Entrevista
Profissão:
repórter rock n' roll
Claudio Tognolli,
um dos maiores repórteres investigativos do Brasil, volta a tocar
com o RPM 21 anos depois
No
começo dos anos 80 o RPM vendeu mais de 3 milhões de cópias
de seus dois primeiros discos. A banda se tornou um sucesso sem par
no rock nacional e logo depois implodiu. Essa história é
célebre. Uma outra - menos conhecida - é que alguns meses
antes do estouro nacional o guitarrista Claudio Julio Tognolli deixou
o grupo para se dedicar ao jornalismo. Mas sem síndrome de Pete
Best. Mesmo tendo estudado composição com o maestro Hans
Joachim Koellreuter, um dos mestres de Tom Jobim, e ganho moral como
instrumentista, Tognolli acabou se tornando não músico
profissional, mas um dos grandes repórteres investigativos do
Brasil.
São inumeráveis as matérias
importantes que fez ou as coberturas investigativas das quais participou
em veículos como Folha de S. Paulo, Jornal da Tarde
e Rádio CBN. Em 1998 ele já falava das investigações
sobre João Carlos da Rocha Mattos, o juiz que ganharia notoriedade
no ano passado por causa da Operação Anaconda. Matérias
sobre o crime organizado, lavagem de dinheiro e tráfico de drogas
estão entre suas especialidades. Tognolli ainda é o autor
da impagável expressão "máfia do dendê",
usada para defender o eficiente lobby de artistas baianos na mídia
brasileira. O repórter acumula
os títulos de mestre em psicanálise e doutor em filosofia
das ciências. Ganhou inúmeros prêmios jornalísticos
e seu livro O Século do Crime conquistou o Jabuti. Outra
de suas obras, A Sociedade dos Chavões, teve orientação
do guru-mor da psicodelia, Timothy Leary.
Perto de completar 40 anos, Tognolli hoje
é repórter especial da Rádio Jovem Pan e
do site Consultor
Jurídico, colunista do Observatório
da Imprensa e da revista Caros
Amigos, além de dar aulas de jornalismo na Unifiam e
na USP. Seu livro mais recente, A Falácia Genética
- A ideologia do DNA na mídia, chega em abril às livrarias
e trata da "moda" de se atribuir tudo aos genes. Tognolli
respondeu às perguntas do Marca Diabo por e-mail para falar um
pouco de tudo isso e sobre como foi voltar a tocar com o RPM 21 anos
depois.
Marca
Diabo - Você saiu do RPM pouco tempo antes do grande sucesso da
banda nos anos 80. Por que resolveu voltar agora?
Claudio Tognolli - Eu estudei
jornalismo na mesma classe do Paulo Ricardo, na ECA-USP. Entrei lá
em 1982. Ele tinha uma banda chamada PIF-PAF. Gostávamos de [rock]
progressivo, Genesis, etc. Eu estudava Villa Lobos no conservatorio.
Mas com o estouro do New Wave vimos que, para se fazer um som genial,
nao se necessitava de tanta coisa. Nosso exemplo era a faixa "Walking
on the Moon", do Police. Eu tinha aula na época com o Ulysses
Rocha, de longe hoje o melhor violonista do Brasil. Uma vez ele me pôs
essa faixa e disse "Veja, é virtuosismo estético,
não técnico". Acho que essa frase fez eu parar de
estudar guitarra doze horas por dia. O Paulo Ricardo foi ser correspondente
da revista Som Três em Londres. Eu fui trabalhar de diagramador
na Veja. Ele voltou, fez o RPM e estourou.
Tenho um grande amigo que é o genial
fotógrafo Rui Mendes, o cara que mais fotografou capas de disco
no Brasil. Ele é o produtor executivo do novo RPM. Me pediu para
emprestar meus instrumentos raros pro Paulo Ricardo. Fiz na hora. O
Rui é um mito prá mim. Foi ele que nos anos 80 inventou
os Picaretas, um grupo anarquista, do qual fiz parte, e que em 1982
ganhou da Libelu [Liberdade e Luta, organização trotskista
que dominava o movimento estudantil na USP] as eleições
no Centro Acadêmico da ECA. Fomos manchetes em todos os jornais.
Afinal, 1982, todo mundo voltando do exílio. E os anarquistas
levam as eleições.
O Paulo Ricardo veio em casa em janeiro
e levou emprestado um violão Martin D-0018, ano 1928, que comprei
há cinco anos por recomendação do Steve Howe, guitarrista
do Yes, que me disse numa entrevista que aquele era o Stradivarius dos
violões. O Paulo também levou uma Gibson de dois braços,
assinada pelo Jimmy Page [lendário guitarrista do Led Zeppelin],
que comprei em Fort Lauderdale em 1990, quando eu morava nos EUA pela
Folha para investigar o juiz Rocha Mattos. Ele quis também
o meu Theramin. Tenho ele há 15 anos. O Theramin é o primeiro
instrumento eletrônico da humanidade. Foi inventado em 1910 pelo
russo Lev Theramin. Trata-se de uma antena que emite escalas cromáticas,
como assobios, com a aproximação das mãos. Todos
os filmes de Hollywood que queriam imitar sons de marcianos, nos anos
50, usavam nas trilhas um Theramin. Ele foi usado em algumas faixas
clássicas: em "Whole Lotta Love", do Led Zeppelin,
em "Voices Inside My Head", do The Police, e no abre da música
"2112" do Rush. Acabei dando o Theramin pro Paulo Ricardo
de presente. O show do RPM vai ser aberto com o Theramin. Como você
vê não voltei [a ser integrante da banda]. Voltei apenas
a estreitar contato com o Paulo.
MD - As músicas estão
saindo em que estilo? Você compôs algo?
CT - Diria que é um estilo pós-moderno, a
dupla Sonic Junior, que faz parte do RPM agora, fez ali um trabalho
genial. Não compus nada. Toquei guitarra na faixa "Terra
Brasilis". Usei o meu aparelho Eventide Ultra HarmonizerEclipse,
que faz seis mil efeitos e só eu tenho ele no Brasil, ligado
nas guitarras, nas quais eu punha um E-Bow sustainer, aquele arco metálico
que, percutido nas cordas, faz com que elas ganhem timbres de violino.
Uma loucura, patchwork total. Essa é a escola do David Torn,
que produziu o último disco do Jeff Beck, que levou o Grammy
ano passado.
MD - Por que o Paulo Ricardo dispensou
o guitarrista Fernando Deluqui e o tecladista Schiavon?
CT - Não sei nada
dessa historia. Apenas num dos meus trabalhos, o Consultor Jurídico
do UOL, vi uma noticia em que os dois diziam que iam processar o Paulo,
então mandei o Paulo telefonar pro Consultor e dar a versão
dele. [Deluqui e Schiavon acusaram Paulo Ricardo de registrar a marca
RPM à revelia deles. O cantor nega.]
MD
- Ainda sobre música. Na sua já clássica entrevista
na Caros Amigos, você falava muito sobre a "máfia
do dendê". Você acha que a situação melhorou
de lá para cá? E o Gil como ministro, tem feito o jogo
do pessoal do dendê?
CT - O que esses dois [Gil
e Caetano] faziam é fichinha perto do que ocorre hoje. Jabaculê
de monte. Os dois são santos perto do que se faz hoje. O jabaculê
é tão grande nas televisões e rádios que
poucos artistas podem pagar o que se pede. Então quem fica no
top das paradas são cinco, no máximo oito artistas. Resultado:
para você ter o mercado de pirataria na mão, basta clonar
discos de cinco artistas. A pirataria derrubou o mercado oficial, nossa
pirataria é a maior do mundo, porque o jabaculê criou oito
ícones. Foi o jabá que destruiu nosso mercado fonográfico.
O que Caetano e Gil faziam era apenas pedir alguns favores, falar bem
de certos artistas. Nos anos 90, mandavam na área de cultura
da Folha. Não mandam mais.
MD - Na mesma entrevista, você
falava nos crimes do juiz Rocha Mattos. Por que demorou tanto tempo
para darem a devida importância para esse caso?
CT - Porque o Rocha Mattos
é fruto de uma elite que paga juízes. Depois que usaram
ele, jogaram ele fora. Devem ter encontrado um juiz mais poderoso ou
que cobrava menos por sentença. Veja esses trechos:
"Portanto,
é o governo, são os partidos que sustentam o governo que
querem amordaçar o MP [Ministério Público]. Porque
querem encobrir as suas relações com irregularidades.
Querem impedir a ação do MP. No caso da CPI do narcotráfico
e do crime organizado, ou da CPI do PC, ou da CPI do Orçamento,
e da atuação diária do MP, nós estamos lendo
nomes e filiações partidárias daqueles que são
denunciados, cassados. Acredito que o Brasil precisa de leis
para combater o crime organizado, narcotráfico e a corrupção.
O Brasil não precisa de leis para controlar o MP. Eu considero
isso uma mão para o crime organizado. Já disse e repito,
sem meias palavras: esses projetos de lei, essa PEC são instrumentos
que vão apenas estimular a impunidade e dar a mão para
o crime organizado." - Ministro José Dirceu, em entrevista
ao jornal da Associação Nacional dos Procuradores da República,
abril de 2000
"O ministro José
Dirceu (Casa Civil) defendeu ontem, durante ato de apoio ao deputado
federal Luiz Eduardo Greenhalgh (PT), um maior controle da atividade
do Ministério Público." - Manchete na Folha de
S. Paulo no dia 17/1/2004
"O ministro-chefe da Casa Civil,
José Dirceu, sugeriu que o Congresso Nacional tome providências
sobre a ''persistente e permanente violação'' de direitos
dos cidadãos pelo Ministério Público (MP) e por
parte da imprensa. Ao fazer a crítica ao MP, o ministro
disse que falava como cidadão. 'O Congresso Nacional precisa
se debruçar sobre essa situação de extrema gravidade',
disse,
sugerindo que a Ordem dos Advogados do Brasil agisse. 'Estamos vendo
a Constituição ser violada diariamente numa série
de procedimentos feitos seja pelo Ministério Público seja
pela imprensa', afirmou. 'Não é mais razoável tolerar
esse estado de coisas'." - Reportagem de O Povo de 17/1/2004
O mesmo José Dirceu que via no
controle do Ministério Público e na Mordaça uma
forma plural de aumentar a impunidade é hoje a nêmesis
de si próprio: nosso ministro Zé Dirceu de 2004 quer o
controle do Judiciário, do Ministério Público,
requer a Mordaça, porque o poder assim o demanda. É nesse
sentido que a Operação Anaconda deve ser entendida: um
ardil deflagrado para mostrar ao populacho que a Justiça "não
presta".
MD - Você é representante
de uma espécie em extinção, a dos repórteres
investigativos sem o rabo preso. Há chance de a espécie
voltar a povoar a imprensa brasileira?
CT - Já voltou. Fundamos
a Abraji, Associação
Brasileira de Jornalismo Investigativo para incentivar isto.
MD - Lendo um pouco o seu
site, percebe-se como há centenas de casos interessantes
que você cobriu e revelou informações importantes.
Você poderia citar alguns que ainda não receberam a devida
atenção (ou não repercutiram como deviam) na grande
imprensa?
CT - Sim: quais são
os donos de mídias que vão sigilosamente no governo pedir
grana, e quando não recebem saem por aí metendo a boca
no Lula.
MD - Qual o poder mais corrupto no
Brasil: Executivo, Legislativo ou Judiciário?
CT - Eis uma boa investigação a ser feita.
Vejo corruptos em todos os poderes.
MD - O chavão abunda no jornalismo?
Por quê?
CT - Você já
reparou que no jornalismo impresso as frases entre aspas se parecem
com o resto do texto? Parece que a pessoa que fala ao repórter
escreveu o texto também. Nas aspas não entram as hesitações
do entrevistado. Nos anos 20, Gertrude
Stein escreveu um belíssimo livro - Three Lives - em que
relatava as falas de uma escrava negra, de nome Melanchta, que mais
ou menos falava assim "eu disse que ia mas quando disse que ia
sabia que eu não ia porque eu ia mesmo sem saber que ia, e assim
ia indo". Ela escreveu cinco páginas com a Melanchta falando
assim, e os editores quiseram suprimir. Stein não deixou, porque
aquilo era um nível de fala, no conceito do professor Dino Pretti.
Depois, a Stein desenvolveu com base nisso os conceitos psicanalíticos
de ecolalia, sobre a fala repetitiva.
Pois
bem: o jornalismo industrial, seja na TV ou nas revistas e jornais,
suprime na edição as hesitações dos falantes.
Sem dúvida a forma fala mais que o conteúdo. Nossa imprensa,
ao tratar das aspas, suprime a forma. Agora, falando sobre os chavões,
não postulo a assepsia hospitalar deles. Mostro os chavões
como espírito de época - lembre-se que, depois que o Karl
Marx usou pela primeira vez aquelas metáforas geológicas
como "a crosta terrestre vai se romper para que a lava do proletariado
suba" etc. etc. etc., essas imagens começaram a ir para
a literatura e, depois, para a imprensa. O Oscar Wilde é o maior
gênio para analisar isso: em 1901, portanto há cem anos,
ele disparou: "Aristóteles estava errado. Ele dizia que
a arte imita a vida, mas é o contrário: a vida imita a
arte. Onde estavam as névoas de Londres antes que Turner as pintasse?
Não existiam. Ele teve de vê-las pela arte, primeiro, para
que depois elas passassem a fazer parte da vida, para que as pessoas
começassem a vê-las". O chavão funciona assim:
são formas geniais de se ver as coisas, mas que depois se desgastam.
Caem em desuso, e voltam. Os chavões eram recomendados na Retórica,
do Tertuliano. Repito: não postulo a retirada dos chavões,
nada mais chato do que textos sem eles.
Mas na música acontece o mesmo,
por exemplo. Toco desde os 7 anos de idade, venho de uma família
de músicos (minha irmã, hoje psicanalista, chegou a ser
concertista). Para você começar a ser alfabetizado musicalmente,
precisa, é óbvio, decorar as frases musicais. Então
eu passei por aquele processo de decorar frases musicais. E notei que
a música também tem seus chavões - em 1877, o crítico
inglês Pater escreveu que "todas as artes aspiram à
música, que não é outra coisa senão forma".
Quis provar que essa frase era uma falácia e comecei a catalogar
os clichês musicais.
Veja
que eles funcionam como na linguagem, e vou contar algo: nos anos 20,
nos EUA, um negão genial chamado W.C. Handy inventou o acorde
com duas notas, aqui chamado de bicorde. Os acordes são feitos
basicamente com o primeiro, terceiro e quinto graus da escala musical.
O terceiro grau define o modo, se o acorde é maior (alegre) ou
menor, triste. O Handy suprimiu o terceiro grau e depois disso, ou seja,
nos proximos 60 anos a partir dos anos 20, todos os guitarristas de
rock e blues usam o bicorde. Até que em 1978 um guitarrista inglês
chamado Andy Summers, do The Police, acrescentou o nono grau da escala
ao bicorde. O nono grau te transmite a sensação de estar
levantando vôo, ou pular numa piscina. Depois do Summers, a nona
virou um chavão. Sumiu, caiu em desuso e agora volta com toda
a força nas músicas do Limp Bizkit e nas vinhetas de violão
flamenco da novela O Clone. A música e os clichês
musicais, como se vê, me inspiraram a tudo. Os chavões
grassam porque são belíssimos espíritos de época.
O maior lugar-comum hoje é dizer que foi encontrado o gene daquilo,
o gene disto, que acharam o gene do homicídio, etc. Quando comecei
a notar isso, iniciei o meu doutorado em biotecnologia, na USP. Foi
defendido em 2002 e sai em livro agora em novembro, pela editora Escrituras,
chamado Falácia Genética: a Ideologia do DNA na Mídia.
Cada época cria a ideologia de que tem necessidade. Monsieur
Carlos Avighi, meu orientador, gosta de lembrar que, após Kennedy,
quando se necessitava da idéia da "Grande Nação",
tudo o que era autoridade local, vilarejo, condado, começava
a ser pintado, pelo atalho de Hollywood, com cores sombrias, com ares
endemoniados.
Ignácio Ramonet fala da febre hollywoodiana,
após os escândalos contra o FBI nos anos 60, de trocar
o herói policial federal pelo herói "tira de minorias".
Esse mito foi expressado ad nauseam em seriados como Columbo,
Kojak e o recentemente refilmado tira negro Shaft. Ou
seja: democracias, mesmo a passadista republicana dos EUA, têm
de expressar em seus mitos de autoridade as vontades representativas
das minorias. Mesmo que farsescamente. Mesmo que a título de
toma-lá-dá-cá. A bola da vez é mostrar que
a resposta final está nos genes. Que o corpo humano é
transparente. Que as situações são transparentes
(reality shows). Que somos sistemas fechados, como computadores. E que
nossos genes são como chips de computador. Por que isso? Porque
em menos de dez anos as empresas que lidam com implementos de biotecnologia
estarão movimentando algo como US$ 400 bilhões por ano.
Cai bem, sobretudo ao bolso dessas empresas, a maioria norte-americanas,
dizer que a transparência do corpo é a bola da vez.
Nos EUA talvez a única voz que
impreque contra essa nova ideologia, a da transparência dos genes,
seja o geneticista de Harvard Richard Lewontin. Sem
fazer a mínima concessão a essa nova febre, Lewontin dispara
que "o preço da metáfora é a eterna vigilância".
Ou seja: vamos pagar um preço, e em dólar, por acreditarmos
que a genética é o novo Santo Graal. Bem, já vimos
esse filme, com outros atores, em outras épocas. No final da
Idade Média, quando o Mercantilismo ainda engatinhava, surgia
a arte grotesca, e a noção de que o corpo belo, saudável,
era aquele gordo e disforme: afinal, para ter engordado tanto, teve
de consumir muito. Era a figura do consumo que surgia, com virulência,
e se expressando sob a metáfora do corpo grotesco.
O maior estudioso disso com base em Rabelais,
o russo Mikhail Bakhtin, também gosta de contar que toda vez
que as elites começam a derrocar, saindo de mansinho pela porta
dos fundos da história, vão buscar conforto e explicações
na biologia. "É como se os homens dessas épocas desejassem
fugir do clima da história, tornado incômodo e frio para
eles, e exilar-se no aconchego do lado animal da vida." Uma
análise feita por este repórter em 14 anos de publicações
nacionais e estrangeiras mostra que mais de 98% das notícias
sobre biotecnologia dão conta de que a resposta final está
nos genes. Felizmente, somos maiores do que isso: somos sistemas abertos,
como a meteorologia e a economia, de resto imprevisíveis. Corpo
não é sistema fechado como computador, nem gene é
chip. Mas a bola da vez, a velha-nova ideologia biologista, quer o contrário.
Mostra, seja nos reality shows, seja nas notícias de jornal,
que nada escapa à transparência: em que tudo o que se pode
saber sobre alguém está escrito nos genes. É tragicômico
imaginar que, frente esse novo barato, Darwin esteja sapateando de alegria
sobre a tumba de muito cientista. Esse é o mais novo chavão,
que me incomoda muitíssimo.
MD - Qual a importância de Timothy
Leary hoje?
CT - O Leary criou a contracultura. Valores que na época
dele eram contraculturais, como igualdade entre homens, mulheres e gays,
pacifismo, preservação da natureza, direitos humanos,
igualdade entre minorias e maiorias, viraram valores do sistema e hoje
são aceitos sem maiores problemas. Ele era um gênio, muito
controvertido. Fui o último a entrevistá-lo, em seu leito
de morte, em Beverly Hills. Trouxe ele pro Brasil em 1990. Fiz o prefácio
de sua autobiografia, Flashbacks. Uso o pensamento do Leary em
meus cursos nas faculdades em que dou aulas.
Entrevista:
Giuliano Ventura
Imagens de Tognolli: arquivo pessoal, Caros Amigos, Unifiam