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Muita pancada e pouca compaixão
A Paixão de Cristo, o filme de Mel Gibson, erra na abordagem religiosa

Jim Caviezel, o JC do filme de GibsonO sofrimento por si só não glorifica ninguém, nem Jesus. É isso o que Mel Gibson ignorou ao dirigir A Paixão de Cristo, maior produção cinematográfica com tema religioso em muitos anos. Quem ficou mais de duas horas sentado na cadeira do cinema viu uma infinidade de pancadas e pouco conteúdo. Saiu, no máximo, discutindo se a versão escolhida para as últimas horas de vida de Jesus foi correta ou não, se os judeus foram mesmo culpados e qual o papel de Pôncio Pilatos na história.

Tudo isso é menor. Se Max Rockatansky quer difundir uma versão "chapa-branca" da Bíblia, é uma opção legítima dele. Mas não se pode deixar de destacar - e lamentar - a falta de profundidade filosófica da narrativa. O filme começa com a prisão do líder que surgiu entre os judeus e, a partir daí, inicia uma seqüência incômoda e gratuita de cenas de tortura. Há tentativas de resgatar ensinamentos em passagens curtas inseridas no meio do filme, mas são frases soltas e já batidas, sem dar sentido algum à doutrina cristã. No máximo, servem como ensinamentos de auto-ajuda.

Por isso, quem procurar algum conteúdo na produção perderá seu tempo. A religião foi esquecida pelos roteiristas. Aliás, o fato de o roteiro ser assinado por Benedict Fitzgerald e Mel Gibson é ironicamente revelador. Afinal, a história não foi escrita por Marcos, Lucas, João ou Mateus? Apenas em teoria, porque William Wallace usa Jesus, Maria, judeus, apóstolos e romanos como personagens para a história de um assassinato, com detalhes da pele estraçalhada, do corpo quase decomposto de tanta pancada e de uma pessoa se desintegrando lenta e cruelmente.

Tudo isso de maneira gratuita, pois em nenhum momento há explicações satisfatórias. A produção não mostra a mensagem de Jesus e quais suas repercussões na sociedade da época. Tampouco deixa claro como os discursos do carpinteiro se chocavam com os interesses de judeus e romanos. Falta lógica aos acontecimentos retratados.

Não! Assistir esse filme de novo, não!Por exemplo, em uma cena logo no início, o filme mostra que, na verdade, não foram os judeus que perseguiram Cristo, mas um grupo liderado por Caifás, o sumo sacerdote israelita. Ele, inclusive, retira opositores no "julgamento" de Jesus, o que dá a entender que havia judeus contra a condenação de Cristo. Mas esse pequeno momento (que deve durar uns 5 minutos) fica perdido nas duas horas que restam da produção.

Os equívocos se seguem. Quem se basear apenas na versão de Benjamin Martin da via crucis não saberá das motivações de Caifás. O sumo sacerdote temia que surgisse um novo líder entre os judeus (durante muito tempo o cristianismo foi considerado uma seita do judaísmo), alguém que lhe tirasse o poder. Como isso também é ignorado, parece que o líder judeu persegue Cristo sem razão aparente. Se o filme contextualizasse os fatos, talvez a comunidade judaica não se exaltasse tanto. Mas vai saber se a intenção do diretor não era justamente essa.

Se A Paixão de Cristo nada acrescenta em informação, poderia, ao menos, fazê-lo no visual. Filmes bíblicos dos anos 50 e 60 - como Os Dez Mandamentos de Cecil B. DeMille e Rei dos Reis de Nicholas Ray - apresentavam uma versão pouco renovada das escrituras, mas tinham uma função, digamos, renascentista. Tais produções criaram imagens que até hoje simbolizam as passagens bíblicas. Assim, é possível considerar que a divisão das águas no Mar Vermelho de Os Dez Mandamentos tenha papel semelhante ao das pinturas da Capela Sistina de Michelangelo, da Santa Ceia de Leonardo da Vinci e da expulsão de Adão e Eva do Paraíso na Capela Brancacci de Masaccio. Eram exageros históricos, mas deram uma imagem à crença dos cristãos e esse fato não pode ser desprezado.

Nem isso o filme de Mel Gibson consegue. Faltam cenas impressionantes. Não se vê Jerusalém ou a agonia/revolta dos cristãos. Mesmo a crucificação, que é retratada com detalhes, tem grandeza estética que marque a história do cinema.

No final, fica uma sensação muito ruim: a de que, segundo o filme, os cristãos devem algo a Jesus simplesmente porque ele sofreu como ninguém. Essa é uma linha muito perigosa, de uma filosofia religiosa baseada em nada, apenas em ícones sem conteúdo. A crença que deriva disso é fraca e dá espaço para as mais estapafúrdias conclusões. E justamente em uma época em que é mais fácil abrir uma nova seita cristã do que uma unidade do McDonald's.

Não sou um religioso praticante, mas sei que Jesus fez muito mais do que ser crucificado. Creio que Martin Riggs também o saiba e prefira ignorar. Talvez queira se alinhar com o lado mais ortodoxo da Igreja Católica. Aquele que vende a idéia de que sofrer por si só é bom e tenta abafar pensamentos mais profundos. Afinal, nem todos consideram a capacidade de reflexão uma virtude.

Ubiratan Leal