Entrevista
No Piauí
do mundo
MrManson, do site
Cocadaboa, leva para o livro aquele "bom e velho humor heterossexual
de raiz"
Calúnia
e Difamação. Esse é o singelo título da
seção de entrevistas do site Cocadaboa.
Perguntas e respostas obviamente fictícias trazem o que muitos
gostariam de dizer sobre artistas, astros do futebol, políticos
e outros habitantes da Ilha de Caras. Num de seus melhores momentos,
o Cocadaboa "entrevistou" o ex-presentador Marcos Mion, aquele
que dizia quebrar paradigmas na TV brasileira. Sem espírito para
brincadeira, Mion acionou seu advogado, o pai de Luciano Huck, para
tentar tirar o site do ar. A entrevista de mentira foi retirada, mas
em seu lugar entrou uma carta verdadeira do advogado. Ou seja, a piada
ficou muito mais engraçada.
O caso resume o espírito do Cocadaboa:
escracho politicamente incorreto para todo lado, sem perdoar as figurinhas
queridas dos cadernos culturais e muito menos as da TV. E reclamar é
pior, porque alvo de piada que fica bravo é tudo que humorista
esperto pede a Deus. De Sandy & Junior até a megacorporação
Coca-Cola, muita gente já arrumou briga com o Cocadaboa. Invariavelmente,
a popularidade do site só cresceu com as polêmicas, a ponto
de seu criador, o famigerado MrManson - pseudônimo de Wagner Martins,
25 anos, carioca, visual Renato Russo - achar que dá pé
trocar a canhestra carreira de economista pelo filão do humor
lucrativo.
A
primeira tentativa de MrManson acaba de ser lançada: o livro
Transpiauí: uma peregrinação proctológica
(Churros
Editora). Enquanto os jornais comentam a "viagem iniciática"
de Che Guevara pela América Latina, mostrada em Diários
de Motocicleta, MrManson também fez a sua, mas num ônibus
fedido no qual cruzou de ponta a ponta aquele estado nordestino, que
há tempos virou alvo de gozação no site. Como diz
um dos textos de apresentação do livro, quem não
tem dinheiro para ir a Santiago de Compostela que dê jeito com
o Piauí mesmo. O importante é que a iluminação
foi alcançada. MrManson conseguiu elementos suficientes para
escrever o livro e deixar a economia para quem não sabe fazê-la.
Se você ainda não ligou o
nome à pessoa, basta lembrar que um dos últimos feitos
de MrManson foi criar a infame "Como ou Não Como",
a comunidade-monstro que se multiplica por mitose no Orkut.
Na semana passada, Wagner Martins respondeu algumas perguntas do Marca
Diabo por e-mail. Sem calúnia ou difamação, acreditamos
piamente que as repostas são honestas e foram escritas por ele
mesmo. Se não forem, tudo bem. Pode anotar aí mais um
pato do Cocadaboa.
Marca Diabo - Primeiro, o inevitável:
como surgiu a idéia de fazer o livro sobre o Piauí? Por
que o digníssimo estado da federação foi escolhido?
MrManson
- A idéia inicial era me embrenhar por alguma trilha bizarra
e fazer uma espécie de "Road Book" com as coisas inusitadas
que acontecessem comigo. Quando bati o olho no mapa para encontrar tal
local, vi que existia uma estrada chamada "Transpiauí"
e alguma força do além de assinalou que aquele era o caminho
a ser percorrido. Como o Piauí é de longe o estado mais
engraçado da federação, não tive dúvidas
em aceitar o convite das forças do além.
MD
- Preparado para receber o título de cidadão piauiense
honorário pela divulgação das maravilhas da terra?
Sabe como tem sido a reação por lá?
MM - No livro há muitas piadas sacaneando o estado, mas
ao mesmo tempo eu conto detalhes muito interessantes e apresento coisas
que muita gente sequer imagina que exista no Brasil. Aliás, pouca
gente lembra que o Piauí existe.
O livro na verdade é uma fotografia
de muitos aspectos do estado (bons ou ruins), e muita gente, estimulada
pela linguagem bem humorada que uso, vai aprender sobre o que existe
no Piauí e quem sabe até se motivar a percorrer o mesmo
caminho em busca da iluminação espiritual que recebi.
MD - Como andam os rolos com a censura
ao Cocadaboa? O Marcos Mion nunca mais quis te processar com a ajuda
do pai do Luciano Huck?
MM - Desde que nos mudamos para exterior as coisas se acalmaram
(N.E.: Não era mentira essa história do site hospedado
na Eslovênia?). Acho que nosso estilo também passou
a ser mais compreendido e as "vítimas" perceberam a
única coisa que conseguem ao reclamar é fazer a piada
ficar ainda melhor.
MD
- Caras como você, o Allan
Sieber e o Arnaldo Branco
parecem ter afinidade suficiente para formar uma nova turma no humor
brasileiro, a exemplo do conseguido pelas revistas dos anos 80 (Chiclete
com Banana, Circo, etc.). No entanto, hoje os meios de divulgação
(pelo menos aqueles que dão dinheiro) são escassos. Como
furar o bloqueio e se tornar conhecido por mais gente?
MM - Sem dúvida há uma afinidade muito forte. Fazemos
aquele "bom e velho humor heterossexual de raiz", sem essas
viadagens pasteurizadas e politicamente corretas que predominam hoje.
Acho que com o tempo a geração que curte esse estilo mais
agressivo e sincero vai amadurecer, arrumar empregos bons e cagar dinheiro.
Aí, quando quiserem se divertir, vão nos dar algumas sobras
com as quais tentaremos nos sustentar.
MD - Quais as principais diferenças
que você percebe entre o humor da sua geração e
a dos Cassetas? É possível que, como eles, o Cocadaboa
abrande as críticas para conseguir projeção?
MM - Acho que, pelo menos em relação aos Cassetas,
humor da minha geração é mais agressivo e inconseqüente.
Para nós é muito difícil fazer uma piada e vetá-la
porque depois
de
pensar melhor achamos que ela é muito pesada. Eles levaram os
limites do humor para muito longe, havia uma época em que era
impossível falar "bunda" em uma piada na tv. Fizeram
isso quando eram franco-atiradores e não tinham muito a perder,
agora o clima já deve ser outro e as piadinhas mais politicamente
incorretas (e engraçadas) ficam restritas aos amigos mais próximos,
com as câmeras desligadas.
Hoje é a minha geração
que não tem muito a perder, então chegou a nossa vez de
brincar com os limites.
MD - Daqui a dez anos você vê
o humor brasileiro "mainstream" regido por pessoas do lado
do Cocadaboa ou pelos seguidores da linha dos plagiários da internet?
MM - Não tenho a menor idéia, mas espero que o
nível de educação do país continue crescendo
para que seja cada vez mais difícil fazer o povão rir
com piadinhas óbvias.
MD - Quando o Cocadaboa começou
a divulgar notícias falsas com a forma-padrão dos releases
das assessorias, acabou evidenciando o desleixo e a credulidade de boa
parte da imprensa brasileira. Imaginavam que tanta gente ia cair?
MM - Sinceramente, sim. O problema da imprensa é que os
putos se acham alguma coisa. Vagabundo ganha 300 pratas por mês
(quando ganha) para ficar enchendo lingüiça em matérias
irrelevantes todo dia e enche a boca para dizer que é jornalista,
mas na verdade eles odeiam o trabalho que fazem. 90% é frustrado
com a carreira.
Não existe mais bom senso, a onda
é fechar o que vai ser pauta rapidinho para se livrar do serviço
e ir pra casa. E de preferência que já seja uma pauta bem
mastigadinha, fornecido por um assessor de imprensa que quer fazer o
jabá de alguma merda.
Entrevista: Giuliano
Ventura
Imagens: Cocadaboa e No.