Matéria
Novas Crônicas
da Nemédia
Conan ganha mais uma
chance de fazer sucesso nos quadrinhos
Nem
Homem-Aranha, nem Batman, nem os X-Men, nem Super-Homem. No Brasil,
o personagem recordista em números de revistas em quadrinhos
regulares batizadas com seu nome é um certo bárbaro que
foi criado originalmente para figurar em livrinhos de pulp fiction.
Agora, chega às bancas uma nova integrante para a lista que inclui
Espada Selvagem de Conan; Conan em Cores; Conan, o
Bárbaro; Conan Rei; Rei Conan; Conan Saga;
Conan, o Aventureiro... (isso tudo fora almanaques especiais,
revistas-pôsteres, quadrinizações dos filmes, graphic
novels e até as seis edições pré-históricas
que rebatizaram o personagem como Harthan, o Selvagem [!]). Conan,
a Lenda é um prelúdio, um número zero, que
a Mythos Editora lança no Brasil apenas quatro meses depois de
sua publicação nos EUA, onde bateu recordes de vendas.
A revista, de apenas 20 páginas, serve por sua vez de aperitivo
para Conan, o Cimério, a publicação que
a partir de abril passará a limpo, todos os meses, a carreira
da maior criação de Robert E. Howard (1906-1936).
O novo título será uma parceria
da Mythos com a Dark Horse, editora americana que passou a deter os
direitos do bárbaro depois que a Marvel marcou bobeira com o
personagem. Lá o coitado vinha sofrendo há anos com péssimas
histórias feitas com seu nome. Para revigorar o cimério
(quem não souber o que é isso, calma que em seguida eu
explico) a nova casa deu carta branca para a equipe criativa começar
tudo do zero, adaptando as histórias clássicas deixadas
pelo criador de Conan. Os argumentos ficaram a cargo de Kurt Busiek,
autor do qual já falamos algumas vezes aqui ao resenhar sua minissérie
Liga da Justiça & Vingadores. Já o desenhista
é descon
hecido
pelos brasileiros: o canadense Cary Nord, que optou por usar uma técnica
de arte um tanto polêmica. A exemplo do que fizeram Andy Kubert
e Richard Isanove na minissérie Origem (sobre o Wolverine,
resenhada em O
Malaco # 9), Nord dispensa a arte-final a nanquim, repassando seu
desenho a lápis direto para Dave Stewart fazer a pintura digital.
O efeito é bem diferente do material clássico da Marvel,
feito por talentos altamente saudosos como John Buscema e Alfredo Alcala.
Bem, a arte é polêmica, mas
a maior expectativa é mesmo em relação ao que Kurt
Busiek pretende fazer nos textos da série mensal. Em entrevistas,
o veterano escritor jurou fidelidade ao material original, dizendo que
vai adaptar em ordem cronológica cada aventura criada por Howard
e, entre uma história e outra, criará novos episódios
para a conturbada trajetória do grandalhão. Com isso,
Busiek vai inevitavelmente ter cada passo seu comparado ao trabalho
de Roy Thomas, o cara que em 1970 convenceu uma reticente Marvel a apostar
naquele inusitado personagem, tão diferente dos seus típicos
super-heróis. Thomas, que também trabalhou com HQs baseadas
no Tarzan de Edgar Rice Burroughs, tornou-se o adaptador oficial de
todas as histórias de Conan, não só as do seu criador
como também de diversos outros autores que trabalharam com o
personagem no formato pulp. O novo roteirista, apesar de elogiar muito
o trabalho pioneiro dos anos 70, disse que pretende trabalhar com um
estilo bem distinto de texto. Só esperando para conferir.
A
fininha Conan, a Lenda não dá uma noção
muito exata do que teremos pela frente a partir de abril. As 16 páginas
de quadrinhos mostram apenas o esnobe herdeiro de um vasto império,
em um período de tempo indeterminado, que ao explorar os novos
territórios conquistados por seu pai encontra as ruínas
de uma antiga cidade chamada de Tarantia. Entre as poucas coisas que
sobraram de uma civilização arruinada por um cataclisma
continental, ele topa com uma estátua de Conan. Intrigado com
o monumento, o herdeiro manda o intelectual que acompanhava sua comitiva
pesquisar a respeito daquela misteriosa figura. O tal Wazir descobre
e traduz velhas conhecidas dos leitores de Conan, as Crônicas
da Nemédia, que em sua passagem mais célebre ("Saiba,
ó príncipe, que entre os anos em que os oceanos tragaram
a Atlântida e as cidades resplandecentes, e o período em
que surgiram os filhos de Aryas, houve uma era inimaginada"), descreve
justamente a carreira do dito cujo. Então é mesmo só
um tira-gosto que nos EUA foi vendido a módicos 25 centavos de
dólar (no Brasil, infelizmente o valor foi reajustado para R$
3,50 e ainda cortaram alguns extras da revista), que ajudou, e muito,
para que ela batesse recordes de vendas, com tiragem chegando a casa
dos seis dígitos.
O
preço de capa não foi estipulado à toa. Os 25 cents
de Conan: The legend repetem o valor cobrado da revista de contos
Weird Tales, onde em plena recessão americana o bárbaro
fez sua estréia. De 1932 a 1936, o texano Robert E. Howard publicou
naquele título 18 histórias do personagem, contando de
forma nada organizada a vida de um aventureiro que foi ladrão
na adolescência, pirata aos 20 anos, líder de saqueadores
do deserto aos 30, rei aos 40, imperador aos 50... Com a morte de seu
criador, no dia 11 de junho de 1936, aos 30 anos, que se suicodou ao
saber que sua mãe nunca sairia de um estado de coma, o destino
lógico de Conan seria cair no mesmo esquecimento que dezenas
de outros personagens de pulp amargaram pós-recuperação
econômica dos EUA. O fator decisivo para isso não acontecer
foi um lote de histórias inéditas, algumas incompletas,
encontrada entre o espólio do autor nos anos 50, pelos também
escritores L. Sprague de Camp e Lin Carter (que vieram a se tornar prolíficos
criadores de novas aventuras de Conan). Esse material foi publicado
com sucesso, deu origem a uma coleção de livros de bolso
com capa dura (produzidas por Frank Frazetta, referência do novo
desenhista Cary Nord) e inspiraram muitos novos escritores a continuarem
o legado de Howard. Parte desse material em forma de texto também
saiu no Brasil, no meio dos anos 90, pela editora Mercuryo, com seus
livros de bolso chamados Conan - Espada & Magia.
Foi em ótima hora que ocorreu tal
resgate da obra do autor, um pioneiro e renovador de um estilo de ficção
histórica chamado justamente de Espada e Magia, tal como acontece
com Dumas e a Capa e Espada. Assim milhões de pessoas puderam
conhecer o atípico Conan, um personagem que como definiu certa
vez Lin Carter "nunca será o modelo de herói, mas
um mercenário calculista, lutando pela sobrevivência num
mundo bárbaro onde nem sempre os finais são felizes".
Mais do que isso, evitou-se o esquecimento de todo um fascinante universo
ficcional, aquela "era inimaginada" relatada pelas Crônicas
da Nemédia. Howard elaborou toda
a
geografia, mitologia e hábitos sociais de sua Era Hiboriana,
um período de tempo demarcado há 12 mil anos, quando Ásia,
Europa e África estariam unidas em um supercontinente. Dentro
desse mundo imaginário a liberdade de criação do
autor foi infinitamente maior e assim pôde desenvolver a trajetória
de Conan, um bárbaro nascido no meio de um campo de batalha na
selvagem Ciméria (onde hoje está localizada a Inglaterra,
apesar dos incompetentes editores da Abril falarem para os leitores
que era a Escandinávia) e que se tornou rei da poderosa Aquilônia
(aproximadamente a França e a Alemanha atuais).
É grande a tentação
de comparar o texano Howard com o britânico J.R.R. Tolkien e a
Era Hiboriana com a Terra Média, mas existem fartas diferenças.
Para resumir de forma rápida e rasteira (e correr o risco de
ser assassinado por algum neo-nerd de O Senhor dos Anéis)
dá para se dizer que Howard está para a História
assim como Tolkien está para a Lingüística. É
que enquanto o grande achado dos livros da trilogia dos Anéis
está nas versões que o autor desenvolveu para dialetos
élficos e de outros bichos da fauna da Terra Média (em
detrimento do desenvolvimento dos personagens e da elaboração
de uma trama que não fosse piegas), o criador de Conan demonstrou
em suas dezenas de contos um grande conhecimento de fatos históricos,
não só com seu personagem principal, mas também
com outras criações (como o picto Bran Mak Morn, na Roma
Antiga, ou o puritano Salomão Kane, da era Elizabetana). Todas
essas qualidades voltarão a ficar em evidência a partir
dos próximos meses, com o trabalho de Busiek, Nord e Stewart.
Vale a pena acompanhar com um olho nos quadrinhos e outro em um bom
atlas histórico.
Romeu Martins