Matéria
Como ser expulso
de Patópolis
Exageros e mistificações
na mais famosa crítica à Disney
O
assunto aqui é Para Ler o Pato Donald - Comunicação
de Massa e Colonialismo, mas antes de começarmos a falar
do livro escrito em 1971 pelo chileno Ariel Dorfman e pelo belga Armand
Mattelart é preciso deixar uma coisa bem clara: esse pode até
ser o mais famoso ataque já feito ao mundo criado por Walt Disney,
mas está longe de ter sido o primeiro. Décadas antes da
dupla ter apontado as contradições daqueles personagens
que não são pai e filhos, apenas tios e sobrinhos, e que
aparentemente desconhecem o sexo, as Tijuana Bibles já sacaneavam
com tal particularidade, promovendo orgias com os patopolenses; e todo
o teor político da ideologia Disney de conformismo, autoritarismo,
consumismo, moralismo e puritanismo já era implacavelmente denunciado
na década de 60 pelos alucinados da Zap Comix, que adoravam
desenhar Mickey usando drogas e envolvido com reveladoras suásticas
(só para lembrar, já falamos desses dois casos nas matérias
Entre Bíblias e Catecismos e Política
e Quadrinhos). Mas com suas dezenas de edições em
diversos países e com mais de um milhão de exemplares
vendidos, Para Ler o Pato Donald muitas vezes é citado
como sendo a obra definitiva sobre o assunto, um estudo sério
sobre as manipulações e a lavagem cerebral que se escondem
nas histórias marcadas com a onipresente assinatura de Walt Disney.
Porém, chamar o livro de estudo sério é exagero
e, como veremos, Dorfman e Mattelart também praticaram suas manipulações.
Para entender o livro é preciso
lembrar de onde ele surgiu. A obra era parte de um projeto de educação
popular criado pelo governo de Salvador Allende, um socialista que chegou
ao poder no Chile pelo voto, em 1970. Promovendo a reforma agrária
e a nacionalização de bancos e minas, aquela foi uma experiência
única em nosso conturbado continente. Para cumprir a tradição,
ela chegou ao fim do modo clássico, com um golpe militar. Em
1973, o 11 de setembro foi por conta dos Estados Unidos: naquele dia,
um levante apoiado pelos americanos, que já vinham boicotando
a compra do cobre chileno, terminou com a morte de Allende e com a posse
do general Augusto Pinochet, mais tarde o responsável pelo assassinato
de mais de 2 mil pessoas. Que ninguém duvide das tentações
imperialistas dos EUA. Então o livro surgiu em um mundo polarizado
e paranóico e, neste ponto, Para Ler o Pato Donald reflete
bem o espírito da época. Panfletário, sectário
e radical, o livro apesar (ou, talvez, por causa) de seus defeitos virou
leitura e fonte de citações obrigatórias a mais
de uma geração. Tanto que ele é listado em outra
obra tremendamente provocativa, lançada há poucos anos:
O Manual do Perfeito Idiota Latino Americano. Essa peça
de autoria de três ex-esquerdistas coloca o livro ao lado de,
entre outros, As Veias Abertas da América Latina, de Eduardo
Galeano, Guerra de Guerrilha, de Che Guevara, e Desenvolvimento
e Dependência na América Latina, do nosso querido ex-presidente
FHC em parceria com Enzo Faletto.
Como
se vê, a mitologia e a controvérsia que cercam Para
Ler o Pato Donald é grande, do tamanho de sua capacidade
de angariar fãs e de provocar inimigos. Por ocasião do
lançamento da Saga de Tio Patinhas, no meio do ano passado,
o jornalista Antonio Luiz M. C. Costa, na revista Carta Capital,
fez uma comparação das mais interessantes. Na matéria
"Revisionismo em Patópolis" ele escreveu que o livro
chileno ("o Watergate dos quadrinhos") "às vezes
parece a imagem invertida do reacionário Seduction of the
Innocent, livro do psiquiatra norte-americano Frederick Wertham
[na verdade o primeiro nome do autor é Fredric e ele nasceu em
Nuremberg, Alemanha]". A analogia entre as duas obras é
fundamentada. Seduction foi lançado em 1954, quando seu
autor ocupava o cargo de psiquiatra-chefe do Hospital Belleview, de
Nova Iorque, e seus estudos relacionando saúde mental e criminalidade
já tinham prestígio em todos os EUA, país para
onde ele emigrou em 1922, aos 27 anos. Wertham começou a atacar
as HQs em 1948, em artigos para revistas, sempre associando a delinqüência
infantil com a leitura de gibis. No clima de caça às bruxas
da década de 50 nos EUA, logo se formaram comissões no
Senado para averiguar o potencial das comics para promover subversão
política, desvios sexuais e incentivar crimes (parênteses
rápidos: foi nessas ocasiões que Walt Disney em pessoa
aproveitou o momento para dedurar vários de seus artistas como
simpatizantes do comunismo, fato que multiplicou em muito o ódio
que a esquerda sempre lhe dedicou).
"O Método mais insidioso de
Wertham para condenar a indústria dos quadrinhos era sua freqüente
alegação de culpa por associação",
escreveram os jornalistas americanos Willian Christensen e Mark seifert
em uma matéria para a revista especializada em HQs Wizard
(publicada pela edição nacional, então produzida
pela editora Globo, em fevereiro de 1997). "Muitas crianças
que cometem crimes liam quadrinhos e, portanto, de acordo com Wertham,
os quadrinhos eram a causa da delinqüência infantil. Ao chegar
a esta conclusão, Wertham ignorou claramente quaisquer outros
fatores envolvidos". Não demorou muito, como lembraram os
jornalistas, para a molecada da época perceber que pôr
a culpa de seus delitos nas revistas despertava a simpatia e a compaixão
das autoridades, dos médicos e da imprensa. Os resultados de
um livro escrito com uma base de pesquisa tão viciada e das pressões
políticas que gerou são claros: pilhas de quadrinhos foram
queimadas em público, títulos de revistas e até
editoras saíram de circulação e a indústria
criou um restritivo código de ética, representado por
um selo na capa das HQs mainstream, promovendo a autocensura e limitando
a liberdade de criação de seus artistas contratados. A
intolerância com os chamados meios de comunicação
de massa produzia um dos mais lamentáveis espetáculos
em plena "Terra da Liberdade" há exatamente meio século.
Seduction
da esquerda - Só para citar um dos escritores favoritos dos
autores de Para Ler o Pato Donald, a história se repetiria
como farsa 17 anos depois do livro de Wertham, desta vez no Chile recém-socialista.
Assim como o psiquiatra, Ariel Dorfman e Armand Mattelart ocupavam cargos
de prestígio no novo regime chileno: o primeiro era membro da
Divisão de Publicações Infantis e Educativas de
Quimantu e o segundo, chefe da seção de Pesquisa e Avaliação
de Comunicações de Massas de Quimantu e professor-pesquisador
do Centro de Estudos da Realidade Nacional. No prólogo, não
bastassem essas credenciais acadêmicas, a dupla agradecia ainda
aos "companheiros estudantes da Universidade Católica e
do seminário 'Subliteratura e como combatê-la'", aparentemente
promovido pelo Departamento de Espanhol da Universidade do Chile. Para
deixar bem claro sua posição já de princípio
contrária à chamada cultura de massa, nesse mesmo prólogo
os autores delinearam que, tendo concluído a obra, o próximo
passo seria fazer "uma ampla divulgação, ainda mais
maciça, das idéias básicas deste livro, que desafortunadamente
não podem ser compreendidas devido ao nível educacional
de nossos povos, por todos os leitores aos quais gostaríamos
de chegar. O ritmo de penetração de massa destas críticas
não pode obedecer à mesma norma popularesca com que a
burguesia vulgariza seus próprios valores". E assim, de
modo tão dialético, querendo ser popular, mas não
popularesco, querendo chegar às massas, mas sem ser vulgarizado,
começa a obra.
De
princípio imaginamos que o livro deveria ser uma obra científica,
com rigor metodológico, fruto de um acompanhamento sistemático
do objeto de estudo, correto? Na verdade, em uma nota publicada na pág.
25 (a numeração diz respeito à segunda edição
brasileira do livro, publicada em 1980 pela Paz e Terra) a dupla revela
que "o material de estudo" utilizado é bem mais modesto
do que poderíamos imaginar pela repercussão que tais críticas
atingiram nos anos seguintes, já que foram apenas 100 revistas.
A explicação: "devido à dificuldade para obter
todas as revistas publicadas, optamos por utilizar as que adquirimos
regularmente desde março de 1971 [o livro é de setembro]
e as anteriores que adquirimos pelo sistema de revenda". Nenhuma
análise mais aprofundada de uma companhia que vinha publicando
HQs regularmente desde os anos 30, nenhuma entrevista com algum dos
vários autores, ou mesmo pesquisa bibliográfica sobre
o assunto. Só aquela amostragem serviu para tirar conclusões
que vêm sendo repetidas há mais de 30 anos.
E apesar da modesta amostragem, os autores
não se intimidaram em tirar conclusões definitivas. A
ausência de relações familiares consideradas normais
(pais e filhos), bem como o repúdio ao sexo e de explicações
sobre o nascimento e morte dos personagens seria parte de uma trama
muito bem planejada. "Desgastando o passado efetivo do personagem,
assim como a possibilidade de que este se interrogue a respeito da situação
em que se encontra, elimina-se a única perspectiva pela qual
o personagem possa situar-se fora do mundo em que submergirá
para sempre. Tampouco o futuro lhe servirá; a realidade é
invariável" (pág. 27). A intenção seria
das mais diabólicas, negar as relações familiares,
o que leva os autores a acusar que "É Disney o pior inimigo
na colaboração natural entre pais e filhos" (pág.
30). Se medirmos por essa régua, é difícil absolver
Monteiro Lobato, quem em seu Sítio do Pica-Pau Amarelo deixou
Pedrinho e Narizinho aos cuidados da avó e fez surgirem Emília
e Visconde de legítimos eventos assexuados. Isso para ficar em
apenas um exemplo, dentro de vários da literatura infantil, quadrinizada
ou não.
Às vezes as frases são ditas
com invejável firmeza apenas para serem desmentidas mais à
frente. A questão do afeto entre os personagens, que para os
autores é sempre alvo de barganhas e trocas financeiras é
um bom exemplo. "Ninguém ama ninguém, jamais há
um ato de carinho, ou lealdade ao próximo. O homem está
só em cada sofrimento: não há mão solidária,
ou gesto desinteressado" (pág. 29). Palavras fortes, mas
mesmo dentro da limitada base de dados disponível, os escritores
encontraram exemplos para se contradizerem, quando lembram da existência
de Mickey. "O único ser à margem da busca do ouro
para si, o único que sempre aparece como ajudante
dos demais em suas dificuldades, sempre consegue a recompensa para o
outro" (pág. 99, os grifos estão no original). E
não acabou a seção de elogios ao camundongo: "Mickey
é um agente pacificador não-oficial, e não recebe
outra compensação além da própria virtude
(...) Pode-se confiar em Mickey como um juiz imparcial, e agente que
está por cima 'dos ódios partidários'" (pág.
100). Na verdade, na pág. 84, Dorfman e Mattelart também
descrevem uma atitude de desprendimento dos patos, Donald e sobrinhos,
que em uma história acham uma nota de dinheiro, mas a devolvem
à verdadeira dona, sem querer recompensas. Mas aí já
é demais, e os intelectuais desconfiam que há algo de
suspeito por trás dessa aparente "mão solidária,
ou gesto desinteressado".
Países
exóticos - Mas de outras certezas a dupla não abre
mão e insiste nelas por todo o livro. O tratamento que tais HQs
prestam aos diversos países do mundo, por exemplo. No seu terceiro
capítulo, o livro diz que Disney distorce a realidade de cada
nação para cumprir uma "função-modelo"
dentro de um processo de invasão pelo padrão das histórias,
da mesma forma que a companhia montou sua Disneylândia, "o
reino embruxado", nas terras virgens dos EUA. E quando um gibi
trata de algum país que já entrou em guerra contra a superpotência,
a comparação feita é bem mais fatalista: "enquanto
os marines passam os revolucionários pelas armas, Disney
os passa por suas revistas. São duas formas de assassinato: pelo
sangue e pela inocência" (pág. 53). Mais à
frente, os autores queixam-se dos estereótipos explorados pelo
mundo dos patos, afirmando que caricaturas dos países e de seus
habitantes são usadas à exaustão, sempre com a
pior das intenções possíveis. "Nossos países
se transformam em latas de lixo que se renovam eternamente, para o deleite
impotente e orgiástico dos países centro. Na televisão,
rádio, revistas, jornais, charges, notícias, aparecendo
em conversações, filmes, livros, sofisticando-se nos textos
de história, desenhos, roupas, discos, todos os dias, neste mesmo
momento, leva-se a termo dissolução da solidariedade internacional
dos oprimidos. Estamos separados pela representação que
fazemos dos demais e que é nossa própria imagem refletida
no espelho" (pág. 63). É possível entender
que os autores dessas palavras tenham preferência por determinado
estilo narrativo e estético, tal como o realismo socialista.
É direito deles. Mas seria interessante que para desenvolver
seu estudo sério eles tivessem pesquisado um pouco sobre as formas
de representação humorísticas que foram empregadas
em tais HQs. Poderiam para tanto ter usado um clássico russo
A Obra de François Rabelais e a Cultura Popular na Idade Média,
de Mikhail Bakthin, um dos mais densos estudos sobre o humor já
feitos. O livro original é de 1965 e em 1970 já tinha
sido traduzido para uma língua que Armand Mattelart certamente
entendia, o francês.
Mas
em seu livro de 1971, Mattelart e Dorfman não abriam mão
de que o mundo Disney deveria se comportar exatamente como eles pensavam.
E não apenas os protagonistas, como também os vilões
deveriam ter ideais revolucionários, caso dos Irmãos Metralha,
que foram assim descritos: "Eles desejam o dinheiro para serem
burgueses, para se converterem nos exploradores, e não para abolir
a propriedade" (pág. 83). Sinceramente, pense no tamanho
das críticas dos autores caso a quadrilha realmente usasse algum
discurso pró-marxista... Alguns outros ataques também
caem no ridículo pela aparente crença da dupla de intelectuais
de que tudo, absolutamente tudo, nas HQs é nanometricamente projetado
para atender a algum plano maquiavélico. Caso do uso das cores
nas revistas: na pág. 105 eles notam que por vezes variam os
tons empregados nos cenários ("a mesma cozinha de Donald,
em quatro quadros sucessivos, é azul celeste, verde, amarela
e vermelha"). Ou, de forma ainda mais brusca, mudam constantemente
as cores dos bonés de Huguinho, Zezinho e Luisinho. A explicação
para isso? Desatenção do colorista, nem pensar: "Esta
troca de ambiente conservando a substancialidade e a rigidez das coisas,
a eterna permanência do mesmo gorro que só ganha ou perde
uma pincelada, é o correlato da novidade tecnológica.
Tudo se move, mas nada muda". Sem comentários.
Como aquelas revistas não refletiam
suas idéias, qualquer utilidade era negada. "É falso,
então, o valor educativo e estético destas histórias
em quadrinhos, que se apresentam como uma viagem pelo tempo e pela geografia,
ajudando o pequeno leitor em seu conhecimento da história humana
(templos, ruínas etc.). Essa história existe para ser
destruída, para ser devolvida ao dólar que é seu
único progenitor e tumba. Disney mata até a arqueologia,
essa ciência das manufaturas mortas" (págs. 74 e 75).
Para rebater tal exemplo de crença no determinismo, vou dar a
palavra a Keno Don Rosa, um dos mais consagrados artistas Disney da
atualidade, que escreveu o seguinte texto no segundo volume de A
Saga de Tio Patinhas, publicado pela Abril: "Você também
não acha extraordinário que aqui em Louisville, no Kentucky
[terra natal do escritor e desenhista], rodeado pelas poucas pessoas
que conheço, eu tenha encontrado três que se tornaram arqueólogos
profissionais simplesmente porque cresceram lendo as aventuras do Tio
Patinhas criadas por Barks?".
Texto
suspeito - Esse mesmo Barks, citado por Don Rosa, foi vítima
de uma suspeita manipulação por parte do livro chileno.
Carl Barks pode até parecer, mas não é nenhuma
corruptela de Karl Marx, mas sim o nome do maior criador de HQs dos
estúdios Disney. Ao longo de Para Ler o Pato Donald seus
autores usaram trechos de histórias em quadrinhos pesquisadas
para demonstrar suas teorias.
Algumas
das cerca de 500 que foram criadas por Barks estão lá,
entre elas um quadrinho de "Perdidos nos Andes" ("Lost
in the Andes", 1949), uma das mais cultuadas pelos admiradores
daquele quadrinista. O que chama a atenção é o
texto dos balões. Na pág. 28 do livro, o líder
da fictícia Quadradópolis diz que vai dar uma bússola
para Donald e seus sobrinhos encontrarem o caminho de volta para casa,
mas em troca pede que os patos ensinem algo de útil para seu
povo. No livro, a resposta é "Ensiná-lo-emos a curvar-se
diante dos governantes". Mas quem leu alguma versão daquela
história que tenha sido publicada no Brasil, seja, por exemplo,
no especial de 50 anos do Pato Donald, de 1984, ou na revista Pato
Donald # 2158, de 1999, nunca viu tal frase ser impressa. A promessa
dos três pequenos patos é a de ensinar uma música
aos quadradopolenses. Aparentemente foi uma manipulação
digna dos truques fotográficos de Josef Stálin, mas para
afirmar com certeza seria importante comparar os originais do livro
chileno e a versão daquele país da HQ. Se alguém
souber como consegui-los, por favor, entre em contato (marca_diabo@yahoo.com).
Enfim,
com seus exageros e seu discurso radical, o objetivo ambicioso de
Para Ler o Pato Donald é descrito claramente em sua conclusão:
"Este livro não surgiu da cabeça aloucada de indivíduos,
mas converge para todo um contexto de luta a fim de derrubar o inimigo
de classe em seu terreno e em nosso terreno" (pág. 133).
O inimigo mais óbvio é o universo Disney no particular,
claro, mas os quadrinhos em geral merecem a desconfiança dos
autores sempre que citados, Gaguinho e Petúnia, Pica-Pau, Tom
e Jerry (todos na pág. 26), o belga Tintin (pág. 55) e
os super-heróis, como Super-Homem, Batman e Zorro (todos na pág.
118, onde se lê que "o fundo ideológico é o
mesmo, porém, Disney, ao não mostrar a força repressiva
abertamente, é muito mais perigoso"). Mas o alvo também
pode ser entendido como sendo mais profundo que as HQs, americanas ou
não, se estendendo para tudo o que era classificado como cultura
de massa (uma expressão que hoje parece ter sido substituída
para a igualmente tola "cultura pop"). Dessa forma intolerante,
os escritores agiram tal e qual seus inimigos conservadores: no livro
eles ridicularizam editoriais de um dos principais jornais do Chile,
o conservador El Mercurio, por discursarem contra material didático
considerado propaganda marxista e outro em que atacavam o excessivo
erotismo em revistas infantis. Um pouco de autocrítica por parte
de Dorfman e Mattelart poderia ter feito a dupla refletir se não
estaria se comportando como os moralistas redatores do jornal chileno,
ou, voltando no passado, massacrando uma mídia como havia feito
o Dr. Wertham nos EUA dos anos 50, ou ainda repetindo um certo pintor
austríaco frustrado chamado Adolf, que chegou ao poder na Alemanha
da década de 30, e classificava a arte moderna como sendo prova
da degeneração judaica.
Para não dar a idéia de
que o objetivo aqui é linchar os autores, é bom lembrar
que o tempo passou e os dois atualizaram suas idéias, a ponto
de renegarem seu mais controverso livro. Ariel Dorfman, por exemplo,
após o golpe de estado no Chile, ironicamente buscou refúgio
nos EUA, e chegou a trabalhar com cinema ao escrever o roteiro de A
Morte e a Donzela, dirigido por Roman Polanski. Foram feitas as
pazes com a comunicação de massa. Só que, infelizmente
nem todos perceberam as mudanças nos tempos e nos conceitos,
pelo menos no que diz respeito na certeza das respostas absolutas ali
contidas. Hoje em dia, se Seduction of the Innocent é
lembrado como um triste momento do passado (apesar de muitos dos preconceitos
ali destilados ainda fazerem estrago no imaginário de quem desconfia
dos quadrinhos), Para Ler o Pato Donald - Comunicação
de Massa e Colonialismo continua sendo referência para muitos.
Não são poucos os cursos de comunicação
que têm o livro como leitura recomendada ou obrigatória,
nem sempre com os devidos filtros para que se separe seus acertos dos
inúmeros exageros. Com isso, são os quadrinhos que saem
perdendo, à direita e à esquerda, que deixam de ser vistos
como um importante meio de comunicação com infinitas possibilidades,
para além do mundo Disney e dos super-heróis. Para muitos
educadores, as HQs sempre vão ser só subliteratura que
deve ser combatida.
Para
terminar este texto que ficou muito maior que o planejado, vale lembrar
que as organizações criadas por Walt Disney merecem, sim,
muitas críticas. Na edição brasileira de Para
Ler o Pato Donald, por sorte, o tradutor foi Álvaro de Moya,
o maior especialista em HQs do nosso país, que escreveu um prefácio
onde consta uma dessas críticas que merecem ser repetidas. Moya
lembra que nos anos 50 ele trabalhou na Editora Abril desenhando capas
de Pato Donald e Mickey "e assinando Walt Disney, impossibilitado
de assinar minhas próprias histórias em quadrinhos, até
desistir para sempre do desenho. Fui para a televisão, mas jamais
abdiquei de minha ojeriza por Disney (infelizmente para mim, jamais
soube se ele assinava os cheques como eu assinava Walt Disney)".
Você pode pensar que isso é algo que ficou no passado,
coisa de meio século atrás, que hoje tudo melhorou. Mandamos
um e-mail para o já citado Keno Don Rosa, pedindo para ele, entre
outras coisas, comentar as críticas do livro de 1971. Don Rosa,
um artista que tem no currículo dois prêmios Will Eisner,
não respondeu diretamente nossas perguntas, mas sua justificativa
por si só é valiosa para o que é trabalhar no padrão
Disney. "Estou muito ocupado tentando me manter neste emprego tão
mal-remunerado. Por exemplo - vocês sabiam que eu não recebo
um tostão furado [red cent, no original] por todo o uso
que vocês estão vendo ser feito de minhas histórias,
de meus textos, de minhas fotos ou do meu nome no Brasil!? O mesmo vale
para o uso do meu trabalho em todo o restante do mundo. Eu recebo apenas
uma vez por cada história, e nada mais pelo material quando é
distribuído, dessa forma é difícil manter o nível
de produção para ganhar a vida. Então não
sei quando terei tempo para responder sua profunda entrevista".
Considere respondida.
Romeu Martins