Artigo
A Polêmica
do Absurdo
A Paixão
de Cristo levanta falsas polêmicas entre judeus e cristãos
Considerado
o filme religioso mais bem sucedido da história, A Paixão
de Cristo é péssimo do ponto de vista estético.
Além do mais, a polêmica criada por judeus e cristãos
é totalmente descabida. O
grupo judaico Liga Antidifamação considerou o filme anti-semita.
O porta-voz da Liga, o rabino Bretton-Granatoor, afirmou que "os
judeus são retratados como pessoas sedentas por sangue e gananciosas".
Mel Gibson se defendeu dessa e de outras críticas dizendo que
a película não foi feita para atacar os judeus, mas para
retratar de maneira realista as últimas horas de Cristo. Em recente
entrevista para lideranças religiosas disse que sua obra "culpa
coletivamente a humanidade pela morte de Jesus. Sou o primeiro da fila
da culpabilidade. Eu fiz aquilo. Cristo morreu por todos os homens de
todas as épocas". As principais lideranças protestantes
dos Estados Unidos deram apoio ao diretor e o teólogo Robert
Hodgson, reitor interino da Associação Bíblica
Americana, delirou: "o filme é um retrato poderoso, convincente
e fielmente histórico sobre as últimas doze horas da vida
de Jesus".
Esses
depoimentos assumem duas premissas: os Evangelhos são documentos
de valor histórico; Jesus Cristo existiu tal como está
escrito nos Evangelhos. Quase nada poderia ser mais absurdo. O Jesus
da Bíblia é um ser mitológico - não há
como provar sua existência histórica e não existe
um só documento escrito por seguidores, como o Novo Testamento,
ou por historiadores da época que possa resistir a uma investigação
detalhada.
É muito provável que o mito
de Cristo tenha derivado a partir da história do fundador do
culto Essênio, esse sim, um Jesus histórico, que foi crucificado
em 88 a.C.. Conforme
atesta o pesquisador Emmett Fields, manuscritos essênios encontrados
no Egito em 1947, datados de cerca de cem anos antes do suposto nascimento
de Cristo, contêm quase todo o mito do Novo Testamento e destroem
a credibilidade das fundações históricas do Cristianismo,
provando que os livros cristãos são deformações
de uma fonte anterior. Segundo ele, "do culto dos Essênios
da velha religião judia, evoluiu um Deus novo, um mito novo,
uma religião nova e um Testamento Novo".
Ou seja, o Cristianismo é uma heresia
judaica e, além disso, como todas as religiões, não
expressa uma verdade universal, mas crenças particulares, partilhadas
pelos membros de uma comunidade. Mas, como é freqüente,
a arrogância faz os devotos esquecerem o relativismo de suas crenças
e assim, expõem sua ignorância a respeito da História,
como é caso do teólogo Robert Hodgson.
A
Liga Antidifamação, ao condenar A Paixão de
Cristo como anti-semita, praticamente admitiu como realidade o mito
da crucificação do homem-deus. Seria mais sensato o rabino
Bretton-Granatoor desacreditar seus detratores, admitindo que a mitologia
cristã é uma crença e não uma verdade histórica.
Ou seja, os judeus antigos serem os assassinos do deus dos cristãos
é um mito, não um fato histórico. Agir assim seria
inteligente e respeitável. Mas é claro que essa abordagem
não interessa às religiões. Grupos de judeus e
cristãos americanos preferiram lançar uma série
de palestras para explicar como os "Dramas da Paixão",
encenados na Europa medieval, foram usados para estimular a violência
contra as comunidades judias naquela época.
Seria igualmente inteligente e respeitável,
Mel Gibson ficar calado e guardar para si a culpa pela morte de um personagem
que não existiu tal como descrito no Novo Testamento. Mas ele
preferiu delirar abertamente e expor o seu fanatismo universalista,
afirmando que toda a humanidade é culpada pela crucificação
e que Jesus morreu (sic) "para salvar todos os homens de todas
as épocas". No início do século XXI, a Idade
das Trevas continua. Firme, forte e mandando no dinheiro.
Rhodrigo Deda