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Uma década sem Roland Ratzenberger
Na avalanche de especiais sobre Senna, pouco sobrou para o piloto austríaco

Coitado, patrocinado pela MTV não podia ir longe mesmo...Foram tantos especiais sobre a vida, a obra, a morte e a investigação da morte de Ayrton Senna que é muito difícil um brasileiro não saber alguma coisa sobre o ex-piloto. Até de playboy que curtia a vida e mulherengo discreto ele foi chamado. E, dez anos após o Grande Prêmio de San Marino de 1994, quase ninguém se lembrou do outro piloto que morreu em Ímola naquele fim-de-semana. Coitado de Roland Ratzenberger. Sua morte foi muito mais trágica e, provavelmente, sofrida que a do brasileiro.

Enquanto Senna estava disputando a liderança da corrida, em uma Williams, o austríaco buscava melhorar seu tempo no treino de sábado. No máximo, ganharia uma posição no fundão do grid. Afinal, não poderia esperar mais de seu Simtek, um carro estreante e que era mais conhecido por ter um enorme logotipo da MTV - sua principal patrocinadora - na carenagem. Ainda assim, sejamos honestos com o pessoal da Simtek: eles fizeram um carro melhor que a Pacific, uma das maiores bombas que a Fórmula-1 já viu e digna de disputar com a Andrea Moda e a Forti Corse o título de pior equipe da história da categoria.

Era sábado, 30 de abril. O treino oficial do Grande Prêmio de San Marino estava no fim quando Ratzenberger foi para a pista. Após o giro de aquecimento, iniciou sua volta rápida, passou pela reta, contornou a Tamburello e, no ponto mais veloz da pista, viu seu aerofólio traseiro sair voando. Sem o arrasto aerodinâmico necessário, perdeu o controle imediatamente, foi reto na curva Villeneuve e trombou no muro a 314 km/h. O impacto foi Ratzenberger com seu macacão esparsamente patrocinadotão forte que, no impulso, o carro ainda desceu a ladeira, só parando na curva seguinte, a Tosa. Foi um acidente muito mais impressionante que o que vitimou Senna. O brasileiro passou reto em uma curva, ainda conseguiu frear um pouco e só morreu porque deu o azar supremo de uma barra da suspensão passar pela sua viseira e perfurar seu crânio como uma bala de revólver. Nada a ver com a velocidade do impacto.

Ratzenberger, pelo contrário morreu, em bom português, pela pancada no muro. Assim que o carro parou, as imagens da televisão já mostravam o habitáculo do Simtek quebrado, a cabeça do piloto tombada e seu capacete ensangüentado. Não havia dúvidas que poderia ser o primeiro acidente fatal da Fórmula-1 em 12 anos (antes de Ratzenberger, a última morte havia sido a do italiano Ricardo Paletti, no Grande Prêmio do Canadá de 1982). O piloto austríaco foi levado ao centro médico do autódromo. O treino foi encerrado naquele momento e, minutos depois, a televisão mostrou médicos fazendo massagem cardíaca em Ratzenberger enquanto o levavam ao helicóptero que o transportaria ao hospital. Não demorou muito para sua morte ser confirmada. Coitado de Ratzenberger. Ninguém se preocupou em descobrir o responsável pela sua morte. Quem foi o culpado por seu aerofólio voar no meio da reta. E, se a Justiça italiana abriu essa investigação, nenhum meio de comunicação achou válido dedicar uma notinha que fosse ao acidente. Enquanto isso, uma declaração tola de Damon Hill, dizendo que Senna foi reto na Tamburello porque estava mais rápido do que devia, ainda desperta discussões acaloradas.

O homem, o mito

Se resolveram falar sobre a carreira de Senna, desde o kart e a Van Diemen na Fórmula Ford 1600, vamos falar um pouco do homem, do mito, Roland Ratzenberger. Apesar de ser um iniciante na Fórmula-1, o austríaco não era um garoto impetuoso que acabara de tirar sua carteira de motorista e teve destaque na Fórmula 3 italiana ou alemã. Ratzenberger nasceu em 4 de julho de 1960 em Salzburgo e já era formado em engenharia mecânica. Pelo menos essa é a data oficial, porque, para facilitar sua entrada no automobilismo, Ratzenberger foi "gato", mentindo sua idade em dois anos no início da carreira para parecer mais novo.

Com 26 anos, estreou na Fórmula Ford, categoria da qual conquistou o título austríaco, alemão e europeu. Em seguida, correu pela Fórmula-3 e no Turismo europeu no mesmo ano. Foi ao Oriente, onde disputou o Grupo C do turismo japonês e a Fórmula-3000 nipônica. No ocidente, participou apenas de provas especiais, com resultados respeitáveis como o 3º lugar nas 24 Horas de Daytona em 1992 e o 5º lugar nas 24 Horas de Le Mans (principal prova do turismo mundial). Em 1994, assinou um contrato para participar das primeiras seis provas do mundial de Fórmula-1 daquele ano pela Simtek, além do GP do Japão, onde era popular. Ficou de fora do GP do Brasil por não conseguir se qualificar nos treinos. No GP do Pacífico, largou em último e chegou em 11º lugar. O GP de San Marino seria sua segunda corrida.

Ubiratan Leal