Matéria
(?)
Anti-Vídeo
Show já!
Onde está a
internet quando mais precisamos dela?
Se
você procurar qualquer escândalo recente que foi televisado
nos Estados Unidos, mais cedo ou mais tarde vai encontrar algo nos programas
de troca de arquivos pela rede. Pode procurar: Janet Jackson no Superbowl,
beijo de Madonna e Britney Spears, esquetes do Saturday Night Live,
renúncia de Nixon, está tudo lá. Mesmo coisas que
nunca chegariam perto da televisão aberta. Pamela Anderson e
Tommy Lee? É pra já. Paris Hilton e o namorado? Caiu na
internet, ninguém segura mais.
Já o Brasil, tão pródigo
em cenas antológicas na televisão, tem contribuído
pouco para o acervo pirata de vídeos da internet. O potencial
da rede está sendo subutilizado por aqui quando o assunto é
driblar as barreiras de censura interna das emissoras. As melhores cenas
que passaram na TV nunca serão repetidas no Vídeo Show.
Quem tem algo gravado, deve urgentemente fazer a transposição
para o formato digital e, de leve, deixar cair num KaZaA ou Soulseek
da vida.
O Marca Diabo, em um esforço de
memória, lista aqui algumas cenas que pedem desesperadamente
para cair na rede e serem conhecidas pelas novas gerações.
No futuro, quando for revelado que Silvio Santos era agente da CIA,
elas agradecerão.
1991 - Professora Helena desce a rampa
com Collor
Houve
uma época, num passado nada remoto, em que o Brasil era bombardeado
quase diariamente por cenas inacreditáveis produzidas por seu
presidente da República. Pior, poucos se espantavam. Quem leu
o livro Notícias do Planalto sabe o que é isso.
Relembrar os fatos da era Collor provocam flashbacks horríveis,
do tempo em que figurão com boné do MST não mereceria
nem nota em jornal. Como as pessoas engoliam um playboyzão se
exibindo em manobras de jet-ski no lago Paranoá? Como a imprensa
podia correr atrás dele só para verificar qual a mensagem
da camiseta do fim de semana?
Um
dos rituais de factóides mais ridículos - organizado pela
mãe do Gabriel, o Pensador - era a descida da rampa do Planalto.
Toda sexta-feira, enquanto o collorido ainda tinha popularidade em alta,
desfilava a empáfia acompanhado de um bando de puxa-sacos no
percurso. A lista ia desde atrizes decadentes como Claudia Raia e Marília
Pera, até Ayrton Senna (dizem que o piloto chegou a pedir para
descer a rampa para aparecer ao lado do caçador de marajás).
Como não fosse ridículo o suficiente, em agosto de 1991
Collor bateu qualquer recorde ao descer rampa em companhia da professora
Helena (a atriz Gabriela Rivero) e as crianças da novela mexicana
Carrossel, todos devidamente paramentados.
1994 - Parabólica do Ricupero
Depois
da queda de Collor, veio o governo Itamar Franco, aquele que posou ao
lado da errr...moça sem calcinha no sambódromo do Rio.
Mas o escândalo televisivo mais vistoso da era do fusquinha foi
protagonizado pelo ex-ministro da Fazenda Rubens Ricupero. Em 1994,
durante uma conversa informal com o jornalista Carlos Monforte, num
estúdio da Rede Globo, Ricupero falou sobre a campanha presidencial
que corria e disse "não ter escrúpulos" em utilizar
os resultados econômicos para ajudar a eleger o candidato do governo,
Fernando Henrique Cardoso. "O que é bom a gente fatura,
o que é ruim, esconde", disse o então ministro. A
conversa estava sendo transmitida por um canal de serviço da
Globo e foi captada por uma antena parabólica de um telespectador,
que gravou e repassou à Folha de S. Paulo. A cagada estava
feita.
2004 - Silvio Santos no Big Brother
Brasil
Esta
é bem recente. Durante uma das "espiadinhas" ao vivo
que o mala-mór Pedro Bial chamava após conversar os "tripulantes
da nave Big Brother Brasil 4", os sem-noção reunidos
dentro da casa resolveram imitar o seu Silvio. Corrijam-nos se estivermos
errados, mas só lembrávamos de alguma menção
ao Homem do Baú na Rede Globo (após anos 70) quando ele
foi candidato-relâmpago a presidente e quando aconteceu todo aquele
rolo do seqüestro da patricinha filha dele.
Foi um tal de rá-raaaaiii pra lá,
oooeeeeiii pra cá, que chegou ao cúmulo de os caras perguntarem
um ao outro se compraram o carnê do Baú da Felicidade,
sabidamente a grande mina de ouro de Senor Abravanel. Essa é
uma que, com certeza, só vai ser vista de novo se cair na internet.
2003 - Gugu Liberato e o falso PCC
Mais
um clássico recente. A entrevista forjada mais tosca de todos
os tempos foi protagonizada por dois manés no Domingo Legal,
programa dominical de Augusto Liberato. Aliás, três manés.
Os dois que toparam vestir capuzes e se fazer passar por integrantes
do Primeiro Comando da Capital, facção criminal paulista,
e um terceiro, que se dizia jornalista e jogou a carreira no lixo ao
topar participar da farsa.
Na maior cara-de-pau, dispararam ameaças
contra vários apresentadores de programas policiais de outras
redes de TV. Nem a manha de incluir
um
do SBT também tiveram. Na hora, ficou óbvio que era mentira.
Mesmo assim, Gugu foi no programa da Hebe chorar, fazer cara de bom-moço
e dizer que não sabia de nada.
Como o episódio foi bem explorado
nos programas dos atingidos, esse deve ser um pouco mais fácil
de conseguir, mas como essas disputas entre as redes de TV costumam
acabar em pizza, melhor garantir mandando para a internet.
1995 - Bispo da Universal chuta a
santa
Uma
das disputas mais legais entre TVs deu-se entre Globo e Record em 1995.
No dia 12 de outubro, o dia Nossa Senhora Aparecida, o bispo Sérgio
Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, resolveu chutar uma
imagem (bem grande, aliás) da padroeira do Brasil. A imagem,
veiculada com destaque pelos telejornais da Globo, obviamente despertou
revolta nos católicos.
A Globo, que já havia pegado no
pé do bispo Edir Macedo e cia., veio com carga total. Devassou
os métodos pouco ortodoxos de angariar fundos dos pastores, mostrou
as cenas de uma montanha de dinheiro desfrutada pela cúpula da
igreja pentecostal em viagens, questionou as isenções
de impostos concedidas à Universal.
Enfim,
denunciou tudo e mais um pouco. Depois de algum tempo, a coisa esfriou.
Não dá para dizer que acabou em pizza, mas parece que
pelo menos um tratado de não-agressão foi assinado. Quer
dizer, talvez. A Record é a que mais grita contra a possibildade
de o BNDES emprestar dinheiro às empresas de comunicação
brasileiras. E quem mais quer que esse dinheiro saia? Adivinhe, Mister
M...
1994 - Cid Moreira "ataca"
Roberto Marinho
De
todos os momentos antológicos da história da televisão
brasileira, possivelmente esse é o maior. "Tudo na Globo
é tendencioso e manipulado" disse Cid Moreira, no dia 15
de março de 1994. O homem-espantalho que por anos personificou
a imagem da Rede Globo, de repente começa a ler, em pleno Jornal
Nacional, um texto em que acusa a emissora de manipuladora, servil,
gananciosa, interesseira.
Nelson de Sá, na Folha de S.
Paulo, registrou assim o ocorrido:
"Cid Moreira, a voz do dono, a voz
do Grande Irmão, a voz que surgiu do AI-5, voltou-se contra si
mesma. Foi um daqueles momentos que servem como símbolos, como
instantâneos da história. Cid Moreira falou, e falou e
falou, contra Roberto Marinho. Foram três longos minutos, contra
a Globo, no Jornal Nacional. O redator era Leonel Brizola, que ganhou
direito de responder ao ataque que havia recebido do mesmo Jornal Nacional,
que o chamou de senil."
Podem falar o que quiser de Leonel de
Moura Brizola - e
tem
muito o que se falar mal dele mesmo. Mas o Brasil um de seus maiores
momentos humorísticos ao velhote. Em seu segundo mandato como
governador do Rio de Janeiro, conseguiu direito de resposta em pleno
JN por um editorial em que fora acusado de estar com a "saúde
mental em declínio".
Esses são apenas alguns exemplos
recordados a esmo por nós. Todavia, gostaríamos de contar
com os leitores do Marca Diabo para fazer uma segunda matéria,
com mais momentos da televisão brasileira que têm de cair
na internet e é pra já. Se você tem alguma idéia,
mande para marca_diabo@yahoo.com . Se você tem alguma dessas coisas
gravada em vídeo na sua casa, corra e divulgue nos programas
peer-to-peer. Se você não souber (ou não quiser)
fazer isso, mande uma cópia da fita para a gente. Prometemos
fazer o serviço com o maior prazer.
Adolfo de Bem