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Mau humor na TV
Começou a nova e decepcionante safra de humorísticos televisivos

Iarnuôu... Seu Creysson e a noiva Solange, do BBBBem depois do Carnaval, na semana de 12 a 18 de Abril, é que a televisão brasileira achou por bem começar o ano de 2004. Na verdade a Globo, que é a emissora que impulsiona essas mudanças de programação no país, definiu a data não pelo feriado do baticundum mas sim para tapar os buracos deixados pelo final da enésima edição do Big Brother Brasil, o túmulo da carreira jornalística do repórter e poeta Pedro Bial. Com o encerramento das tais espiadinhas, velhos medalhões voltam a seus horários habituais e algumas experiências do ano passado vão para o limbo, substituídas pelas mais novas novidades. Este ano, aparentemente, a escolha principal da gerência foi a produção de humorísticos, pena que tenha faltado inspiração para os atores, roteiristas, câmeras e diretores envolvidos nas empreitadas.

A semana do humor começou de fato na terça-feira, dia 13, com a volta da mais bem-sucedida de todas as produções do gênero nesta última década. Depois de longas férias e da experiência de ter rodado seu primeiro filme, o “Casseta & Planeta” deu início a sua temporada 2004. Para frustração quase que generalizada, os cassetas não aproveitaram o recesso para renovar o estoque de piadas, pelo menos é o que aparentou o programa de re-estréia. Com uma constrangedora participação de Solange, uma das ex-integrantes do já citado Big Brother Brasil, o programa voltou a bater pino como não acontecia há tempos, dando saudade do tempo em que ele era atração mensal da Globo e não uma super-exposta edição semanal de esquetes. Nem a maior esperança da temporada, uma série de curtas animações, se salvou. “A Família Suplicympsons” surpreendeu pela tosquice e pela fraqueza das sacações. Falta ver ainda “Bebum Esponja” e “Os Ministros Superpoderosos”, agendados Claudia Rodrigues, "talento" em alta na Grobopara os próximos programas, mas quem esperava algo no estilo de “Deus é Pai” do Alan Sieber (aliás, o gaúcho, que teve sua série animada cancelada na MTV por pressão da Igreja, agora é vizinho dos cassetas no Rio) acha bem difícil que o tom seja acertado.

Na mesma terça, a Globo mostrou também suas novas apostas com “A Diarista”, seriado protagonizado pela ex-“Escolinha do Professor Raimundo” e ex-“Zorra Total” Claudia Rodrigues. Do mesmo jeito que a nova atração pós-“Fantástico”, “Sob Nova Direção”, essa novidade não é tão nova assim: os dois projetos foram alguns dos especiais testados no final do ano passado e, pelo jeito, foram os que mais agradaram a platéia. Com a chance de virar seriado semanal, “A Diarista” parece reciclar o filme menos famoso de Fernando Meirelles, Domésticas, até porque, em sua nova versão, assim como aquele longa-metragem, é encerrado com depoimentos reais (infelizmente, a senhora que abriu o quadro parecia tão intimidada com as câmeras que não conseguiu transmitir a menor naturalidade á atração). No mais, a estréia ficou devendo em todo o resto, com uma historinha nada original da empregada que vai trabalhar no apartamento de um artista plástico e confunde as obras de arte com lixo...

Executivos de TV acreditam que essa Heloísa Périssé faz "humor jovem"O dominical “Sob Nova Direção” também deve ter alguma razão de existir que ficou oculta em sua estréia como série. As protagonistas aqui são Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães, que têm currículo parecido com o da colega Claudia Rodrigues, acrescido de um espetáculo teatral sucesso de público chamado Cócegas e o finado quadro do “Fantástico” “Papo Irado”. Para quem não viu, o seriado é a história de uma perua (Heloísa) que ao se separar do marido ganha na justiça um bar fuleiro que ela, ao lado de uma sócia (a Ingrid, claro) tenta transformar em um sucesso (ou, no dialeto empregado no programa, “fazer bombar”). Ocupando o horário que já pertenceu ao nada saudoso “Sai de Baixo”, “Sob Nova Direção” consegue a proeza de não inovar absolutamente nada em relação ao estilo besteirol do antigo programa de fim de domingo. Em seu primeiro episódio como série, a atração do boteco é um novo drink que vira sensação entre a playboyzada que passa a freqüentar o lugar, numa cópia deslavada de um dos mais famosos desenhos dos “Simpsons”, aquele do Moe Flamejante. Alguém devia avisar a Fox. Assim como “A Diarista”, “Sob Nova Direção” ganhou um extra ao passar de programa teste a seriado semanal: não, nada de depoimentos reais de donos de botequins, apenas umas animaçõezinhas 3D, meio fracas, mas bem melhores que o elenco de carne e osso do seriado.

No mesmo domingo, durante o inacabável “Fantástico”, estreou o novo quadro humorístico que substitui o já desgastado “Retrato Falado”. Ao contrário de “A Diarista” e “Sob Nova Direção”, que não chegaram a decepcionar, pois nunca se poderia esperar muita coisa deles, o tal novo quadro prometia ser bem melhor do que demonstrou em sua estréia. Por trás do título infame, “As 50 Leis do Amor”, escondia boas cabeças. No elenco estão Diogo Vilela, Débora Bloch e Andréa Beltrão, atores que renovaram o teatro carioca e se consagraram na TV com o melhor do humor dos anos 80 em “TV Pirata” e “Armação Ilimitada”. Na direção está Guel Arraes, que além de ter passado por aqueles mesmos programas pioneiros aprimorou seu estilo nos anos 90 na “Comédia da Vida Privada” e em suas minisséries como o “Auto da Compadecida”. Escrevendo o texto, o casal Suplicympsons: Casseta já viveu dias melhoresAlexandre Machado e Fernanda Young, que mesmo longe de ser unanimidade (principalmente ela), merecem reconhecimento por ser responsável pelo último seriado humorístico de qualidade que surgiu no país: “Os Normais”. Apesar do time ser bom, a estréia de “As 50 Leis do Amor”, com as duas primeiras leis da série, foi a pior decepção da semana. Tomara que acertem a mão nas próximas 48.

O pior é que a coisa não parou por aí. Para seguir a tendência global, os outros canais correram atrás do filão naquela mesma semana. O SBT finalmente tirou da gaveta “Meu Cunhado”, com Moacyr Franco e Ronald Golias, naquela mistura de geriatria com assistencialismo que mantém vivas coisas como “A Praça é Nossa”, “Turma do Didi”, “Zorra Total” e para onde periga cair “A Grande Família”. Seguindo a linha “Meu Cunhado” da mais completa ausência de talento técnico e artístico, a Rede TV! reprisou uma sitcom produzida por João Kleber, aquele pesadelo dos Anos Collor que se recusa a desaparecer. O Futuro não promete ser melhor: a Band negocia com aquele tal de Gilberto Barros para ele ceder um espaço em seus programas diários para um novo humorístico semanal (e aquela emissora já foi responsável por tragédias do nível de “A Guerra dos Pintos” em passado não tão remoto). A própria Globo promete mais bomba ainda este ano: outro dos programas testados em 2003, “Papo de Anjo”, com Claudia Jimenez e aquele cara parecido com o Tom Hanks, depois de ser vetado como quadro do “Fantástico”, deve virar atração semanal no segundo semestre, talvez substituindo o não-cômico “Carga Pesada”. Enfim, já que rir para não chorar é uma opção que fica inviabilizada por motivos óbvios, o negócio é torcer para que essas porcarias tenham uma vida tão breve quanto “Sexo Frágil”, defenestrado das noites de sexta sem deixar vestígios.

Romeu Martins