Matéria
Clássicos
da Tenente Silveira
No Centro de Florianópolis,
um reduto dos praticantes do segundo esporte mais popular do Brasil
Quem
passa pela rua Tenente Silveira, no centro de Florianópolis -
e por ali passam milhares de pessoas por dia - não faz idéia
que, subindo as escadas ao lado de um bingo recém-fechado e caminhando
entre os pequenos "boxes" que vendem aviamentos e produtos
importados do Paraguai, acontecem grandes clássicos do futebol
mundial diariamente. Barcelona x Real Madri, Manchester United x Arsenal,
Fla x Flu, Caxias x América - ambos de Joinville - e tantos outros
times e seleções se enfrentam em dois estádios
no final do corredor. No Bazar Piá, única loja especializada
em futebol de botão da capital catarinense e talvez do Estado,
passes de atletas são negociados a cifras astronômicas,
rivalidades criadas, belos gols marcados, mas, principalmente, muitos
marmanjos, jovens, velhos e crianças divertem-se comandando seus
escretes em emocionantes partidas onde o que importa é ver a
bola, disco ou dado balançar as redes adversárias.
Todos os nossos pais já jogaram
futebol de mesa (tá, talvez uns três ou quatro preferissem
brincar de boneca e se regeneraram posteriormente), como é chamado
pelos profissionais de hoje, ou simplesmente "botão",
nome que vem da origem dos jogadores. E, já que nossos pais jogaram,
é muito provável que seus filhos também. Ou seja,
quase todo o brasileiro nascido desde 1930 ao menos já viu uma
partida de futebol de botão. Meu pai conta que, após "contratar"
os jogadores - o quer dizer roubar botões de sobretudos e capotes
em lojas e em casa - ele e seus irmãos (que são numerosos)
começavam a treiná-los para que eles entrassem em forma
para os jogos - os botões eram lixados e cortados com estilete
até ficarem no formato desejado pelo técnico. O futebol
de botão já tinha pré-temporada muito antes do
ludopédio real.
Após
estar com o esquadrão completo - incluindo o goleiro, uma caixa
de fósforo preenchida com chumbo ou areia - faltavam o campo,
as traves e a bola. O problema do local de jogo era fácil de
se resolver. Qualquer mesa razoavelmente grande ou um chão bem
liso. As traves eram feitas com paito de picolé, lápis
ou caixa de sapato recortada. A bola dava um pouco mais de trabalho.
Podia ser de rolha, modelada com estilete à exaustão até
ficar redonda, ou ainda de sabão com farinha, mas essa não
subia muito. Às vezes, não se sabe se por preguiça
de modelar uma esfera ou por dificuldades em achar um local totalmente
nivelado, a bola não era redonda, mas tinha a forma de um pequeno
disco, semelhante à usada nos jogo de hóquei no gelo...
ou, para simplificar, era um botão pequeno. Mas ainda há,
até os dias de hoje, um terceiro tipo de bola, menos conhecido,
chamado de dadinho. Sim, a bola, no futebol de botão, pode ser
quadrada.
"Dizem que o dadinho surgiu em alto-mar,
com os marinheiros cariocas que jogavam nos navios. Assim a bola não
deslizava de acordo com a inclinação da embarcação",
conta Rogério Kury, dono do Bazar Piá e jogador inveterado
há mais de quarenta anos. Bancário, Rogério dedica
seu tempo ao botão, mantendo a loja, organizando campeonatos,
fazendo divulgação do esporte, viajando atrás de
boas contratações para os times locais e tudo mais o que
for preciso para divulgar sua paixão. "A loja não
me dá lucro, mas eu ainda tenho esperança de ganhar dinheiro
com futebol de botão". Mas ele não espera ficar rico.
O maior tesouro que Rogério tem, através do esporte, é
o grande número de amizades feitas. "A gente conhece muita
gente legal. E eu já vi crianças, que vinham aqui jogar
virarem homens". O Bazar está aberto há seis anos,
e grandes negociações foram feitas nesse período.
"Já
me ofereceram 100 reais num botão, mas eu não vendi",
conta Rogério. orgulhoso e consciente que, se quiser manter seu
gigantesco plantel com mais de 1200 atletas de plástico, acrílico,
madrepérola ou galalite, não pode ceder às tentações.
Mas, para garantir, ele está transferindo boa parte do seu elenco
da sua loja para a sua casa. "Se eu não fizer isso, os caras
ficam insistindo e não aceitam um não como resposta. E
não adianta eu botar o preço lá em cima, porque
eles pagam", diz, espantado com o assédio dos grandes empresários
do futebol de botão. E nem sempre os botões mais caros
são os melhores. Há alguns, segundo o dono do Bazar Piá,
que não jogam nada, mas valem por sua raridade. Um exemplo são
os botões de galalite, material do qual eram feitas as fichas
de cassino, quando o jogo no Brasil ainda era legalizado.
"Eu conseguia dinheiro vendendo garrafas,
fazendo pequenos serviços. Tudo para poder comprar um botão
de galalite. O time tinha dez botões comuns e um de galalite,
e eu os guardava nessa caixinha de supositórios, com flanela
e talco para não arranhar". A caixinha de supositórios
é metálica e um pouco maior do que uma carteira de couro,
e também tem uma história interessante. Numa entrevista
dada à TV Capital, de Florianópolis, Rogério estava
com outro aficcionado que mostrou onde e como guardava seus botões:
numa pequena caixa de supositórios, com flanela e talco para
não arranhar. "Eu jogava no interior do Rio Grande do Sul,
e ele, em Paranaguá. Com tantos quilômetros de distância
nós fazíamos a mesma coisa!". E, em sua caixinha
de supositórios, um histórico time do Grêmio aguarda
uma chance para realizar um amistoso.
Entre os jogadores, um deles, o Áureo,
zagueirão tricolor dos anos 60, viveu seu momento de glória
ali nos balcões do bazar. "Certa vez chegou um sujeito sisudo,
daqueles gaúchos bem gaúchos. Não falava quase
nada, sério, com os dois filhos. E eu notei que,
cada
vez que ele abria a boca, falava no Grêmio. Ele comprou alguns
botões e, quando foi pagar, tirou o cheque e eu vi o nome. Áureo.
Perguntei se ele havia jogado no Grêmio e ele disse que não,
mas que seu pai, sim". Rogério então pediu que o
sujeito esperasse e buscou a caixinha, abriu e procurou o botão
do Áureo. "Aqui está o seu pai. Ele jogou no meu
time".
O filho do jogador se emocionou, abriu
um largo sorriso e ficou mostrando o botão aos filhos. "Esse
é o teu avô! Esse é o teu avô", repetia,
orgulhoso. "Isso é que é legal no botão. Esses
momentos únicos", ressalta Rogério, que garante ter
uniformes para botões de todos os times do mundo. Se ele não
tem na hora, arruma em pouco tempo.
Para cada lugar, uma regra
Talvez
o maior problema do futebol de botão nos dias de hoje seja a
infinidade de regras diferentes. Além dos três tipos de
bola, ainda há, no interior do Rio Grande do Sul, alguns loucos
que jogam com grãos de milho com bola. Então existem pelo
menos quatro "redondas" quase nunca redondas - a bola (que
hoje em dia é de feltro), o disco, o dado e o cereal. Some-se
a isso regras que incluem mexer nos jogadores - só quando for
gol, quando a bola sair em lateral, quando for falta... - arrumar o
goleiro - dentro da pequena área ou até a linha da grande
área - e, principalmente, regras que se referem ao número
de toques. Há desde a baiana, onde cada jogador tem direito a
um toque por vez, revezando-se independetemente de acertar a bola ou
não, até aquela de toques ilimitados por jogador. "Toda
a regra é boa, menos a que não tem limite de toques",
sentencia Rogério, que justifica. "É só fazer
um a zero e ficar tocando a bola indefinidamente, deixando o tempo passar".
Por isso, os campeonatos são realizados
com as diferentes categorias. Mas mesmo assim há confusão
de regras. Os jogadores se adaptam àquela que mais se assemelha
a sua e disputam o torneio. O próximo vai ser em Florianópolis,
no mês de outubro.
E assim os dias passam no Bazar Piá,
com partidas memoráveis, e nas casas de muitos jovens e marmanjos,
que gastam noites disputando torneios regados a churrasco e cerveja,
e não apenas no Brasil. Há futebol de botão até
em Israel. Levado, é claro, por um brasileiro. E lá deve
haver alguns Zicos, Pelés, Áureos e Mauros Champus (craque
do Íbis) desfilando seus talentos pelos gramados de madeira e
estufando as redes de filó.
Paulo de Tarso
Imagens: Liga
Skimböll e Ivan
Ribeiro