou muito mais engraçada.

O caso resume o espírito do Cocadaboa: escracho politicamente incorreto para todo lado, sem perdoar as figurinhas queridas dos cadernos culturais e muito menos as da TV. E reclamar é pior, porque alvo de piada que fica bravo é tudo que humorista esperto pede a Deus. De Sandy & Junior até a megacorporação Coca-Cola, muita gente já arrumou briga com o Cocadaboa. Invariavelmente, a popularidade do site só cresceu com as polêmicas, a ponto de seu criador, o famigerado MrManson - pseudônimo de Wagner Martins, 25 anos, carioca, visual Renato Russo - achar que dá pé trocar a canhestra carreira de economista pelo filão do humor lucrativo.

Capa do livro de MrMansonA primeira tentativa de MrManson acaba de ser lançada: o livro Transpiauí: uma peregrinação proctológica (Churros Editora). Enquanto os jornais comentam a "viagem iniciática" de Che Guevara pela América Latina, mostrada em Diários de Motocicleta, MrManson também fez a sua, mas num ônibus fedido no qual cruzou de ponta a ponta aquele estado nordestino, que há tempos virou alvo de gozação no site. Como diz um dos textos de apresentação do livro, quem não tem dinheiro para ir a Santiago de Compostela que dê jeito com o Piauí mesmo. O importante é que a iluminação foi alcançada. MrManson conseguiu elementos suficientes para escrever o livro e deixar a economia para quem não sabe fazê-la.

Se você ainda não ligou o nome à pessoa, basta lembrar que um dos últimos feitos de MrManson foi criar a infame "Como ou Não Como", a comunidade-monstro que se multiplica por mitose no Orkut. Na semana passada, Wagner Martins respondeu algumas perguntas do Marca Diabo por e-mail. Sem calúnia ou difamação, acreditamos piamente que as repostas são honestas e foram escritas por ele mesmo. Se não forem, tudo bem. Pode anotar aí mais um pato do Cocadaboa.

Marca Diabo - Primeiro, o inevitável: como surgiu a idéia de fazer o livro sobre o Piauí? Por que o digníssimo estado da federação foi escolhido?
Exemplos das provações que MrManson teve de enfrentar em sua jornada iniciáticaMrManson - A idéia inicial era me embrenhar por alguma trilha bizarra e fazer uma espécie de "Road Book" com as coisas inusitadas que acontecessem comigo. Quando bati o olho no mapa para encontrar tal local, vi que existia uma estrada chamada "Transpiauí" e alguma força do além de assinalou que aquele era o caminho a ser percorrido. Como o Piauí é de longe o estado mais engraçado da federação, não tive dúvidas em aceitar o convite das forças do além.

Exemplos das provações que MrManson teve de enfrentar em sua jornada iniciáticaMD - Preparado para receber o título de cidadão piauiense honorário pela divulgação das maravilhas da terra? Sabe como tem sido a reação por lá?
MM - No livro há muitas piadas sacaneando o estado, mas ao mesmo tempo eu conto detalhes muito interessantes e apresento coisas que muita gente sequer imagina que exista no Brasil. Aliás, pouca gente lembra que o Piauí existe.

O livro na verdade é uma fotografia de muitos aspectos do estado (bons ou ruins), e muita gente, estimulada pela linguagem bem humorada que uso, vai aprender sobre o que existe no Piauí e quem sabe até se motivar a percorrer o mesmo caminho em busca da iluminação espiritual que recebi.

MD - Como andam os rolos com a censura ao Cocadaboa? O Marcos Mion nunca mais quis te processar com a ajuda do pai do Luciano Huck?
MM - Desde que nos mudamos para exterior as coisas se acalmaram (N.E.: Não era mentira essa história do site hospedado na Eslovênia?). Acho que nosso estilo também passou a ser mais compreendido e as "vítimas" perceberam a única coisa que conseguem ao reclamar é fazer a piada ficar ainda melhor.

O Piauí do mundo é aquiMD - Caras como você, o Allan Sieber e o Arnaldo Branco parecem ter afinidade suficiente para formar uma nova turma no humor brasileiro, a exemplo do conseguido pelas revistas dos anos 80 (Chiclete com Banana, Circo, etc.). No entanto, hoje os meios de divulgação (pelo menos aqueles que dão dinheiro) são escassos. Como furar o bloqueio e se tornar conhecido por mais gente?
MM - Sem dúvida há uma afinidade muito forte. Fazemos aquele "bom e velho humor heterossexual de raiz", sem essas viadagens pasteurizadas e politicamente corretas que predominam hoje. Acho que com o tempo a geração que curte esse estilo mais agressivo e sincero vai amadurecer, arrumar empregos bons e cagar dinheiro. Aí, quando quiserem se divertir, vão nos dar algumas sobras com as quais tentaremos nos sustentar.

MD - Quais as principais diferenças que você percebe entre o humor da sua geração e a dos Cassetas? É possível que, como eles, o Cocadaboa abrande as críticas para conseguir projeção?
MM - Acho que, pelo menos em relação aos Cassetas, humor da minha geração é mais agressivo e inconseqüente. Para nós é muito difícil fazer uma piada e vetá-la porque depois MrManson e seus comparsas em foto de 2001, para o finado site NO.de pensar melhor achamos que ela é muito pesada. Eles levaram os limites do humor para muito longe, havia uma época em que era impossível falar "bunda" em uma piada na tv. Fizeram isso quando eram franco-atiradores e não tinham muito a perder, agora o clima já deve ser outro e as piadinhas mais politicamente incorretas (e engraçadas) ficam restritas aos amigos mais próximos, com as câmeras desligadas.

Hoje é a minha geração que não tem muito a perder, então chegou a nossa vez de brincar com os limites.

MD - Daqui a dez anos você vê o humor brasileiro "mainstream" regido por pessoas do lado do Cocadaboa ou pelos seguidores da linha dos plagiários da internet?
MM - Não tenho a menor idéia, mas espero que o nível de educação do país continue crescendo para que seja cada vez mais difícil fazer o povão rir com piadinhas óbvias.

MD - Quando o Cocadaboa começou a divulgar notícias falsas com a forma-padrão dos releases das assessorias, acabou evidenciando o desleixo e a credulidade de boa parte da imprensa brasileira. Imaginavam que tanta gente ia cair?
MM - Sinceramente, sim. O problema da imprensa é que os putos se acham alguma coisa. Vagabundo ganha 300 pratas por mês (quando ganha) para ficar enchendo lingüiça em matérias irrelevantes todo dia e enche a boca para dizer que é jornalista, mas na verdade eles odeiam o trabalho que fazem. 90% é frustrado com a carreira.

Não existe mais bom senso, a onda é fechar o que vai ser pauta rapidinho para se livrar do serviço e ir pra casa. E de preferência que já seja uma pauta bem mastigadinha, fornecido por um assessor de imprensa que quer fazer o jabá de alguma merda.

 

Entrevista: Giuliano Ventura

 

Imagens: Cocadaboa e No.