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Só faltou o polaco
Mostra em Curitiba destaca o início da produção de Roman Polanski

Polanski e Rafael Pilha: separados ao nascimento?Foi uma bela chance desperdiçada. A passagem de Roman Polanski pelo Brasil, no mês passado, poderia ter contentado a colônia polonesa e o próprio diretor se ele tivesse esticado o passeio até Curitiba - depois de passar pela cidade em 1980, o papa João Paulo II virou nome de parque e tudo. Tá, a agenda estava apertada e Polanski passa dos setenta, mas a oportunidade de vê-lo próximo dos conterrâneos comendo um pierogue no bairro do Abranches seria uma bela imagem a ser explorada pelos administradores locais nesse ano eleitoral. Se fizeram o mesmo com Francis Ford Coppola no ano passado...

Ainda mais que os filmes apresentados na mostra (um longa-metragem e sete curtas) captam Polanski ainda em sua terra natal (N.E.: Ele nasceu em Paris, mas aos dois anos foi viver na Polônia, terra de seus pais), antes da ida à Inglaterra, onde filmou Repulsa ao Sexo e A Dança dos Vampiros, e das festinhas com adolescentes na casa dos amigos (só pra lembrar aquele episódio com uma menor de idade na casa de Jack Nicholson que fez com que o diretor fosse proibido de entrar nos Estados Unidos). São produções realizadas entre 1957 e 1963, com exceção do engraçadíssimo curta O Boy do Set, lançado em 1998 e falado em francês. Trazida pelo Consulado da Polônia, a mostra Roman Polanski ficou em cartaz na Cinemateca de Curitiba entre os dias 16 e 18 de abril, com entrada franca.

Na primeira sessão, foi exibido o longa-metragem A Faca Na Água, lançado em 1962 e em preto-e-branco. Filme barato, com apenas três personagens e poucas locações, A Faca Na Água conta a história de um casal que dá carona a um jovem estudante e o convida para ficar uma noite no barco em que costumam passear. Apesar da narrativa ser lenta e o filme aparentar mais do que os 100 minutos de duração, a trama é bem armada e a mão do diretor já aparece nas tomadas inusitadas e no cuidado ao colocar tensão em seqüências de puro diálogo. A proximidade dos personagens com a violência e a traição é constante, apesar de que quase nunca seja explícita.

O surrealismo de Buñuel é influência notável em "Dois Homens e um Armário"Na sessão seguinte, foram exibidos sete curtas, quase todos sem falas. No primeiro deles, Vamos Acabar com a Festa (57), só dá pra dizer que é um Polanski legítimo porque o nome dele aparece nos créditos: historinha boba e direção meio tosca mostram que o cara definitivamente não nasceu gênio. Teve também outras duas pequenas bobagens que não chegam a três minutos e que encerraram a mostra num anti-clímax total. Em compensação, curtas como Lampa, Dois Homens e um Armário e Quando os Anjos Caem (todos filmadas entre 1958 e 1963) dão uma mostra de como Polanski lapidou sua produção ao longo dos anos.

Em Quando os Anjos Caem, ele faz a sua primeira referência à guerra (com pelo menos uma seqüência que seria lembrada em O Pianista), num curta que mistura Buñuel e experimentalismos em sépia, cor e P&B. Em Dois Homens e um Armário, mais surrealismo, com as aventuras de dois sujeitos que saem do oceano carregando um armário por toda a cidade, sendo rejeitados por todo mundo e evitando uma série de incidentes. Mas o mais divertido é O Boy do Em São Paulo, fazendo média com a camisa da SeleçãoSet, um falso documentário em homenagem a Alfred Lepetit, conhecido como "o mais perfeito boy de sets de filmagem do cinema". O curta tem convidados especiais (como a atriz francesa Charlotte Rampling e o próprio Polanski, entre outros) que prestam depoimentos sobre a importância de Alfred na história do cinema: "Alfred vivia correndo tanto atrás das coisas que nas poucos fotos que temos ele aparece fora de foco", comenta um dos personagens.

Depois da maratona de cinema polonês - as duas sessões juntas chegaram a quase três horas e meia - dá pra entender um pouco a evolução dos filmes de Polanski, suas fases consecutivas (a inglesa, a americana e por fim a francesa) e notar um amplo lado de humor que não se repetiu em seus futuros filmes, com exceção de A Dança dos Vampiros. Só faltou mesmo a participação do polaco nessa história toda.

Fabrício Rodrigues